• Pri Martinelli

Verbo e Silêncio

Reflexão


“Se não posso romper o silêncio sobre o que me afeta, tampouco posso guardar o silêncio! É, certamente, doloroso pra mim, tomar a palavra, mas também é doloroso calar me: de todos os lados, aflição!” - Ésquilo

Para os oradores gregos o silêncio, em exposição, é preenchido de significado e gravidade. Não interpretado como mera e inocente decisão de nada dizer, por não ter o que dizer, mas como instrumento da eloquência e persuasão. Ora, não são as pausas da melodia o que empresta sentidos além das notas? Assim, no encontro com a pessoa que encara através do espelho, falam , sobre nós e conosco, categoricamente os silêncios que empenhamos.




Não há definição limitante de uma espécie de fala ou de um único tipo de silêncio. Há uma infinidade de realidades no falar e no calar, talvez encontrem significado ao se reconciliarem na ação, quando empenhamos uma fala que cala, como o poder da água que tudo esfria e arrefece, ou um silêncio que fala alto, com o fogo que arde e cria movimento. Desenvolvendo esse princípio do silêncio edificante e compelida a tornar plausível, restando-me apenas o encontro inevitável, escolho criar o paradoxo de falar sobre o calar.


Assim como na música, onde a pausa é um elemento musical, o silêncio empresta beleza e profundidade. Requer desafio, enfrenta o ego tão acostumado à debater se por um lugar ao sol sem sair das sombras. O silêncio escurece às confusas idealizações exteriores e indica um caminho para mundos internos cheios de cor e luz.


O desafio da esfinge, um verbo dedicado aos silêncios, carrega uma perspectiva das fronteiras que esse desafio impõe e transpõe. Pelas colunas fundamentais da magia ocidental o Calar vindica, além do ordinário não falar, a convicção de se fazer entender e empregar a vontade no mundo sem se debater em palavras. Por que é no silêncio que enfrentamos o mais íntimo de nossos pensamentos e a complexidade do que não sabemos de pronto.


De natureza inquietante, o calar é um antidoto para a projeção que distrai de nós e de nossa própria fluidez. Não é portanto um fim em si mesmo, mas um meio, um método de comungar com os desafios que cultivamos. Sem nenhum romantismo, silenciar na contrição, é o animal mais selvagem com qual esbarrei, até agora. Se ouso observar, me obrigo a questionar quem sou, e a qualquer menção de resposta coloco-me a prova, e nada como o silêncio para ferver e esfriar esse teste que só a mim deve prestar contas.

Não posso remeter a primeira lição a nenhuma outra figura do que minha avó, que por finuras do destino chama se Santina, a santa pequenina que repetia em meus momentos de fúria, buscando romper tolamente o que ainda não compreendia: “Na raiva, calada você vence!”. É no fim que retorno à todas as minhas coisas aprendendo novamente lições antigas.


Dizer como um ou outro deve silenciar, ou falar, não seria mais do que meu barulho projetado para fora mais uma vez, logo este falar torna se mais um bálsamo no desafio de, que como nós, há muitos e não estamos sozinhos. E a lembrança de que nosso intelecto débil, uma vez no controle da situação, se torna tão infértil quanto nada fazer, talvez mais pernicioso. Acalmar essa tempestade espiritual e emocional é incrivelmente difícil, e a única forma de conseguir isso é encarando o problema de frente, coisa que só conseguimos fazer quando nos recolhemos o suficiente para ouvir quão perturbadas nossas almas realmente são.


Palavras têm poder, ainda que ditas em voz baixa, e ecoarão para a eternidade criando e alterando a realidade conforme o que falamos ou escolhemos silenciar. A reclamação cobra esforço e empenho, tanto quanto qualquer atividade. Ser grato e generoso com as palavras construirá sabedoria e empatia. Não há necessidade de preencher todo momento vago com palavras, o estado de presença é uma oportunidade de momentos de encanto na simplicidade.


Mais do que grandes trabalhos espirituais de entrega por troca de favores, os sacrifícios imateriais que permitem a oportunidade de ser ouvido pela divindade, verticalizando a magia nossa de cada dia, passam por render se às próprias transformações. Nos vendemos a prestações em troca das ninharias da vida social: sensação de segurança, migalhas de amor, chantagens de inclusão, barganhas de reconhecimento. Mas aqui o sacrifício reclama os acessórios de sobrevivência que julgávamos tão necessários, inclusive discursos e desculpas infindáveis de defesa e acusação.


Como primeiro resultado, de relance me enxerguei no espelho, surpresa por ver a pessoa atrás de meus olhos, e em meio ao prazer e a comicidade, me mandei um beijinho e uma piscadela. Do outro lado do espelho eu sou complexa e comum. Isso nada ou pouco tem a ver com autoconfiança dentro da sua caixinha tão batida, mas desfruta de um estado de equilíbrio dinâmico onde é finalmente possível ser eu.







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