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Responsabilidade não é para qualquer um

Cada um é senhor de si mesmo, deve depender de si próprio; deve, portanto, controlar-se a si próprio. - Buda

Arte por Bill Mayer

Qualquer sociedade muda e se adapta com o passar dos anos, nossas interações sociais evoluem, progridem. Atitudes antes vistas como normais hoje são consideradas abomináveis, assim como padrões de normalidade, postura, compostura. Tudo é passível de mudanças, sejam elas boas ou ruins.


O acesso a todo tipo de dado gerou um novo tipo de “conhecimento”: somos diariamente bombardeados com diversas informações e dessas, muitas não possuem nenhum real valor. A era da informação cada vez mais se torna a era da “desinformação”, a facilidade de divulgação de conteúdo, seja ele bom ou ruim, desenfreou uma série de absurdos. De acordo com analistas, tanto Trump quanto Bolsonaro teriam se beneficiado de tais comportamentos para alavancarem suas eleições.


Há alguns anos, ocorreu uma palestra sobre a diferença entre “acesso à informação” e “acesso a informação de qualidade”. Com o advento da internet, qualquer pessoa consegue criar um site e divulgar suas ideias, sejam elas boas ou ruins. Um exemplo claro sobre isso é o número de sites, páginas e comunidades que divulgam a ideia de terraplanismo, mesmo que a ciência tenha mostrado que isso está errado.


Neste ponto, podemos dizer que os tempos antigos eram relativamente melhores. Para que uma idéia fosse publicada, ela necessitaria passar por um crivo editorial. Ou seja, seria avaliada por um ou mais profissionais, dentre ele alguns especialistas e verificadores. Uma vez que o conteúdo tenha sido colocado a prova e validado, ele seria enviado para conhecimento público através de alguma mídia tradicional (jornais, livros, revistas, etc.). De maneira nenhuma diria que não haviam erros, eles aconteciam, porém não com a frequência atual. Hoje, a publicação de idéias ou conceitos é extremamente simples, mas não quer dizer que isso tenha se tornado melhor.


O acesso ao baú sem fim de informações fez com que muitas vezes nós aceitemos o que nos é dito sem uma análise profunda. Diversos autores se valem desse desconhecimento (ou falta de vontade de procurar outras fontes?) para divulgar ideias que não necessariamente condizem com a verdade. Nesse sentido, acabam sendo considerados como boas fontes de informações por aqueles com menor conhecimento sobre assunto, o que pode levar a uma elevação de status. A era da (des)informação acaba dando, em muito dos casos, mais atenção a um autor que é recomendado por 500 pessoas que não têm profundo conhecimento, em detrimento a outro que é reconhecido como um profundo conhecedor.


E aqui, podemos apontar um fato deveras interessante: com a quantidade de conteúdo que é divulgado, seria de se esperar que uma pessoa que se propõe a ser um magista deveria ter o costume de avaliar, confrontar e analisar fatos. A desculpa de que algo foi feito porque alguém falou é uma medíocre transferência de culpa: eu fiz porque era assim que o livro explicava. Quantos nesse processo não tentaram realizar feitos para o qual não estavam nem um pouco preparados? Quantos relatos de eventos mal-sucedidos com goetia estão espalhados pela internet afora?


Os processos de admissão de ordens e sociedades magísticas têm como principal objetivo separar o joio do trigo. Magia, por si só, é apenas um instrumento da vontade. E aqui, vale então elaborar um pouco mais: os exercícios básicos de qualquer ordem são justamente criados para confrontar o nível de vontade de um candidato. E pagar taxas não é uma comprovação de vontade, apenas de poder financeiro. Fazer um exercício de mentalização às 3h da manhã durante 3 meses sem perder um dia é uma prova de vontade.


Nosso cérebro, tão bombardeado pelas informações dispostas a sua frente a todo momento, não consegue entender o poder que temos em nós mesmos. Precisamos assim ludibria-lo, dizendo que o poder da magia não está em nossa vontade, mas sim nas velas, vestes, incensos e outros aparatos que usamos para realizar nossos rituais. E até mesmo isso poderia ser usado por aquele que não quer se responsabilizar pela sua falha: não foi culpa minha, era a vela que não era o verde correto.


Infelizmente, a era da (des)informação criou uma categoria de “estudiosos” que têm acesso a milhares de livros, os quais muitas vezes ficarão apenas na prateleira para as visitas verem o quão intelectual tais pessoas são. O advento do PDF fez com que tenhamos acesso a muita coisa, e ao mesmo tempo não temos nada.


E nesse ínterim, acreditamos que a falha de nossos desejos não terem sido atendidos são única e exclusivamente de fatores externos. Deixamos de avaliar nosso próprio âmago em busca das respostas, o que deveria ser o caminho primário de todo magista. Consideramos mais fácil e viável nos isentar, do que assumir suas próprias responsabilidades. O uso do espelho para auto-avaliação é deixado sempre coberto, pois ele poderia mostrar nossos maiores demônios.


Talvez isso seja ainda um resquício da cultura cristã que de forma tão difícil e vagarosa tentamos nos desligar. Desde a mais remota idade média, é “aceitável” o uso de fatores externos para justificar uma ação que não nos orgulhamos. Conduta comum até hoje nas mais diversas religiões, onde o diabo ou demônio é responsabilizado por tudo aquilo que é “feio”. Um usuário de drogas não comete o ato por sua íntima vontade mas, por uma tentação diabólica, pela vil presença e influência de uma entidade maligna. O mais interessante é ver os aspirantes a magistas usando do mesmo artifício, talvez com outros nomes, autores e personagens, mas que no fim, levam exatamente a mesma conduta.


Apesar de usar a citação de Buda onde ele emprega a expressão “senhor de si mesmo” para dialogar neste texto, acredito que seja interessante apontar o que Sócrates fala sobre esse argumento:

“Aquele que é senhor de si mesmo é também, acredito, escravo de si mesmo, e aquele que é escravo, é também senhor, porque ambas as expressões se referem à mesma pessoa.”

E aproveitando a deixa, “Os escravos servirão”.