• Eduardo Regis

Símbolos de Serpentes: Representações em Alguns Contextos Espirituais e Mágicos


A serpente é um símbolo ou central ou de destaque em mitologias, religiosidades e em manifestações mágicas ao longo da história e do mundo. Para o mundo ocidental, forjado pelo Cristianismo, ela é uma figura polêmica, mas que nunca deixa de fascinar. Seria pretensioso por demais tentar exaurir os significados deste animal fantástico mesmo em alguns cenários e contextos cuidadosamente escolhidos. Portanto, só é possível iniciar a discussão, arranhar a superfície e deixar que o leitor interessado descubra novas camadas (e que as divida conosco, por favor).


Neste texto tentarei resgatar pontualmente símbolos serpentinos e, quando possível, costurar com o contexto mais contemporâneo do cenário do ocultismo. O objetivo é tentar jogar alguma luz acerca de algumas representações com as quais nos deparamos em livros e cerimônias, mas que não necessariamente ou conhecemos ou entendemos bem. Novamente, não pretendo ser exaustivo. Portanto, certamente comentarei menos conexões do que gostaria de poder fazer.


Um bom começo para essa discussão acerca da serpente começa no mundo Egípcio Antigo (aqui cumpre rememorar que o Egito Antigo durou muito tempo e foi muito diverso). A razão para isso é bem simples: o Egito Antigo maravilhava os Gregos, que, por sua vez, maravilharam o mundo Ocidental e nos contagiaram com a Egitomania. Por conta também da coincidência de tempo entre o renascimento esotérico ocidental e a tradução dos hieróglifos, poucas organizações esotéricas não se utilizam, de alguma maneira, de elementos Egípcios Antigos.


Na terra vivificada pelo Nilo, a serpente era um símbolo poderosíssimo. Imaginemos as figuras dos Faraós imortalizadas pelas estátuas e até por Hollywood. O adereço de cabeça mais marcante deles provavelmente era o nemés, uma espécie de capuz (geralmente listrado) que repousava sobre os ombros. A Figura 1 ilustra bem essa peça.


Figura 1. Máscara Mortuária do Tutankhamun. Retirado de: https://www.thenaturalsapphirecompany.com/education/earrings-an-introduction/earrings-a-brief-history/king-tut-death-mask/ (Acesso em 28/12/2019).


Alguns estudiosos acreditam que o nemés simbolizaria a juba de um leão. Entretanto, ao olhar um nemés é outra imagem que me vem à cabeça. A figura 2 revela claramente qual é esta imagem.


Figura 2. Uma Naja Egípcia. Retirado de: https://animals.fandom.com/wiki/Egyptian_Cobra (Acesso em 28/12/2019).

O caimento do nemés parece-me muito mais condizente com o desenho do capuz de uma serpente do que com a juba de um leão. Os Leões, cumpre lembrar, habitavam a região do Antigo Egito, mesmo que em número pequeno. Com o passar do tempo a população desses felinos foi desaparecendo da região, principalmente, acredita-se, por conta de mudanças climáticas. Assim, é possível que os nemés fossem sim representações desse animal que era solar e intimamente conectado à realeza. Entretanto, há espaço para considerações diferentes.


De fato, o que nemés representava aparenta ser alvo de alguma discussão e minha sugestão baseada na minha mera opinião é certamente digna de muitas críticas. Porém, se examinarmos novamente a máscara mortuária de Tutankamun, veremos que há uma tiara (ou uma coroa) onde figuram duas cabeças de animais e uma delas é de uma serpente. Esta serpente chama-se Uraeus e é um símbolo de autoridade e de vigilância e de poder e proteção (inclusive mágico). Além de fazer referência clara à Deusa Wadjet, protetora do Reino e dos Reis (dentre outros papéis).


O uso do nemés e do Uraeus atravessou as eras e é conservado até hoje por alguns praticantes de magia, principalmente pelos herdeiros da Ordem Hermética da Aurora Dourada. O nemés, especificamente, foi e é utilizado na Aurora Dourada, como um símbolo de autoridade dos oficiais no Templo. Além disso, Chic Cicero acredita que o nemés seja, na verdade, um símbolo do ankh e que representaria a força divina e a vida eterna. Para este autor, o objetivo do uso do nemés na Aurora Dourada seria simbolizar a busca por essa força divina e por essa vida sem fim, que seria a vida espiritual. Do ponto de vista da Ordem Hermética da Aurora Dourada, a explicação do Cicero é perfeita. Entretanto, me perdoem por duvidar de que esta tenha sido a razão pela qual os Egípcios utilizavam essa peça. Assim, isto serve de alerta para que sejamos capazes de diferenciar o simbolismo original de uma figura do contemporâneo e para que possamos compreender que estes dois simbolismos não se anulam.


Já o Uraeus funciona para muitos magos cerimoniais como símbolo de sua própria Verdadeira Vontade, já que o Agathodaimon Grego (um espírito pessoal) era também representado como uma serpente. Entretanto, alguns entendem que ela representaria também o poder do mago, assim como representava dos antigos Reis. Outros assumem que representa o “terceiro olho” e alguns dizem que é o próprio símbolo do despertar da Kundalini. Não é preciso de muita imaginação para fazer uma associação com a serpente que se pendura pelos “galhos” da árvore da vida. A sugestão clara aqui é de que é uma representação tanto de poder quanto dos objetivos do mago.


Outro símbolo muito comum no Egito Antigo, principalmente no Egito Greco-Romano era a Ouroboros, ou a serpente que come o próprio rabo. Stephen Skinner em sua tese de doutoramento, que depois foi publicada em dois livros, afirma que esta serpente seria um verdadeiro círculo mágico. De acordo com este autor, os magos da época usariam este símbolo como forma de proteção durante operações mágicas. Usualmente, a literatura aponta para a Ouroboros como um símbolo alquímico e mágico repleto de significados. Não pretendemos ignorá-los, mas é interessante notar com Skinner parece reduzir o símbolo a uma essência: poder. O poder da serpente é tamanho que ela é capaz de garantir a segurança de um operador mágico.


Temos então que é claro que no Egito Antigo, ao longo de sua complexidade e diversidade, a figura da serpente aparece em destaque, principalmente relacionada a poder e a autoridade. De alguma maneira, temos que esse significado foi parcialmente conservado, pelo menos no contexto da tradição esotérica ocidental. Agora vamos tentar visitar outros lugares e épocas diferentes do Antigo Egito, por mais fascinante que aquela terra seja.


Figura 3. Alesteir Crowley veste um nemés. Retirado de: https://simanaitissays.files.wordpress.com/2017/12/aleister_crowley_golden_dawn.jpg (Acesso em 28/12/2019).


Figura 4. Alesteir Crowley, novamente, com uma coroa na qual figura a Uraeus. Retirado de: https://blackcatcaboodle.com/products/the-great-beast-the-life-of-aleister-crowley-by-john-symonds-1st-1st-1951 (Acesso em 28/12/2019).


Mencionamos brevemente também a serpente na Árvore da Vida. Embora o Egito Antigo e o Mundo Greco-Romano estejam presentes no caldeirão que formou a tradição esotérica ocidental, é inegável que elementos Hebraicos são abundantes e relevantes nesta tradição. O fato da maioria das ordens iniciáticas ocidentais terem sido construídas com a Cabala Mística (cuja uma das grandes influências é o Judaísmo, claro) como um elemento de base não deixa dúvidas quanto a isso.


Sabemos que a Cabala Mística não é um produto propriamente Judaico. Há nela uma mistura de Neoplatonismo, Astrologia e Cristianismo, pelo menos, mas é evidente que o Judaísmo é um fator estruturante importante desta disciplina. Isto está revelado no próprio nome da disciplina e no seu símbolo mais comum, a Árvore da Vida. Ao puxarmos a discussão, então, para o Judaísmo, também cumpre trazer o Cristianismo, cuja base compartilhada com este último, nos permite (até certo ponto) discuti-los de maneira conjunta.


A Ordem Hermética da Aurora Dourada novamente nos será um exemplo adequado. Todo seu sistema de Graus e toda sua estruturação são baseados nas Esferas da Árvore da Vida e numa progressão que (explicada de maneira bem grosseira) vai do mais denso ao mais sutil. Assim, um membro da Ordem começa no Grau de Neófito, nos limites exteriores à Malkuth, vai para Zelator (agora propriamente em Malkuth), depois para Theoricus (em Yesod) e assim por diante. Toda esta jornada é feita por meio dos caminhos da Árvore da Vida. O que nos sugere que o avanço é pelos caminhos, tendo as esferas como “marcos” e nos dá uma pista sobre a tão discutida natureza dinâmica dos caminhos e mais estática das Esferas. Fato é que esse caminho de “escalada” na Árvore da Vida é associado a uma serpente. Ao examinarmos o diagrama da Serpente da Sabedoria é valioso notar a ordem na qual ela toca os caminhos, bem como se ela passa por frente ou por trás deles.


Figura 5. A Serpente da Sabedoria. Retirado de: http://myoccultcircle.blogspot.com/2011/01/serpent-of-wisdom.html (Acesso em 28/12/2019).

A serpente é curiosamente o caminho de “retorno”, já que ela “sobe” de Malkuth até Kether. Curiosamente, pois a queda dos seres humanos foi precipitada por uma serpente, quando esta tentou Adão e Eva e eles comeram do Fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Parte do mistério desta relação pode estar nisto: em Hebraico a palavra serpente “nun-heh-shin” e Messias “mem-shin-yod-heh” tem o mesmo valor gemátrico de 358. Quando duas coisas tem o mesmo valor gemátrico (Gematria é um método de interpretação do hebraico que considera que cada letra do alfabeto Hebraico corresponde a um valor numérico), de maneira geral, entende-se que elas apresentam uma conexão poderosa. Assim, as palavras messias e serpente estariam conectadas e até mesmo expressariam uma essência compartilhada. É evidente que a discussão acerca disto é grande e que não podemos, neste texto, nos deter neste tópico.


Voltando ao Egito, mas sem abandonar o Judaísmo e o Cristianismo, podemos comentar também acerca do Cajado de Moisés. Quando Moisés está diante da Sarça Ardente, Deus transforma seu cajado em uma serpente e novamente em um cajado. Mais tarde, Moisés usaria este cajado para abrir o Mar Vermelho. Aarão também carregava um cajado dotado de poderes milagrosos. Este se transformou numa serpente e devorou as serpentes dos feiticeiros do Faraó e depois transformou as águas do Nilo em cor de sangue. Ou seja, temos dois (ou um, há discussão se os cajados de Moisés e Aarão seriam o mesmo ou não) cajados com qualidades de serpente que são capazes de operar milagres. A serpente novamente surge como um símbolo de poder e de conexão com o divino. Mais ainda, ela surge quase como um intermediário.

Aqui é interessante notar como a serpente, embora usualmente rejeitada pelo mundo Judaico-Cristão (como a culpada pelo pecado original), é uma figura notável na Cabala Mística e também na própria mitologia destas religiões. Como estes papéis aparentemente conflitantes se harmonizam? Voltamos à discussão que engloba o mistério do valor gemátrico de Messias e serpente. Talvez esta relação possa ser alvo de uma investigação futura.


O Cajado de Moisés e sua face serpentina ganharam uma camada ainda mais complexa no Vodou Haitiano. De acordo com Milo Rigaud, este cajado seria um espírito poderoso. No caso, o Lwa serpentino conhecido como Damballah. Isto pode parecer apenas circunstancial, mas ao entendermos que Damballah é um Lwa de suma importância no Vodou e que este (de acordo com algumas histórias), foi uma das primeiras criações de Deus, a importância desta associação ganha corpo. Damballah é (sendo simplista) a serpente da existência e foi no entrelace com Ayida-Wedo (sua amante e também uma das primeiras criações divinas) que muitas coisas do mundo se manifestaram. De certa maneira, Damballah sustenta o mundo e seu amor com Ayida funciona como a expressão dos polos opostos, pela qual toda a criação toma forma e se apresenta. Como tudo no Vodou, existem diversas versões para a origem e o papel exato de Damballah, mas é certo que ele seja um Lwa de pureza e um Lwa muito antigo.


Figura 6. Bandeira de Vodou representando Damballah.


Damballah, provavelmente deriva da Serpente Dan (acredita-se que de “Dan do Reino de Aladá” – DAMBALLAH), Vodun cultuado no Benin. De fato, Hambly nos revela que serpentes eram adoradas já no antigo Reino de Aladá (que surgiu no fim do Século XVI), no que hoje é o atual Benim. Ou seja, temos que esta adoração no Vodou Haitiano provavelmente nasce de um culto Africano. É evidente que certas particularidades surgem no Novo Mundo, como a associação de Damballah com o Cajado de Moisés. Porém, nascem do elemento serpentino em comum.


Cajados associados a serpentes, por sinal, também estavam presentes no mundo Greco-Romano. Impossível não nos lembrarmos do Caduceu de Hermes, com duas serpentes entrelaçadas. O mito conta que o Caduceu teria sido um presente de Apolo. Curiosamente, Apolo era o Deus que presidia as profecias no Oráculo de Delfos por meio da sacerdotisa chamada de Pitonisa ou Pítia (que muito provavelmente usava uma boa dose de enteógenos para “pitonisar”). O nome Pítia vem de Pytho que significa serpente. Isto se conecta a serpente Píton, que se acreditava morar no sítio de Delfos e que teria sido morta por Apolo. É interessante notar que a serpente tomava conta de um oráculo e que Apolo depois reivindica esse mesmo papel. A sugestão aqui é que é por meio da vitória sobre a serpente que Apolo ganha seus poderes proféticos. Novamente, a serpente é um símbolo que dá sabedoria.


Além disso, as duas serpentes entrelaçadas subindo por um cajado lembram a iconografia encontrada nos postes centrais (Poteau-mitan) dos templos (Hounfours) de Vodou Haitiano. Adicionalmente, alguns acham que o Caduceu é também um glifo do despertar da Kundalini, como uma representação de Ida e Pingala e Sushumna. Neste caso, o mesmo poderia ser imaginado para o Poteau-mitan do Vodou.


Figura 7. Poteau-mitan com duas serpentes entrelaçadas. Retirado de: https://www.flickr.com/photos/edvolunteers/6003419330 (Acesso em 28/12/2019).


Fizemos uma viagem bem rápida por diversos simbolismos das serpentes em grandes religiões, culturas ou em tradições mágicas. Como eu já havia avisado de pronto, apenas uma série de volumosos livros seria capaz de dar conta de uma quantidade satisfatória de interpretações e de conexões. Aqui, no Espelho de Circe, fico feliz de poder apresentar este início de discussão que espero que se torne uma provocação. Ou seja, tomara que agora cada um dos leitores deste texto pense um pouquinho sobre suas tradições mágicas ou espirituais e em como a serpente se encaixa nelas e comece a desenhar estas ligações todas. Tenho certeza de que o resultado será recompensador.


No caso de se sentirem inspirados a compartilhar seus achados conosco, por favor, vamos ocupar os comentários ou então o Facebook.

Bibliografia:

Chic Cicero. Self-Initiation into the Golden Dawn Tradition.

R. T. Rundle Clark. Myth and Symbom in Ancient Egypt

Alesteir Crowley. Magick in Theory and Practice.

W. D. Hambly. The Serpent in African Belief and Custom.

Milo Rigaud. Secrets of Voodoo.

Stephen Skinner. Techniques of Graeco-Egyptian Magic.

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