• Paulo T. Vasconcellos

Uma Apologia da Feitiçaria.


Le Nouveau Chapeau de Marie - Bill Mayer


Ninguém carrega um guarda-chuva pensando em derrotar as nuvens. Ninguém veste um cachecol pensando em derrotar o inverno. Ninguém passa filtro solar pensando em escurecer o Sol. Porém, quando se trata de Magia, algumas escolas e professores vêm defendendo uma opinião quase oposta: magia que não é para solução definitiva de todos os problemas é feitiçaria e é considerada uma “magia menor”.


A feitiçaria, para fins deste texto, é a magia que não tem compromisso com moralidade, divindades, mudança íntima ou qualquer coisa mais complexa do que a resolução de um problema prático e pontual (que pode ir da cura da febre de uma criança às famosas “amarrações” e “uniões de casais”, cujos anúncios se replicam nos postes da cidade).


Usar esta definição de feitiçaria como “magia descomprometida” não significa que o praticante não tenha preocupações morais ou éticas, mas apenas que tais preocupações não precisam orientar o feitiço.


No nascer do iluminismo, quando os conhecimentos tradicionais (que foram transmitidos por analfabetos subnutridos em sua absoluta maioria) foram avaliados à luz da então recém-nascida ciência, surgiu um “jeito certo de” fazer magia. O slogan “ordem e progresso” passou ser usado e surgiu a ladainha de que haveria uma magia mais “evoluída”. Com isso, se a Magia não serve para o progresso da alma humana, é mero feitiço, que não age na origem do problema e permite que a situação continue se repetindo.


A tese de que a Magia (e talvez toda a existência humana) deve se pautar no desenvolvimento e aprendizado deve sim orientar a prática mágica (e talvez toda a existência humana).


O problema está no amargor que vem com a palavra “feitiçaria”, que carrega um julgamento idealizado e platônico com uma eterna busca do mundo das causas e da verdade absoluta. Isso gera a ideia de uma hierarquia entre mestres de ordens, magistas, médiuns e meros feiticeiros e feiticeiras. Isso ficou tão enraizado que até alguns livros de Umbanda (uma religião em sua origem marginalizada) trazem críticas expressas ao uso de feitiços, aos feiticeiros e feiticeiras.


O estabelecimento de um ideal de prática mágica é nocivo porque restringe as descobertas daqueles que praticam a Magia. Tira-se a magia do dia-a-dia, das cozinhas e dos quartos e coloca-se a magia nos templos, terreiros, igrejas e lojas. Se a Magia deve ser utilizada apenas para o contato com a divindade e a reforma profunda e íntima da alma humana (e nada fora disso é “nobre”) perde-se a naturalidade da magia.


E a magia é natural. Ela é uma força da natureza, ainda que sutil e invisível. Não há motivo para considerar menos sagrada uma adoração à divindade do que a bênção a uma fornada de pão.


Não bastasse o afastamento do caráter natural e cotidiano da magia, o julgamento sobre o que seria “feitiçaria” gera outra consequência negativa: como a magia é apenas para finalidades extremamente sagradas e do mais alto valor moral, o magista só pratica magia em situações muito nobres, evoluídas, especiais e… raras. Consequentemente, tem muito magista que faz pouquíssima magia. Isso pode parecer algo de pouca relevância, mas não é. A prática é fundamental. É a prática que vai desenvolver a sensibilidade e capacidade de praticar a magia. Se a massa de pão não ouve sua voz, não é o anjo enoquiano que vai se preocupar muito com você.


A crença de que apenas a iluminação deve ser buscada pois dela tudo se resolverá também é contraproducente.


Há quem diga, sim, que a iluminação é um estado em que nada de negativo ocorre, porém, talvez, ela seja “apenas” um estado de paz, no qual coisas desagradáveis acontecem, mas não são sentenças definitivas e definidoras. Talvez, sempre exista uma doença, uma indigestão, um contrato a ser celebrado e uma propriedade a ser vendida e a feitiçaria simplesmente pode ser um meio de resolver as “pequenas coisas” da vida, que são pequenas coisas, mas são coisas da vida.


A feitiçaria pode até ser mero paliativo dos sintomas, mas sofrer os sintomas não significa, em si, cuidar das causas. E, com frequência, a pessoa que não trata os sintomas (porque acha que isso é mero paliativo) não trata nem as causas e nem os sintomas. Óbvio que agir na infecção é fundamental, mas sofrer com a febre não é moralmente mais evoluído ou mais benéfico.


A magia (e consequentemente a feitiçaria) pode atuar nas causas e pode atuar nos sintomas, mas ela é parte da vida, nas grandes e nas pequenas coisas. É importante lutar contra as mudanças climáticas, mas isso não deve excluir o uso de filtro solar. Nada contra a Magia voltada para a iluminação e a alquimia, mas ela não é motivo para deixar de benzer a massa de pão.

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