• Paulo T. Vasconcellos

Você vai pro Inferno.




Eu também. Quem diz isso não é a bíblia, mas a Astrologia. A boa notícia é que isso é algo bom. Acho.


A primeira coisa que as religiões e as filosofias mágicas precisam fazer quando são criadas é explicar o mundo. Afinal, se alguém pretende responder os anseios primordiais da humanidade, precisa de uma visão de homem/mundo coerente com a realidade.


(Por exemplo, a internet criou a brilhante cosmogonia de que a Terra é plana como um frisbee, foi criada por "God", que a arremessou no espaço-tempo para que a força oposta "Dog" a pegasse e devolvesse para God. Digam o que quiserem: já vi cosmogonias piores.)


A Astrologia trabalha com uma cosmogonia geocêntrica: A Terra está no centro do Universo, os sete planetas (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno) orbitam a Terra, as almas foram introduzidas na Criação por um Deus que está fora dela pelos furinhos no véu (as estrelas) e o objetivo final seria sair da Criação.


Diversas religiões usam essa cosmogonia e puxam a sardinha pra própria brasa: uns falam que pra transcender a criação você tem que cumprir alguns mandamentos (pare de comer porco), outras falam que seu coração tem que ser mais leve que uma pluma (capricha no Cardio) e outras mandam amar a todos incondicionalmente (prefiro cortar o bacon e caprichar no cardio porque amar algumas pessoas, só se for incondicionalmente, porque, francamente, sem condições).


Qualquer que seja o método escolhido, algumas coisas ficam meio claras: à medida em que você sobe (ou desce - essa cosmogonia é esférica, por baixo, por cima e até de ladinho têm saída), existem "desafios" ou "julgamentos". Dois são os mais famosos: o Julgamento de Saturno pra sair da Criação (na mitologia Cristã representada por São Pedro) e o Julgamento do Sol (na mitologia cristã representada por Cristo).


Peço desculpas aos leitores que torcem o nariz para o Cristianismo por fazer tanta referência a ele, que é completamente desnecessário para fins de cosmogonia, mas não existem muitas outras religiões que vêm ameaçar com o fogo eterno do inferno, que é o elemento do título desse texto (e clickbait agora vergonhosamente admitido).


Para entender o "julgamento" do Sol e de Saturno (e também de marte) é importante entender que esses planetas são ditos "maléficos", na prática, agressivos, estéreis, esterilizadores ou, de forma geral, e cada um com sua particularidade, destrutivos.


Um ótimo lema para os planetas maléficos é "aquilo que não consegue sobreviver não merece sobreviver". Impiedoso? Muito. Mas quem olhar para uma floresta, com a disputa incessante de recursos como água e luz do sol vai ver que o nosso mundo não é muito mais misericordioso que isso.


O Julgamento do Sol é um julgamento de Fogo (lembra o inferno de alguma religião?), no qual queima-se aquilo que não merece (ou consegue) sobreviver.


Via de regra, perder o que não merece (ou conseguem) sobreviver não é nada muito problemático (afinal, se você esquece uma coisa e não lembra, o quão importante ela era?). Perder essas partes só é algo muito ruim quando você se apega a elas e se recusa a mudar ou aceitar que as coisas mudam. Insira aqui alguma metáfora sobre se apegar às coisas que lhe fazem mal (o budismo tem um monte dessas historinhas bonitinhas).


Sim, eu sei, parece muito cruel uma realidade na qual existam "testes" para que você consiga sair dela. Se eu tivesse que falar alguma coisa a esse respeito, eu diria que a existência está cheia de etapas desagradáveis entre a morte e o nascimento, sendo essas duas etapas notoriamente dolorosas (tanto pro parido quanto pra parturiente). Faz certo sentido que a vida metafísica seja como a vida física e também tenha etapas desagradáveis.


No fim, me parece muito mais elegante, enquanto cosmogonia, que o Teste do Sol possa ser um inferno ou uma iluminação, dependendo da disposição para aceitar as mudanças, do que uma dimensão criada por uma divindade para punir pessoas que se masturbam ou comem bacon. Até mesmo porque, francamente, não é necessário esperar morrer para ser punido pela realidade por se recusar a crescer.

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