• Paulo T. Vasconcellos

The Wall

Arte por Sergio Aldo

Quando as pessoas começam a estudar a astrologia tendem a dar extrema influência para os planetas e signos, considerando as casas astrológicas algo menos importante que os planetas e os signos. As casas astrológicas, porém, trazem um alfabeto que permite interpretar o mundo em si. Veja-se, por exemplo, as casas 03 e 09, que tratam, respectivamente, e com certo debate, das ideias e ideologias.


A Casa 03, tradicionalmente, é associada aos irmãos, vizinhos, colegas, comunicação, cartas, pequenas viagens e notícias. Alguns autores defendem (eu dentre eles) que ela rege também as ideias e os “estudos básicos”.


A Casa 09, por sua vez, na astrologia tradicional, rege as religiões, o ensino superior, as longas viagens e mestres espirituais. Alguns autores (eu dentre eles) defendem que ela também rege as ideologias e filosofias.


A diferença entre ideias e ideologias é fascinante. Ideias podem ser consideradas unidades mínimas de informação. Ideologias (e as filosofias e religiões) podem ser consideradas unidades de informação unidas, mutuamente relacionadas e interdependentes. Ideias seriam os tijolos, ideologias a casa: uma construção coletiva de ideias.


Olhar para as religiões e filosofias pode dar uma pista sobre essa relação. A continuidade da existência após a morte é uma ideia. A retribuição dos atos bons com resultados bons e dos atos ruins com resultados ruins é outra. A possibilidade de corrigir os erros é outra. Some as três e você tem os constituintes das religiões que acreditam em Karma e Reencarnação.


Que nossa interpretação do mundo não é o mundo objetivo é uma ideia. Que o mundo manifesto é fruto do mundo imanifesto é outra ideia. Que tudo vibra é outra ideia. E que vibrações semelhantes se atraem é outra ideia. Essas ajudam a formar o corpo de conhecimento esotérico.


Que os indivíduos são frutos das relações sociais é uma ideia. Que as relações sociais implicam em exploração das classes oprimidas pelas opressoras é outra. E que as relações sociais são fruto da estrutura econômica é outra. Somando as três ideias (e algumas outras) temos as ideologias de matriz marxista.


Diversas outras ideologias poderiam ser apresentadas de acordo com suas principais ideias constituintes, mas mais importante do que avaliar a coerência interna entre as ideias de uma ideologia, é extremamente interessante avaliar um fenômeno perigoso: o sequestro ou monopólio de ideias pelas ideologias.


Um dos exemplos mais “inocentes” (não no sentido de irrelevante, mas no sentido de causar pouco prejuízo social) é o sequestro do Ska pela extrema direita inglesa na década de 1970. O Ska é um ritmo musical de origem caribenha, precursor do Rocksteady e do Reggae, que surgiu com a mistura das influências africanas e latinas com o jazz e blues no Caribe. Com a migração jamaicana para a Inglaterra, se tornou música de operários e portuários (que raspavam a cabeça por causa de incessantes epidemias de piolhos e se vestiam com roupas resistentes como jeans e coturnos para o trabalho braçal). A extrema direita fascista inglesa, enxergando um extrato social agressivo e disponível ideologicamente, aliciou-os às suas bandeiras reacionárias. Essa é a origem da união entre a ideologia fascista e a estética dos skinheads.


O sequestro da estética daquele extrato social pela extrema-direita nazi-fascista foi tão marcante que as pessoas associam a estética, imediatamente, à ideologia. Ironicamente, após o surgimento dos skinheads de extrema direita, surgiu a resposta dos “HSH”, Homossexual Skinheads, uma ala de defesa dos direitos civis da população LGBT que se identifica com a estética e cultura do Ska, e os RedSkins, um setor composto por pessoas que aderem à estética e cultura do Ska e com os ideais comunistas.


O exemplo dado foi escolhido por ser algo ao mesmo tempo distante e chocante. Associa-se o movimento Skinhead aos Neonazistas. Ninguém se importa muito com manifestações musicais e estéticas, as pessoas se importam muito (merecidamente) com o nazismo e demais pensamentos supremacistas, mas é extremamente provável que ninguém que lê esse texto tenha contato com pessoas que têm no Ska a referência cultural ou no neonazismo a referência ideológica.


Porém, existem exemplos muito mais próximos e, consequentemente, muito mais danosos. Notoriamente na disputa “Esquerda x Direita”.


Este texto não traça uma definição precisa e academicamente correta sobre os espectros ideológicos. Para fins de texto, podemos trabalhar como “Direita” como sendo uma ala que defende a supremacia do indivíduo sobre o coletivo e a “Esquerda” uma ala que defende a supremacia da coletividade acima dos interesses individuais. É uma definição simplista (e consequentemente falha) mas serve para ilustrar o texto. Por essa lógica, a “Direita” deveria defender a liberação integral das drogas (não só das de menor potencial ofensivo), deveria ser a primeira a defender que o que acontece entre quatro paredes não possui relevância social e deveria ativamente combater qualquer espécie de discriminação oriunda de orientação sexual ou afetiva. Na prática, vemos exatamente o contrário, sendo notória a figura esquizofrênica do “conservador nos costumes e liberal na economia”.


Por outro lado, na ala da “Esquerda”, uma crítica pertinente é a de “monopólio da virtude”. Ao agregar diversos movimentos sociais, criou-se a ideia de que “fora da esquerda não existe preocupação social”. Eventuais pessoas negras de orientação ideológica “Direita” recebem alcunhas como “capitão do mato”.


Da mesma forma a grande imensa maioria de todo o trabalho social e de auxílio a pessoas em estado de vulnerabilidade vem SEMPRE (ou quase sempre) acompanhado de uma ladainha de amor ao próximo, amor incondicional, amor aos menos favorecidos, etc, etc, etc. Não que não seja importante para as pessoas serem acolhidas (é e muito). Mas seria bom, de vez em quando, as pessoas olharem para os projetos sociais como uma forma de assumir responsabilidade pelo mundo em que vivem.


A criação das ideologias, por vezes, obedece a princípios muito pouco nobres de formação de alianças. Isso é parte do jogo, de fato. Não é um inconformismo e mal colocado senso de ética que vai destruir a milenar filosofia de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Da mesma forma, se a “McOferta” ideológica agrada, não faz sentido reclamar da “venda casada”.


No fim, menos importante (e mais possível) do que pretender vencer ideologias é entender que ideias são tijolos e ideologias são casas construídas, muitas vezes, para costurar acordos políticos, não por afinidade ética. Perceber quando as ideias se aglutinam por coerência e quando elas se unem por interesse é um bom caminho andado para evitar ser “another brick on the wall”.

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