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  • Paulo T. Vasconcellos

Sobre Técnica e Arte.



A jardinagem vem me colocando em franco contato com diversas falhas de caráter minhas.


Com enorme frequência eu me vejo extremamente ansioso, impaciente e inseguro. "Será que é água o suficiente? É água de menos? A terra está Nutritiva? A luminosidade está adequada? CRESCE LOGO, PLANTINHA DO INFERNO!


E por aí vai.


Obviamente, isso não é privilégio da jardinagem: eu enfrentei os mesmos problemas nos esportes que pratiquei, na marcenaria, na cutelaria, na micologia, na magia e na culinária. E acho que vou enfrentá-los em qualquer outra atividade em que eu me dedique a aprender. Porque, oras, isso diz respeito ao meu caráter, não à atividade.


Os japoneses possuem um conceito interessante de "Dô" ou "caminho" em cotejo com o "Jutsu" ou "técnica". Kenjutsu é a "técnica da espada" ou esgrima e "Kendô" "caminho da espada", sendo que, ironicamente, os "Jutsus" tendem a ser mais complexos do que os "Dôs".


A teoria oriental é a de que qualquer atividade (do treino com espadas ao preparo do chá) é uma forma de iluminação, desde que seja praticado com consciência.


Ao juntar essas duas palavras "iluminação" e "consciência", esse texto corre o risco de incorrer em falsa profundidade, pois o que está sendo dito é uma obviedade. Poderia se trocar a palavra "iluminação" por "esclarecimento" (que possui a mesma raiz, mas é muito menos pedante), e a palavra "consciência" por "atenção" (que é muito mais clara e acessível) e o resultado seria o mesmo.


Atenção, em um contexto simples e acessível, é, por exemplo, na culinária, perceber que cortar os ingredientes em tamanhos diferentes vai implicar em tempos de cozimento diferentes, que idealmente devem ser combinados para que tudo cozinhe igualmente. Isso é algo que não se aprende lendo ou estudando: é necessário praticar e, com enorme frequência, errar.


Os conceitos orientais de "técnica" e "caminho", ocasionalmente alienígenas para quem não gosta da cultura do lado de lá, foram abordados com maestria pelos gregos sob o nome de tekhne e poiésis. Existe um longo debate sobre o real significado de tais palavras nos textos que foram preservados, mas, com razoável tranquilidade, correspondem aos conceitos de técnica e criatividade, em que técnica é a habilidade para a produção (ou reprodução) da obra e a criatividade está intimamente relacionada com o caráter inovador e transcendente (apto a comover e tocar mais pessoas) da obra. Algo como forma e conteúdo.


Chico Buarque e Ramones são exemplos muito bons de técnicas sofríveis vindas de artistas criativos.


Com enorme frequência, a técnica é um funil para a expressão criativa. O artista marcial "enferrujado", sem fôlego e sem alongamento sabe disso. O pianista que sofre de uma doença degenerativa nas articulações também. O magista que não conhece feitiçaria também.


É sério.


Existe uma certa soberba no meio ocultista, que considera os rituais e a magia simpática (sim, as populares Simpatias) mero "fetiche", como se a Arte não dependesse da boa Técnica para se expressar. E, no caso da magia, a técnica envolve incorporação, condução de energia, intuição, estado alterado de consciência e outras habilidades até a capacidade de cozinhar, esculpir e entalhar.


Por isso, uma boa resolução de ano novo é treinar uma técnica nova. Pode ser jardinagem, culinária, geometria, herbalismo ou magia cerimonial. Qualquer coisa serve, porque vai colocar o praticante em contato com suas limitações. Contanto que praticado com consciência.