• Nick de Mattos Frisvold

Perfume de inverno


Arte por Nicolas de Larmessin (1638-1694)

Para um imigrante vindo do outro hemisfério há quase 20 anos, o inverno ainda é a época do ano mais surreal. Na Noruega temos no inverno a árvore de Natal, a sempre-viva anunciando que a sempre presente força vital da natureza retornará, mesmo que a noite mais fria e mais escura do ano possa indicar o contrário. Aqui vamos ter São Nicolau vestindo suas roupas muito quentes sob o calor escaldante do verão e os cheiros são todos estranhos.


O solstício de inverno ou Yule na Escandinávia chega com suas próprias fragrâncias, cores e sabores distintos. É o aroma de canela, pinho, cardamomo e da madeira queimando na lareira. O sabor é de carne gordurosa, amêndoas, zimbro, vinho e cerveja. Nos tempos antigos, a peça central para o evento de Yule era o tronco de Yule, um grande pedaço de madeira representando o membro viril de Frey que era literalmente incendiado para garantir que os poderes da fertilidade e da juventude da natureza chegassem novamente após a noite mais escura do ano. A lembrança de Yule foi passada adiante para fazer parte das celebrações de Natal e na Escandinávia ainda podemos ver como as antigas observâncias foram preservadas no que dava o gosto e o cheiro particular do Natal. Os troncos que eram servidos ao fogo da lareira representavam o membro de Frey dado aos poderes de Loke, não o troll-aesir, mas o vaettir com o mesmo nome, que vivia na lareira e garantia com seus ventos secretos que as brasas sempre estivessem prontas para que mais madeira fosse queimada durante os meses frios do inverno, dando às forças da primavera um ponto para se conectar à medida que sua maré chegasse. O sacrifício do porco de Yule, novamente um animal sagrado para Frey, era essencial em muitas fazendas da Escandinávia e, caso faltasse, um carneiro ou ovelha era um substituto muito bem-vindo.


Esses elementos no hemisfério sul seriam mais apropriadamente encontrados nas festividades relacionadas a São Pedro e São João e encontramos aqui um mistério diferente daquele que desenvolve entre Frey e Loke. Como o inverno do sul é sagrado a São Pedro, a pedra fundamental da igreja, e São João, o santo do batismo e do fogo, vamos encontrar aqui temas sobre o fogo e sua continuação no batismo de fogo, que foi dado por São João e se tornou eterniza em São Pedro. A planta que reina sobre o solstício de inverno sob as estrelas de Hidra é o milho, uma planta tão sagrada que a deusa asteca Xilonen, dona do milho, tinha sete cobras para proteger a planta. No Brasil, encontramos em várias regiões a história de um antigo Cacique que era um símbolo de iluminação para seu povo e que, em seu leito de morte, deu orientações sobre como preparar seu túmulo. Ele disse que do seu túmulo cresceria uma planta divina com sementes douradas que eles deveriam plantar em prol da prosperidade e da satisfação. Os homens da tribo fizeram o que o Cacique disse e pouco depois de sua morte, a primeira planta de milho cresceu. Os atributos solares devem ser bem claros e, com um pouco de alinhamento, a forma fálica da espiga de milho pode ser vista como naturalmente tecida no mesmo design que o membro viril de Frey.


As cores de Yule são o vermelho, o branco e o verde e podem ser tipificados por São Nicolau como a amanita muscaria antropomorfizada, uma dica da intoxicação que também vinha com Yule. Também é interessante dizer que o pouco conhecido Odinsakr, ou campo de Odin, era de fato o campo de papoula, soprando vermelho e verde ao vento, falando dos presentes da natureza que poderiam ser colhidos no verão, assim como a amanita, depois ser usada na maré de Yule como veículo para se sonhar com a primavera e o verão, lembrando ao dono da noite mais escura que nada é permanente, e que o dia virá.

Na Escandinávia, o solstício de verão também é dedicado a São João e grandes fogos são feitos em comemoração ao Sol e ao dia mais longo do ano; portanto, a presença de fogo é crucial em cada um dos solstícios e podemos operar com um São João da Noite e um São João do Dia, dois lados do mesmo mistério. Enquanto o São João do Dia carrega o cheiro dos campos de colheita e o ar do oceano se funde com brasas e fumaça, uma celebração da vida como o São João da Noite cheira a morte e seiva…


A maré de Yule também era uma época de purificações, já que o inverno também era um período de desgoverno, quando a hoste profana e os fantasmas maliciosos perambulavam pela noite trazendo infortúnios. O cheiro de Yule manteria essas forças afastadas, pois ao mesmo tempo convidavam a boa sorte.


Uma receita tradicional de incenso usada nas três noites anteriores ao Natal era composta pelas nove ervas a seguir, e sempre que vemos o presente das nove ervas sabemos que estamos falando de trolldom de uma linhagem muito tradicional e original de magia popular escandinava.


Ínula (Inula helenium), também conhecido como cabeça de Odin

Eupatório (Eupatorium cannabium) ou corda de Frigg

Artemísia (Artemisia vulgaris) também conhecida como a cinturão de Frigg

Abrótano (Artemisia abrotanum) também conhecido como amor de Frey ou paixão de Frey

Absinto (Artemisia absinthium) era uma planta sagrada para Balder, como Valeriana era conhecida como sobrancelha de Balder

Erva-coalheira (Galium verum) ou as palhas da cama de Freya

Dulcamara (Solanum dulcamara) era uma planta sagrada para Heidr e era uma poderosa planta bruxa

Catinga de Mulata (Tanacetum vulgare) ou botões dourados também chamados de botões de Idun (a dona das maçãs da imortalidade)


Qualquer uma dessas plantas poderiam ser substituídas pelo zimbro, uma árvore sagrada a Thor e Tyr, que eram em grande parte vistos como os donos do trolldom.


É interessante gerar os aromas adequados porque estamos falando de espíritos aéreos e de como eles são atraídos e enredados pelos aromas que se esticam de um reino de ressonâncias olfativas para o que queremos atrair. Naturalmente aqui no Brasil o solstício de inverno nunca terá o mesmo cheiro do norte, mas aqui temos o cheiro do caldo verde, do milho em uma grande variedade de formas infundidas com vinho e canela, e neste mundo de perfumes por que não queimar a fragrância do inverno para aproximar essas forças para casa, lareira e templo?

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