• Paulo T. Vasconcellos

Ser Criança dá Trabalho.


Imagine por um instante que alienígenas acabaram de abduzir você e lhe levaram para o planeta deles.


Como o planeta deles é no mesmo Universo que o nosso, basicamente as leis da Física são as mesmas, consequentemente as leis da Química também. Como eles são muito avançados, eles possuem um pequeno sistema de implante no ouvido que permite que a comunicação seja perfeita. Na verdade, quase tudo é muito parecido com o nosso planeta, exceto a matemática.


Toda a matemática funciona da mesma forma, com uma diferença fundamental: Como esses extraterrestres possuem seis dedos na mão direita e sete dedos na mão esquerda, a somatória de dedos nas mãos é 13. Consequentemente, a matemática deles é de base 13. Ou seja, eles não contam usando nossos 10 algarismos (0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9). Eles contam usando 13 algarismos que, para fins de exercício, serão: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, a, b, c, d.


Eis o exercício: expresse a sua idade na notação alienígena. Depois calcule quanto é “23 + 1a”.


É uma parte muito importante desse texto que você participe dessa brincadeira antes de continuar lendo.


Pois bem, um ser humano adulto normal deve ter sentido certa dificuldade de fazer esse exercício.


Talvez você tenha escrito os algarismos numa folha para contar e descobrir que 23 em base 13 é vinte e nove, que 1a em base treze é vinte e três e, consequentemente, “23 + 1a” é igual a 52, que corresponde a 3d.


Esse é o sistema de pensamento indireto, a analogia, na qual você converte o desconhecido em conhecido . É como pensar em português e depois traduzir para o inglês (algo muito diferente da fluência, que seria pensar na língua adequada).


Essa dificuldade é neurológica: a matemática de base 10 (como sua língua mãe) é um conjunto de conexões neurológicas estabelecidas e estabilizadas. Como você já conhece o caminho neurológico, você responde com facilidade que 29+13=52.


Porém, quando se tem contato com algo novo (matemática de base 13, por exemplo) o cérebro precisa construir novas conexões, o que demanda esforço e gasto energético. Por isso “23+1a=3d” é mais trabalhoso.


Isso explica, também, porque quando nos deslocamos para um lugar desconhecido, a ida parece maior que a volta (assumindo que o mesmo caminho foi usado): na ida estamos contabilizando e avaliando todas as informações novas, na volta estamos apenas conferindo o que já sabemos. Menos esforço, menos sensação de tempo empenhado.


Esse exercício (com diferenças) me foi apresentado duas décadas atrás por uma professora de matemática num congresso de educação. O objetivo dela era causar um choque de realidade e mostrar que nossa dificuldade em aprender uma matemática de base 13 é a mesma dificuldade que uma criança tem para aprender a matemática de base 10. Mas, para nós, a matemática de base 10 é tão automática que não conseguimos entender como a criança erra 7+8.


A automatização neurológica é benéfica do ponto de vista evolutivo: quando repetimos tarefas vezes o suficiente nosso cérebro consegue torná-las automáticas. Dirigir é um exemplo, fazer um caminho para o trabalho é outro ou, até mesmo, o trabalho em si tem chance de ficar automático. Muito por causa disso, quando vivemos em rotina “o tempo passa sem ver”.


Do ponto de vista magístico, a automatização neurológica é venenosa.


O Universo é mudança. Escolha a sua mitologia favorita e ela provavelmente ensina isso. Os nórdicos falavam em Yggdrasil, a árvore que sustenta o mundo (é uma árvore, não uma torre: ela é viva, ela cresce, ela se transforma). Para os Hindus o Universo é criado e destruído na Dança Cósmica de Shiva (é uma dança, tem movimento). Para a mitologia abrâmica, deus se apresenta com um tempo verbal parecido com o gerúndio (IHVH se lê Iahô e se traduz como “eu sou aquele que está sendo”, Ehieh se traduz como “eu sou quem serei”).


O ser humano, estando inserido no universo, deve acompanhar o ritmo da mudança (ou ser moído nas engrenagens da máquina do mundo). Ou, para quem gosta da mitologia abrâmica, quem não muda se afasta da imagem e semelhança de deus.


O caminho da Magia, portanto, deveria ser um caminho de abandono dos preconceitos, das fórmulas prontas, das soluções simples e ser capaz de enxergar o mundo com olhos de criança e encarar cada desafio e situação como se fosse algo novo (provavelmente daí que vem o “vinde a mim as criancinhas”). O cristianismo (como de costume) reduziu isso a uma mera postura emocional, o que faz muito sentido: pensar como criança, encarar cada problema como algo novo e procurar uma solução nova é neurologicamente cansativo (e a zona de conforto tem esse nome porque é, bem, confortável).


Mas ironicamente, mesmo no caminho da Magia, a cristalização neurológica acontece com excessiva frequência. Fale em um meio ocultista que escrever o nome, sobrenome e data de nascimento de uma pessoa num papel, colocar dentro de uma vieira e selar com cera de abelha é eficiente como uma forma de proteção e as pessoas tomarão nota. Diga que Thot era uma divindade Lunar, Thor era jupiteriano, Odin era mercuriano, ou que a Golden Dawn estava errada na atribuição elemental do Ritual Menor do Pentagrama e prepare-se para a chuva de pedras e frutas podres.


Dizem que para viver é preciso morrer. Parece uma frase de efeito fortemente paradoxal, mas, creio, pode ser muito simples: viver é crescer e mudar. Para crescer e mudar é necessário deixar morrer aquilo que se era. Praticar o desapego. Desapego que fica mais difícil quanto mais abstrato (outro paradoxo). Conheço mais gente desapegada de dinheiro do que conheço gente desapegada de aprendizados, especialmente espirituais.


Ser criança dá trabalho porque demanda que se parta do pressuposto que o que era certo antes talvez não seja agora. É duvidar das próprias conexões neurológicas. É cogitar que talvez as bases da própria vida sejam falsas (ou não sejam mais verdadeiras agora, o que meio que dá na mesma). Citando uma música ruim, a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza.

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