• Paulo T. Vasconcellos

Uma Entrevista - Kayla Upton.





Kayla Upton é uma escultora neozelandesa que decidiu produzir esculturas em bronze inspiradas nos arcanos maiores do Tarot. Impressionado com as peças divulgadas no Reddit.com e no Instagram, pedi uma pequena entrevista, traduzida abaixo:


1) Kayla, bom dia! Por favor, conte-nos um pouco da sua história: onde você nasceu, como foi sua infância e como se deu o caminho até você se tornar uma escultora.


Eu nasci na Austrália, mas fui criada na Nova Zelândia pela minha mãe, solteira, que era taróloga e terapeuta holística. Ela organizava grupos de estudos para pessoas treinarem suas habilidades latentes, o que era muito experimental.


Eu cresci em um ambiente muito estimulador da exploração de conceitos ocultos. Era completamente normal meditar e ter o Tarot lido para mim. Minha mãe me encorajou a explorar minhas crenças e pesquisar os diversos caminhos deixados nas diversas culturas.


Ela também me apoiava muito nas minhas expressões artísticas. Eu era uma criança bizarra, incrivelmente não-social. Me lembro distintamente de envolver meus bonecos e action figures em papel alumínio e embrulho de ovo de páscoa. Eu cobria eles de argila e esculpia novas faces. Olhando pra trás, parece meio assustador, mas eu te garanto que era completamente inocente. Minha mãe usava o pouco dinheiro que tinha para comprar material artístico e ela nunca me pressionou a participar de atividade “normais” de crianças da minha idade. Eu preferia ficar no chão, com um kit de arte do que brincar lá fora com outras crianças da minha idade. Foi altamente formativo me permitir ter espaço para desenvolver meus próprios entendimentos a meu próprio respeito, pelo que eu sou grata, porque isso me levou à carreira que eu tenho hoje.



2) Quando e como começou a sua carreira artística? Ela começou com escultura ou outras artes? E, na escultura, ela começou com metal ou se iniciou em outros meios?


Esculpir sempre foi fundamental para o meu entendimento do mundo ao meu redor. Mesmo quando diante de objetos em mídias bidimensionais, como pintura ou desenho, eu abordava pela aplicação de uma forma de pensar tridimensional. No final da adolescência e início dos vinte anos eu me dediquei bastante à pintura porque era um meio relativamente barato e acessível.


Eu revisitei a escultura na metade dos meus vinte anos enquanto eu estava explorando os mistérios do Tarot. Eu senti uma necessidade de esculpir os Arcanos Maiores. Algo dentro de mim sentia que era a única forma que eu tinha de entender de verdade o Tarot. Eu comecei com a carta do Diabo, esculpindo em argila sintética. Um tutor local viu meu trabalho e disse que estava construindo uma fundição de bronze e perguntou se eu gostaria de aprender escultura em bronze como estudante particular. Eu aprendi a esculpri bronze como se fosse completamente natural pra mim.



3) Como foi o seu caminho no esoterismo como um todo? Quando você começou a se interessar por estudar as ciências ocultas? Você teve alguma grande influência? Você se afilia a alguma escola ou grupo?


Ciências ocultas e filosofia foram constantes em toda a minha vida. Minha mãe foi minha primeira influência. Ela abriu o caminho para mim. à medida em que me tornei adolescente, desenvolvi interesse pelo misticismo oriental e explorei um pouco do budismo, Shintô, hinduísmo, etc. Percebi que muito da filosofia deles tinha uma estrutura de crenças semelhante à que eu tinha naturalmente, então foi bom ser apresentada a termos como reencarnação, prana e panpsiquismo.


Nos meus vinte anos eu comecei a explorar hermetismo e Qabalah à medida em que vi que eram os ancestrais das ideias com as quais eu fui criada. Entrei em um grupo do Dischord via r/occult (na rede social reddit) e acabei mantendo o servidor por cerca de um ano. Reestruturei o grupo com grupos de estudo que exploravam esses conceitos. Descobri que essa era uma forma muito poderosa de aprender e adquirir um entendimento dessas matérias muito rápido.


Eu sou atualmente secretária do nosso ramo da Sociedade Teosófica (meu marido é o presidente). Descobri ser extremamente valioso falar com outros estudiosos que vêm de outras bases em um grupo aberto a todas as explorações da espiritualidade. O que eu descobri ser fundamental para o ambiente da Teosofia são três pontos: formar um núcleo de irmandade universal humana, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor; encorajar os estudos comparados de religião, filosofia e ciência; e investigar as leis não explicadas da natureza e os poderes latentes na humanidade.





4) Quais os seus principais interesses em ocultismo? Apenas Tarot ou outros estudos e práticas também?


Meu principal interesse no ocultismo é Qabalah e Hermetismo. Especificamente a Árvore da Vida e o Tarot, com interesse adicional em Alquimia e os alfabetos sagrados, como hebraico.





5) Por que você decidiu esculpir os arcanos?


Minha forma de pensar é naturalmente a escultura. Eu acho que eu consigo entender melhor as coisas com visão espacial. O Tarot é algo que sempre foi parte da minha vida, mas eu queria entendê-lo em profundidade, e a escultura foi a única forma que eu encontrei de fazer isso.


6) Como você conduz o trabalho de escultura? Você tem alguma espécie de prática, ritual ou processo para chegar ao produto final?


Eu medito em cada carta, estudo em profundidade, procuro entender cada símbolo e obter um entendimento intuitivo disso. Depois eu costumo entrar em modo de pesquisa e buscar mitologias por trás das cartas e dos símbolos, indo tão longe quanto eu consiga e comparando a exemplos similares em diferentes culturas. Eu pego esses dois níveis de entendimento e busco uma síntese, aumentando, reduzindo ou transmutando de acordo com minhas próprias condições. As vezes isso me leva a resultados muito diferentes da carta original.


Eu percebi que durante o processo de escultura eventos, situações e conversas acontecem que desdobram um entendimento maior da carta. É como se a carta estivesse esculpindo o mundo ao meu redor enquanto eu estava esculpindo a carta. Basicamente um diálogo de duas vias. A despeito da falta de velas, círculos de giz e palavras em latim, era muito bem uma invocação de algo maior.


7) Você sente algum impacto ou influência dos arcanos no seu cotidiano durante o processo de criação?


Eu sinto que existem duas funções no meu trabalho. Primeiro, o processo de escultura em si é um processo de refinamento da minha alma. O trabalho interno tem sido incrivelmente profundo e eu sou muito feliz de ser um dos abençoados com com o conhecer da própria e verdadeira vontade. Cada trabalho me deixa mais próximo desse conhecimento. Em segundo lugar, existe a escultura em si. Eu caminhei por esta parte do caminho e agora o resultado fica como uma lâmpada que espero ajudem outros a seguir o próprio caminho.


Esse é um elemento do “trabalho para si” que resulta em um “trabalho para os outros”. Acredito que foi Paul Foster Case que mencionou melhorar a humanidade um de cada vez, então, acredito que essa é minha contribuição.


8) Onde podemos encontrar mais sobre o seu trabalho?


Fico feliz por você ter perguntado! Aprecio novos olhares sobre meu trabalho! Você pode me encontrar em: facebook.com/kaylaupton.nz, instagram.com/kaylaupton.nz e reddit.com/user/KaylaUptonDotNZ.


Também tenho um Patreon no qual eu posto conteúdo exclusivo como vídeos no qual eu esmiúço o simbolismo de cada escultura, conto histórias da minha experiência esculpindo essas cartas, faço perguntas e respostas, tutoriais e mais por NZD$ 2,00 por mês. Você pode se tornar um Patrono em: patreon.com/kaylaupton.


9) Você tem algum conselho para nossos leitores que possam estar começando os estudos do Tarot? E para nossos leitores que possam estar interessados em desenvolver as habilidades artísticas deles?


Quando for estudar o Tarot pela primeira vez, pode ser interessante separar o deck em pilhas. Pegue todos os azes e coloque em uma pilha, faça o mesmo com os dois, os três, etc. Veja o que cada número tem em comum nos naipes, você pode perceber que todos os cinco possuem como tema desafios ou combates, por exemplo. Anote suas impressões e se familiarize com elas. Faça o mesmo com as Cartas da Corte também. Olhe que temas correm por cada naipe, talvez você perceba que pantáculos é baseado em aspectos materiais, talvez espadas tenha algo a ver com pensamento. Acho que é um bom começo. Se você estiver começando com o Tarot e testar, sinta-se à vontade para me mandar uma mensagem e dizer o que você descobriu.


Com relação a desenvolvimento de habilidades artísticas: Traços. Encontre uma história em quadrinhos ou desenho que você goste e copie os traços. A maior parte das crianças de doze anos dirá que isso é trapaça, mas você não está fazendo isso para criar uma obra prima, você está fazendo isso para aprender. Copiando você está desenvolvendo a memória muscular. Você está procurando as formas e variações na espessura das linhas. Observe seus traços. Eles são curtos e tremidos? São longos e fluidos? Permita-se construir confiança: é só uma imitação, você tem o direito de bagunçar tudo. Acredito que a diferença entre um artista e um “rabiscador” ("doodler" no original) é a perseverança e coragem de continuar arriscando uma obra apesar da possibilidade de bagunçar tudo. Eu vou contar um segredo de artista: não existe “excesso de trabalho” em uma Obra. Nenhuma obra de arte está além de melhoria. Continue insistindo e os resultados vão continuar aparecendo, com frequência, melhor do que antes, então continue.


  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • cartaicone