• Katy Frisvold

Um passo contra a corrente


As três bruxas de Henry Fuseli, 1783

Nestes tempos onde basta “identificar-se para tornar-se”, alguns papéis se confundem ao aceitar intrusões modernas ao ponto de se esvaziarem do sentido original, e embora as intenções iniciais pudessem ser positivas, estas intrusões acabam gerando um grande entrave na compreensão do “ethos” original da coisa. Quando falamos de “ethos” estamos falando de características específicas comuns a um determinado grupo de indivíduos: um “ethos” guerreiro, por exemplo, vai remeter a características de ordem marcial: a luta, proteção, invasão, heroísmo, coragem, militar, militante, etc.


Ultimamente tenho ouvido com maior frequência do que nunca, que a bruxa é “anti” isso ou aquilo, ou que a bruxa tem a “obrigação moral” disso ou daquilo e nestas “verdades” lançadas em campanhas e militâncias, eu percebo que o ícone principal da conversa toda desaparece em uma névoa de ódios e ressentimentos.


Penso então que talvez tenhamos que dar um passo para trás, ou ainda contra a corrente do tempo e do implacável progresso para relembrar o ethos da bruxa e comparar com o que tem sido imputado a ele pelos heróis modernos. A razão deste exercício é simples, é o identificar a essência e aceitar – ou não – o que tem sido dito que a bruxa “é” ou “tem que ser”.


Vamos então lembrar de como as bruxas surgiram no imaginário popular, de como nos contavam as fábulas, de como Völva era Troll por interferência divina de Wyrd, de como a bruxa era aquela que lançava o herói à jornada (e não o oposto). Ela previa, consultava os espíritos, consolava, conspirava e inspirava, tecia o pano de fundo onde os dramas humanos se revelavam com a mesma naturalidade em que tecia suas mortalhas. Nos entremeios, mas jamais nas fileiras.


Em seu ethos saturnino, ela está “entre-mundos”, neste e em sua perpétua Era Dourada, neste e no “Outro Mundo”, entre campo e cidade, e desejosamente “à margem”, por onde ela consegue enxergar o panorama sem ser incomodada. Ela é a “Outra”. Um ser místico, mágico.


Hoje ela não é mais síntese, mas “anti” (insira aqui seu inimigo predileto da vez: patriarcado, ricos, fascistas, etc). Ela não é mais “mistério”, nem a “Outra”. Ela não está à margem, mas dentro do rolo todo, presente, sofrendo com o povo, militando e repleta de medos “bem humanos”. Fazendo muito barulho, muita intriga e muita pouca... bruxaria!


Quando o medo domina...


Quando olhamos para fora de nós, para os outros e para o mundo, estamos fazendo tudo isso através das lentes dos nossos saberes e vivências, sim, mas também através de nossas sombras, de nossas disfunções, de nossas próprias limitações. Aceitar que toda mudança começa com nós mesmos e dentro dos confinamentos de nossos próprios lares é fazer muito mais do que gritar palavras de ordem. Fazemos mais arando o nosso próprio campo do que berrando em cima do morro.


Eleger o “outro” com a mesma ferocidade em que ele nos ataca é, em primeiro lugar, deixar que este “outro” defina quem somos e como agimos. Educamos mais por contraste, ao mostrar que dá certo o nosso jeito. Se nos ocuparmos em trazer harmonia para nossos lares, para nossa família e para o nosso meio, haverá um contágio natural de energias mais leves e positivas na forma de generosidade. É preciso enxergar a inconsistência entre a palavra e a ação e trabalhar isso ao nosso entorno. A mudança começa sempre de dentro para fora.


Isso significa que não adianta falar em empoderamento se você é dependente de alguém. Isso significa que não dá para demandar respeito se você não tem para si. Isso significa que se você não conseguiu trazer nem a sua família para este nível de compreensão de valores fundamentais, você não está fazendo o dever de casa.


Você já reparou como não ficamos capazes de lidar nem com os aspectos mais simples de nossas vidas quando estamos nos sentindo “no olho do furacão”? Como poderíamos exercer este sagrado ofício sem termos os pés bem plantados no chão?


O ódio é só uma expressão do medo. O medo de morrer. A insegurança do amanhã. O medo da solidão. E o ódio cega, faz com que não possamos enxergar com clareza.


Malditos sejam aqueles que disseminam o medo, pois estes são os mais odiosos dos seres!

Então seja um “ativista” real. Fique ativa! Plante uma horta no jardim ou até mesmo em praças públicas. Retire aos poucos o poder que o Capital possui em cima de você porque sim, você é parte do problema e porque esta é a maior forma de anarquia que você pode conquistar aqui e agora. Cure a si própria. Cure a sua família e seus amigos. Comece pequeno. Aja localmente para ver os frutos dessa nova atitude crescerem, até mesmo globalmente. Não há limites para o que isso pode gerar. E não se afete com a desesperança, pois ela é, ainda, a maior prova da sua falta de fé. E esta é a verdadeira morte para um espírito bruxo.

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