• Paulo T. Vasconcellos

Sobre a Tradição.



Em dois campos dos estudos mágicos a palavra "Tradição" vem ressurgindo e se tornando cada vez mais frequente: Astrologia e Bruxaria.


No caso da Astrologia, desde 1992, com a iniciativa de tradução de grimórios alemães esquecidos em bibliotecas, a vertente da Astrologia Tradicional vem ganhando adeptos. No caso da Bruxaria, a dita "Bruxaria Tradicional" vem sendo invocada ora como distinção da bruxaria new age, ora até mesmo como um argumento de autoridade.


A palavra "Tradição", porém, no fundo, diz muito pouco. Em direito, por exemplo, Tradição é a transmissão da posse ou propriedade da coisa. Só. É aquilo que você recebe. Se recebeu conhecimento milenar, oriundo dos seus antepassados, de uma visão divina, de uma trip de ayahuasca, ou de um livro de banca de jornal, isso é tradição, quer seja uma prática que traz resultados, quer não.


Mais importante do que saber que qualquer coisa recebida é uma tradição (ainda que algo que não sobreviva duas semanas ao teste do tempo), é saber que a tradição transmite a Propriedade: o conhecimento recebido está em seu Poder e, consequentemente, em sua Responsabilidade.


Aquele que recebe se torna o responsável por cuidar do conhecimento, que é vivo.


A Astrologia Tradicional exclui uma dezena de coisas que a Astrologia Moderna usa, como os planetas Urano (descoberto em 1781), Netuno (descoberto em 1846) e Plutão (descoberto em 1930), mas utiliza elementos extremamente recentes, como por exemplo, a Lua Fora de Curso, cuja teoria data da década de 1960. Isso não representa nenhuma contradição: tradição não é um púlpito de igreja de onde se vociferam versos de um texto escrito há milênios, um trono deixado de herança, ou um latifúndio improdutivo, mas algo vivo e em construção.


Mas, talvez mais importante que a responsabilidade sobre o que se recebe, é fundamental lembrar que a propriedade (novamente no Direito) engloba a faculdade (liberdade) de usar, fruir, dispor e gozar do bem.


Tão nocivo quanto cristalizar as orações e feitiços em libretos e grimórios é não fruir gozar do que se sabe. "Não é revolução se eu não puder dançar", disse a autora. Não é um direito se não te faz feliz, parafraseio eu.


Você é o dono do que aprendeu, não o contrário. O tijolinho de uma catedral pode estar contribuindo para uma obra linda, mas ainda é um tijolinho. Sorria. Cutuque a vaca sagrada pra ver se ela ainda dá leite. Divirta-se. Na hora da morte, a última coisa que você vai querer pensar é "teriam feito o mesmo no meu lugar".

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