• Cussa Mitre

Somos todos substituíveis?



Texto escrito originalmente em 2014, adaptado e reescrito com base nas novas experiências.


No início de 2014, eu troquei de empresa. Saí de uma empresa que estava há quase 7 anos. Nessa nova empreitada, eu acabei analisando alguns comportamentos, que acabam sendo repetidos por diversas pessoas, sem nem ao menos perceber. Para exemplificar melhor minha ideia, vou usar de um texto conhecido da internet.


Na sala de reunião de uma multinacional o diretor fala nervoso com sua equipe de gestores. Agita as mãos, mostra gráficos e olhando nos olhos de cada um ameaça: – Ninguém é Insubstituível! A frase parece ecoar nas paredes da sala de reunião em meio ao silêncio. Os gestores se entreolham, alguns abaixam a cabeça. Ninguém ousa falar. De repente um braço se levanta e o diretor se prepara para triturar o atrevido e diz: – Alguma pergunta? – Tenho sim. E Beethoven? – Como? - O encara o diretor confuso. – O senhor disse que ninguém é insubstituível. Quem substituiu Beethoven? Silêncio… O funcionário fala então: – Ouvi essa história esses dias, contada por um profissional que conheço e achei pertinente falar sobre isso. Afinal empresas tentam descobrir talentos, reter talentos, mas no fundo continuam achando que os profissionais são simples peças dentro da organização e que, quando sai um, é só encontrar outro para pôr no lugar. Então, pergunto: quem substituiu Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Ghandi? Frank Sinatra? Garrincha? Santos Dumont? Monteiro Lobato? Elvis Presley? Os Beatles? Jorge Amado? Pelé? Paul Newman? Tiger Woods? Albert Einstein? Picasso? Zico? … O rapaz fez uma pausa e continuou: – Esses talentos marcaram a história fazendo o que gostavam e o sabiam fazer bem, ou seja, fizeram seu talento brilhar. Mostraram que são sim, insubstituíveis. Que cada ser humano tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado para alguma coisa. Está na hora dos líderes das organizações reverem conceitos e começarem a pensar em como desenvolver o talento da sua equipe, em focar no brilho de seus pontos fortes e não utilizar energia em reparar seus ‘erros ou deficiências’. Nova pausa e prosseguiu: – Acredito que ninguém se lembra e nem quer saber se BEETHOVEN ERA SURDO, se PICASSO ERA INSTÁVEL, CAYMMI PREGUIÇOSO, KENNEDY EGOCÊNTRICO, ELVIS PARANÓICO… O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de arte, discursos memoráveis e melodias inesquecíveis, resultado de seus talentos. Mas cabe aos líderes de uma organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços, em descobrir os PONTOS FORTES DE CADA MEMBRO. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto. Dentro do assunto, o rapaz continuava. – Se um gerente ou coordenador está focado em ‘melhorar as fraquezas’ de sua equipe, corre o risco de ser aquele tipo de ‘técnico de futebol’ que barraria o Garrincha por ter as pernas tortas; ou Beethoven por ser surdo. Em sua gestão o mundo PERDERIA todos esses talentos. Seguindo este raciocínio, caso pudessem mudar o curso natural, os rios seriam retos, não haveria montanha, nem lagoas nem cavernas, nem homens ou mulheres, nem sexo, nem chefes nem subordinados… Apenas peças… E nunca me esqueço de quando o Zacarias dos Trapalhões ‘foi pra outras moradas’. Ao iniciar o programa seguinte, o Didi entrou em cena e falou mais ou menos assim: “Estamos todos muito tristes com a ‘partida’ de nosso irmão Zacarias… e hoje, para substituí-lo, chamamos:…NINGUÉM… Pois nosso Zaca é insubstituível”, concluiu o rapaz e o silêncio foi total.

Normalmente temos a visão de que apenas os grandes “gênios” são únicos. Porém, nos esquecemos que nós mesmos temos dentro de nós toda a centelha divina necessária para que possamos também nós nos tornamos “gênios”. Um grande exemplo é quando vamos escolher nossa profissão. Muitas vezes nos vemos fazendo uma coisa pela qual somos apaixonados, porém pensamos que o salário médio daquela profissão não é o que desejamos para viver. Porém, nunca paramos para pensar que se fazemos algo que realmente gostamos, teremos a capacidade de fazer aquilo de forma muito superior do que alguém que apenas o faz por fazer.


Mas não é apenas neste sentido. Paremos para pensar: em qualquer ponto de nossas vidas seremos sempre únicos! Vou partir para um exemplo que pode parecer muito simplista: imagine o porteiro do seu prédio. As funções dele são: abrir o portão, receber a correspondência e interfonar quando chegam visitas. Ele é substituível? A primeiro momento, diremos que sim. Mas vamos analisar pela seguinte ótica: o José (é apenas um exemplo, ok?) é um porteiro muito legal. Além de todas suas funções, ele é bastante amigável, ajuda as senhoras com as compras, brinca com os cachorros e ainda consegue ser simpático com todos, independente de religião, credo, sexualidade ou opinião. Em certo dia, ele acaba ficando doente e sendo substituído pelo João (outro exemplo, ok?). Porém, João é uma pessoa mal humorada. Nem bom dia ele dá. Acha que velho só serve para dar trabalho, cachorro só faz cocô e acha que apenas a sua opinião é a certa… Agora eu pergunto de novo: o porteiro José era realmente substituível? Eu poderia realmente me estender mais e falar mais coisas. Mas acho de certa forma desnecessário. A vida sempre nos dá oportunidades para vermos o quão especiais somos. Basta apenas olharmos para o lugar certo e veremos todas essas coisas nos permeando. Apesar de toda essa questão, a nossa individualidade é colocada a margem pela sociedade muitas vezes. Somos tratados como apenas mais um dentro de um todo. Nossas aspirações, buscas, desejos e anseios são deixados de lado perante uma sociedade que visa apenas o lucro sobre o indivíduo, e sua qualidade de vida é deixada totalmente de lado. Suas vontades são meras “bobeiras” perante a necessidade do todo. E essa visão muitas vezes faz com que sejamos simplesmente iludidos com a história de que “somos todos iguais”. Discordo totalmente. É justamente a nossa individualidade que mantém o mundo funcionando. O que aconteceria se só houvessem pedreiros, ou médicos, ou advogados, no mundo? Se não existissem professores, como essas profissões existiriam? Em qualquer lugar, seja uma empresa, uma ordem iniciática, e a própria sociedade, cada um possui o seu lugar. Alguns acabam exercendo duas funções neste local, mas é fato de que todos possuem suas atribuições. E são elas diferentes entre si.


Disclaimer: quando me refiro a que "não somos todos iguais", me refiro única e exclusivamente ao fato da individualidade pessoal. Não me refiro a questão raciais, sexuais ou de qualquer outra contação. Lembro-me do magnífico filme Matrix, de 1999. Nele, o personagem Neo é liberto da Matrix por Morpheus, que acredita piamente que ele é o escolhido, aquele que iria salvar a humanidade do domínio das máquinas. Pois bem! Ele vai ao Oráculo, que avisa que ele não é o escolhido, mas que Morpheus acreditava tanto naquilo que daria a vida dele para salvá-lo. Dito e feito! O grupo é perseguido e Morpheus é capturado, na tentativa de ajudar o grupo a escapar. Neo, lembrando-se do que o Oráculo falou, decide ir resgatar Morpheus, já que ele estaria dando a vida por uma coisa que ele acredita ser verdade, mas que não é. Depois que Neo consegue resgatar Morpheus, ele se depara com um agente. Essa cena é interessante, pois me traz a mente uma cena anterior onde ele é informado sobre o poder de combate dos agentes e que se ele visse um, tomasse apenas uma atitude: correr. Porém Neo olha para a escada, depois para o Agente e se prepara para o embate. Trinity, que está fora da Matrix, questiona: “O que ele está fazendo?!” e recebe a brilhante resposta de Morpheus: “Ele está começando a acreditar.” Muitas vezes nosso principal problema está exatamente aí: acreditar. E apenas para finalizar, tenho que deixar um ponto muito importante aqui: por mais que alguém tenha a capacidade de exercer uma mesma função, todas as relações e interações serão diferentes. Logo, não há como você ser substituído. Acredite em você mesmo, pois ninguém poderá desempenhar o papel que é apenas seu.

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