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  • Katy Frisvold

Um mundo de Fadas e Bruxas – II

Nesta segunda parte me propus explorar a importância do trabalho que envolve uma boa experiência com enteogênicos, e eu não poderia começar a falar deste assunto sem ressaltar que quanto mais informações você tiver sobre o enteógeno em questão, menor vai ser seu risco ao se aventurar neste mundo mágico. Ao mesmo tempo vou me limitar a falar só de alguns psicodélicos. Outros, que possuem compostos menos seguros (como a Datura e outras ervas tradicionais da bruxaria) seguem outras recomendações muito particulares. (leia a primeira parte aqui)


O excelente livro do Dr Rick Strassman recentemente lançado pela UDV *

Psicodélicos serotogênicos como a Psilocibina (cogumelos mágicos), DMT (Ayahuasca e Jurema), LSD, MDMA (êxtase) e mescalina (cacto), são contrastantes com medicamentos psiquiátricos e portanto, se você faz uso destes tipos de medicamento, você deve evitar experimentar com psicodélicos em geral, bem como quaisquer substâncias que possam interagir com os seus remédios (como o álcool).


Em segundo lugar, é vital que você se eduque sobre os efeitos, riscos, efeitos colaterais e o status legal do que você vai tomar. Isso também deve fazer você considerar se suas fontes, tanto de estudo quanto de substâncias, são confiáveis ou não. Se possível, adquira e aplique testes químicos para saber se você não está tomando algo achando que é outra coisa. No caso do MDMA, por exemplo, é bem comum você encontrar misturas bem bizarras: poucas são as pílulas de êxtase que não são misturados com outros tipos de anfetamínicos para dar pique para dançar, de cafeína e aspirina a xarope para tosse. O NBOMe é geralmente vendido como LSD, mas é uma substância sintética variante de feniletilamina, que carece de mais estudos para verificar seus riscos reais. Cogumelos devem ser analisados cuidadosamente antes da colheita, até mesmo para evitar um envenenamento acidental com o cogumelo errado.


A este ponto você deve estar achando que estou exagerando um pouco, afinal, a molecada está com uma farta oferta destas substâncias nas baladas, mas na primeira bad trip – e elas ocorrem com qualquer uma destas substâncias, você vai ficar grato de saber exatamente o que você tomou e o que esperar disso. “Saber” que você não vai morrer é um grande alívio quando você está “sentindo” que vai morrer ou que vai ficar louco para sempre.


Contexto


Se você pesquisou bem a substância e acha que vai arriscar, preste atenção em:


A) O Lugar: Por incrível que possa parecer tomar qualquer uma destas substâncias em festas públicas é algo que nunca entendi bem. Isso porque elas podem nos deixar desorientados e confusos, e para a tia aqui esta coisa de muita luz piscando e o som estalando no corpo neste estado é receita para entrar numa grande bad trip. Se você quer experimentar a total amplitude de experiências que um enteógeno/psicodélico pode oferecer, faça isso preferencialmente em um lugar cercado por natureza. Pense também em como vai voltar, afinal, dirigir não é aconselhável nesta condição e você ainda não sabe quanto tempo vai levar para voltar ao seu estado normal. Considere dormir no local ou levar um amigo que possa dirigir na volta (ele vai ser necessário como explico no item “D”)


B) As Pessoas: Experiências psicodélicas podem ser muito profundas e reveladoras. Isto para todos os envolvidos. Usar os enteógenos estando cercado de pessoas que você não curte ou não confia pode ser muito frustrante. Se você sente que precisa se manter preservado, se você tem receio de compartilhar suas fragilidades, esta pode ser uma experiência muito negativa.


C) A dosagem: Nunca comece com uma dosagem alta e nunca repita a dose achando que “não bateu”. Se a dose mínima parece não ter efeito naquele dia, experimente outra dose em outro dia após uma semana de pausa. Especialmente com cogumelos mágicos, percebi que nem sempre a pessoa sente os efeitos na primeira vez que os toma.


D) Co-piloto sóbrio: Esta pessoa é a responsável em manter você e eventualmente os outros seguros para que não saiam de seu campo de visão. Pode parecer besteira, mas às vezes as pessoas querem “dar uma volta” pelo mato e acabam se machucando, ou se perdem, ou fazem algo que vão se arrepender depois. Idealmente, esta pessoa deve ser experiente em lidar com situações deste tipo, tanto em confortar quanto em socorrer. Não subestime a importância deste papel. As chamadas “religiões da terra” mantém seus xamãs não é por acaso. Eles estão ali para servirem como guias de jornada, para ajudarem nas dificuldades e para socorrerem quando é preciso. Então no mínimo, uma pessoa sóbria e bem informada poderá te ajudar.


E) Não misture substâncias: Você vai sentir sede e deve obedecê-la, mas isso não significa que você precise de bebidas necessariamente alcoólicas. Dê preferência à água, sucos ou chás. O álcool pode potencializar esta substância que você ingeriu e você pode ficar sem saber como lidar com isso. Não combine substância alguma.


Assunto pesado


As substâncias que listei aqui, em minha experiência, costumam dar um bocado de “ressaca”, o que é bom por um lado, desde que refreia qualquer abuso diário. Para evitar uma ressaca pesada eu recomendo alimentação leve um dia antes da ingestão de psicodélicos. Existem também alguns suplementos que ajudam a amenizar esta ressaca, mas ela inevitavelmente vai te desestimular a tomar qualquer enteógeno no dia seguinte. Detalhe: todos estes enteogênicos causam resistência, ou seja, se você tomar sem respeitar pausas, menos efeito eles terão.


Mas enfim, eu estou escrevendo este artigo contando que você seja uma pessoa responsável, que já sabe o que quer da vida e que ficar “high” seja algo a ser apreciado com moderação. É importante que você evite o escapismo em relação aos outros aspectos de sua vida.


O enteógeno não vai produzir uma experiência transcendental, mas vai agir como uma chave química que abre a mente e liberta o sistema nervoso de seus padrões e estruturas ordinárias, e para que este processo seja suave é realmente necessário observar o contexto pessoal e o ambiental. Ele é só uma chave para um mundo que é só seu, e por isso vamos agora saltar para um tópico de grande importância: a bad trip.


A Bad Trip


Quando tomamos contato com enteógenos, especialmente os naturais, é comum sentirmos variações de temperatura corporal, desorientação, náusea (se pouco ou muita vai variar de substância para substância) e perda de senso de identidade. Ok. Aqui vou repetir algo que estava no primeiro artigo: “Se você não está preparado para confrontar seu abismo, por favor, fique longe dos enteógenos.”


Bad trips a princípio refletem a necessidade de controlar situações e emoções. Quanto mais você tenta controlar, mais você vai se aprofundar naquele abismo de mal estar. Respire fundo, deixe fluir. Se precisar vomitar, faça isso sem cerimônia. Às vezes é tudo o que você precisa.


Os temas relacionados às bad trips têm a ver com situações que você tem sentido dificuldades em lidar e são “experiências professoras”. É a ação do enteógeno abrindo caminho para a resolução das suas questões mais profundas. As experiências mais gratificantes que já tive em anos foram aquelas em que me vi confrontando o espelho negro da alma. Vi mudanças tão grandes quanto anos de terapia numa singela sessão, em mim e em outras pessoas (mas por favor, não largue a sua terapia se você estiver fazendo uma).


Eu poderia escrever mais, muito mais sobre este tema. Não faltam materiais, estudos e vivências pessoais para isso. Uma breve busca na internet (infelizmente os bons materiais estão em grande maioria em inglês) e você poderá encontrar muito mais do que eu coloquei aqui.


Termino aqui com minha nota ética de sempre: psicodélicos precisam ser abordados com reverência e cuidado. Em um contexto amoroso, eles podem ser remédios para a alma, mas há uma porção de precauções físicas e psicológicas que as pessoas devem tomar antes de se aventurar neste mundo. Nas mãos erradas com intenções erradas, com orientações erradas e configurações erradas, psicodélicos são extremamente perigosos.


Se você tem um interesse particular sobre o tema, você pode me escrever com a sua questão ou sugestão pauta. Estou também levantando a possibilidade de que alguns dos leitores se interessem em se aprofundar seus estudos nesta área e estou prestes a montar um curso para guias de jornadas enteogênicas. Para tratar destas questões, escreva para mim: katyfrisvold@gmail.com


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