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  • Eduardo Regis

Uma Discussão sobre Mito e Rito


Imagem de Gordon Johnson no Pixabay.


Walter F. Otto entende que o mito seja indissociável do rito, de tal maneira que os dois se confundem. Neste contexto, mito e rito se vivificariam em um círculo de retroalimentação. Um sendo dependente do outro para manter seu significado e relevância. Nesta ideia pode se esconder uma possível explicação para a degeneração do significado de mito nos tempos atuais.


Mircea Eliade talvez tenha sido o maior estudioso sobre mito do qual temos notícia. Apesar de todas as polêmicas acerca de seus métodos e de seu viés, nenhum Cientista da Religião ou Cientista das Áreas Humanas negará a relevância de Eliade. Assim, fazemos bem em seguir o conceito de mito delineado por ele. Para Eliade, mito seria uma história sagrada que conta uma origem. Ao falar de mito, estamos lidando geralmente com histórias que contam o princípio de um povo e que envolve um tempo que ficou perdido (um tempo que está fora do próprio tempo, como colocaria Pierre Clastres em seu estudo sobre as Sociedades contra o Estado), no qual seres fantásticos existiam.


O mito de criação do homem conforme professado pelo Cristianismo, por exemplo, apresenta alguns elementos que se encaixam na nossa definição. Temos uma história sagrada, que está no Livro Sagrado (cuja autoria foi por meio da inspiração divina e no qual repousam dogmas) na qual Deus cria um casal de pessoas dentro de um local maravilhoso, habitado por uma serpente fantástica. Em determinado momento, a serpente atua e as pessoas quebram uma regra, causando uma ruptura, jogando esse tempo e esse espaço no campo do inacessível.


Outro exemplo poderá nos ser útil. Para os Guaranis (e me perdoem por usar essa denominação bem generalista), os humanos foram criados por Tupã. Primeiro, um casal e depois esse casal teve vários filhos. Um destes era um trapaceiro que, depois de se matar, transformou-se em um caranguejo. Uma destas pessoas foi capturada por um espírito maligno e forçada a ter sete filhos com ele, que foram sete monstros, que mais tarde seriam enfraquecidos. Aqui temos elementos fantásticos, sagrados e novamente a noção de um tempo primordial, já que estes primeiros humanos, primeiros ancestrais (alguns divinizados), não seriam realmente encontrados caso alguém se ocupasse (e fosse possível) de traçar a linhagem de todos os Guaranis.


Podemos agora explorar a questão levantada por Walter F. Otto. Como o mito se sustenta? Como ele é colocado em vida? Otto diz que é pelo rito. Assim, o fazer ritualístico seria a maneira de não apenas rememorar o mito, mas de participar dele e, mais ainda, de fazê-lo acontecer propriamente.


Pode parecer confuso, mas não é tanto assim. Voltemos ao Cristianismo. Discutimos como a criação do homem e o pecado original apresentam elementos míticos claros. É hora de tentar achar um rito que perpetue e que anime este mito (pelo menos, parcialmente, já que o assunto é complexo). Temos alguns. O batismo é um rito de iniciação na comunidade e na Igreja. Além disso, é o rito que limpa a pessoa do pecado original. Por alguma razão (que não discutiremos) o rito que vivifica o pecado original é sua dissolução pela água. Poderíamos viver uma realidade diferente, na qual existiria o rito da maçã proibida, onde uma maçã é oferecida a criança, apenas para depois ser queimada e a criança considerada livre da “desobediência”.


Aqui é importante notar que embora estejamos nos valendo de exemplos de ritos codificados pela Igreja, nem sempre o rito é assim tão estrito. Ritos podem aparecer nas mais variadas formas. Uma das mais comuns e mais invisíveis é no cotidiano (Clyde Kluckohn discute um pouco sobre isso em seu artigo sobre teoria de mitos e rituais. Aliás, leitura recomendada. A referência está no fim do texto). Em algumas sociedades ditas primitivas isso é mais fácil de ser enxergado, pois vemos os indivíduos cumprindo tarefas rotineiras como preparar a comida de uma maneira bem específica, pois é a maneira pela qual “os ancestrais faziam”.


Ora, um novo universo se abre então na nossa discussão. O rito que vivifica o mito pode estar bem na nossa frente, mas somos incapazes de vê-lo. O que isso significaria? Por um lado, isto aponta para um ato de resistência e de perpetuação do mito. Aquele que julgamos fantasioso, mas que mesmo assim animamos por ritos que nos escapam a percepção mais direta. Por outro, como o mito nasce do sagrado ou participa do sagrado, isto talvez nos diga que a secularização é uma mentira descarada.


Já que citamos Kluckohn, é interessante notar que ele apresenta críticas ao elemento sagrado obrigatório no mito e que também nem sempre concorda com Walter F. Otto na questão da relação estreita entre mito e rito. Ele usa o Ares Grego para exemplificar que embora os mitos envolvendo Ares fossem numerosos, seus rituais eram poucos. Ora, há alguns problemas nesse pensamento. Primeiro, os registros. Talvez faltem registros. Outra questão é que um ritual pode abarcar diversos elementos distintos de um mito, então número nem sempre quererá dizer abrangência. Finalmente (e essa fica para reflexão), quais elementos de um mito são realmente essenciais e que precisam ser ritualizados para que a vivificação do mito seja bem sucedida?


Não sabemos, mas o próprio autor acaba reconhecendo que o mito e o rito são interdependentes e que isso é complexo. Ou seja, apesar de todas as críticas possíveis, não é fácil separar um do outro, pelo menos não completamente.


É curioso que Kluckhohn (escrevendo em 1942, tenhamos isso em mente) tenha que mito é crença. Isto nos leva a outra questão fundamental: como compreender crença? É algo que se escolhe? É algo que está construído na vivência de alguém ou de um povo? Ou é algo constitutivo? É possível realmente parar de crer em algo que foi apresentado durante o processo de formação de uma pessoa? Sem querer responder estas questões, vamos em frente com a seguinte ideia: ao igualar mito à crença, Kluckohn está, na verdade, dando ao mito uma posição de poder impressionante. Afinal, sabemos bem o que a crença é capaz de motivar.


Mencionamos há pouco a secularização. É hora de falar mais sobre esse conceito no qual a vida de alguma maneira consegue separar a religião e a espiritualidade de tudo mais que há. A ideia é: seria possível relegar a crença ou a prática religiosa a um contexto específico, isolando-a de tudo mais, ou melhor, não considerando tanto sua influência sobre as demais coisas. Obviamente, isso é fantasioso. Exemplos não faltam de como, por mais que tentemos, a religiosidade força e retorna aos assuntos que, por força da secularização, seriam irrelevantes para ela. Sua influência pode ser diminuída, mas não contida. Temos aí a bancada evangélica como um exemplo fácil.


Entretanto, este projeto de mundo secularizado afastou o homem do sagrado e, por consequência, do mito. Como já discutimos brevemente, talvez não completamente, pois o mito pode ter persistido por meio de certos ritos e por meio de certas influências etéreas demais para listarmos. Porém, houve um afastamento e é comum ouvirmos falar sobre como o homem contemporâneo “sem Deus” está perdido. Ignorando o contexto de catequese no qual geralmente esta máxima é proferida, é possível que exista alguma verdade escondida nessa ideia.


Se o mito conta uma história sagrada que é fundadora de um grupo ou de um povo, como fica a pessoa que não possui um mito, algo sagrado para usar de fundamentação? Ora, é possível que fique muito bem. É possível que fique muito mal. Acho, porém, que, no fundo, todos têm um mito fundador sagrado nas costas, mesmo que seja um que julgamos meramente social (como uma república livre e próspera). Em uma coisa um tanto Durkheiniana, no fundo, talvez seja a coesão social que esteja valendo e o sagrado (como usualmente conhecemos) seja uma maneira muito particular (mas não a única) de se conseguir isso.


Aqui caberia uma discussão sobre o que é sagrado e como saber o que é sagrado, mas fugiria do escopo. Recomendo Eliade e outro Otto, Rudolph Otto, aos interessados.

No fim, o afastamento do homem do mito como sagrado e fundador, levou as histórias míticas a serem consideradas meras fantasias. Tudo bem que as religiões monoteístas surgidas na Era Axial também contribuíram para isso ao demonizar o outro fortemente de uma maneira que até então não era conhecida, mas vamos focar no “afastamento” do homem do sagrado. Retornando ao pensamento, seres míticos viraram apenas fantásticos. Histórias de Deuses viraram apenas manifestações da psique. O positivismo e o iluminismo chegaram depois e ajudaram a matar essa “história de mito”, pois o que a ciência não provava era mera história da carochinha.


Aconteceu então que mito se tornou sinônimo de coisa fantasiosa. Finalmente chegamos aonde eu queria chegar desde o início. Com a perda de força de significado de mito e com os ritos sendo suprimidos como mera superstição (pelo menos os mais codificados como rituais), o equilíbrio delicado entre mito e rito começou a sofrer grave prejuízo. O enfraquecimento de um atingiu o outro de maneira certeira e a espiral de degeneração mítica começou velozmente.


O resultado pode ser visto (e está) nesta noção tosca de mito que temos hoje em dia, ao ponto de pessoas chamarem um Presidente da República absolutamente vergonhoso de “mito”. Mito tornou-se qualquer coisa, a ponto de nem mais ser algo fora da existência ordinária (no sentido do “tempo além do tempo”). Mito agora é aquela coisa que se destaca mesmo circunstancialmente, como um energúmeno que chama um dos maiores educadores do mundo de burro.


Até pouco tempo atrás, mito era algo um pouco mais nobre. Pelé é considerado um mito, embora não seja sagrado (Será? Quem dirá que o futebol não é sagrado para o Brasileiro?) e não tenha a ver com a fundação de nada (dessa, tenho quase certeza). Ayrton Senna era um “mito”. Ás do volante. Um talento ímpar.


Ou seja, ao perdermos a conexão com o elemento que estava no tempo de fundação, começamos a atribuir valores “sagrados” e “fantásticos” ao que estava meramente a nossa volta e que nos era interessante ou que nos gerava algum senso de satisfação qualquer. O mito, separado do mundo cotidiano, sem seus ritos ou com ritos degenerados, tornou-se algo que não é absolutamente mítico e assim o mundo se desencantou realmente.


A questão é que a separação do sagrado (e do mito) dói para algumas pessoas. A dor da separação é o caminho de retorno ao sagrado e ao mito que o define ou que se reveste dele. O buscador, o fiel, o espiritualista, eles todos resgatam o mito e os ritos e, então, na verdade, essas coisas nunca morrem realmente. Aliás, um buscador sempre começa não o sendo. Então, o mito parece realmente estar incubado. O mito genuíno, quero dizer. Apenas esperando, talvez, o momento e as condições corretas para germinar.


Bibliografia

Walter F. Otto - Teofania.

Mircae Eliade – O Sagrado e o Profano.

Mircae Eliade – Mitos, Sonhos e Mistérios.

Mircae Eliade – Tratado de História das Religiões.

Rudolph Otto – O Sagrado.

Clyde Kluckhohn – Myths and Rituals: a general theory.

Émile Durkheim – Formas Elementares da Vida Religiosa.

Pierre Clastres - Arqueologia da Violência