• Eduardo Regis

Papéis invertidos: o humano infectando o vírus e a secularização virulenta.


Imagem de Łukasz Dyłka por Pixabay


Em tempos de Covid-19 e quarentena, percebo-me acessando mais e mais as redes sociais (afinal, mesmo as leituras mais interessantes necessitam de pausas). Com isso, sou exposto aos humores e pavores de uma multidão de conhecidos, amigos e familiares e sou forçado pela minha personalidade inquieta a costurar conexões. Não que eu tenha chegado a alguma conclusão genial, mas parece-me que a valorização do conhecimento científico atingiu um novo patamar, que é fruto de razões evidentes. Entretanto, junto disso, em um movimento que poderia até mesmo nos fazer crer que são coisas necessariamente opostas, crescem ataques ao papel da religião e da espiritualidade, geralmente suportados por alegações como “rezar não salva vidas”.


É evidente que o vírus SARS-COV-2 nada tem a ver isso. Como um amontado engenhoso de moléculas que este é, este construto apenas busca se perpetuar, seguir adiante e continuar existindo, de alguma maneira. As mortes todas pelo caminho, nada significam para ele. A doença é uma consequência infeliz do “desejo” do vírus de seguir em frente. Por isso, precisamos colocar a culpa necessariamente no humano. É o humano quem se utiliza do artifício do vírus, em uma inversão irônica de papéis (já que o vírus precisa da maquinaria celular das células humanas para se perpetuar) para vociferar suas opiniões e pontos de vista. Como uma muleta biológica contagiosa, o vírus dá palanque a quem quer somente falar o mais do mesmo, ainda que isto estivesse enterrado em algum canto reprimido do seu ser.


Entendo que as pessoas achem que precisam se reconhecer funcionais e adequadas ao seu tempo. Notem o “achem que precisam”. Talvez eu esteja sendo muito pretensioso. É possível que seja uma necessidade real enquanto existir. Assim, orgulhar-se da sua racionalidade é parte do processo de identificação. Quem sou eu no mundo? Estou à deriva ou estou seguindo o fluxo com os demais? Para que possamos ser acolhidos pela sociedade e por seu convívio, precisamos aceitar algumas premissas e até mesmo nos comportar de determinadas maneiras que sejam esperadas. Portanto, é difícil nos tempos atuais alguém levantar a voz contra a relevância da ciência. Afinal, nossa sociedade contemporânea encontra suas bases em momentos e movimentos que correram junto ao desenvolvimento científico e que foram impulsionados por este.


Contra a religião, por outro lado, é fácil. É “chutar cachorro morto”. Desde o advento ocidental da separação entre o Estado e a Igreja e do espalhamento do conceito de secularização, a espiritualidade tem tomado um caráter cada vez mais privado e reduzido, como entende Charles Taylor. Frente ao poder esclarecedor da ciência e do intelecto, o ato de acreditar, de se doar a uma força invisível e de praticar rituais que em uma análise rasa e equivocada não tem sentido ou efeito prático algum, tem se tornado alvo de críticas e de piadas.


É claro que efetivamente vacina alguma ou protocolo algum de terapia será desenvolvido por qualquer instituição religiosa. A questão é: desde quando se espera que tais instituições solucionem esse problema? Será que a iluminação intelectual nossa não é capaz de compreender que o papel da espiritualidade não é operar milagres?


Um estudo conduzido por Crystal L. Park em 2005 analisou o papel da religião na maneira pela qual as pessoas lidam com o estresse cotidiano. De interessante para a discussão corrente cabe destacar que Park coloca o seguinte achado: a religião está positivamente associada à qualidade de vida. Isto, como o artigo elabora, pode ocorrer por meio de experiências, objetivos e valores. Ora, não quero dizer que a falta de uma religião tenha o efeito oposto. Não acredito que tenha. Entretanto, não é possível descartar a religião e a espiritualidade como supérfluos.


Assim, gostaria de retornar ao ponto da inversão de papéis. Vemos então que é o indivíduo ou talvez uma parcela da sociedade, que se apodera dos mecanismos do vírus para perpetuar seus desejos. Dos mecanismos virais, destacaria o medo como o mais poderoso (estou ignorando os mecanismos biológicos, mas mesmo que não estivesse talvez o medo fosse eleito o mais perigoso ainda assim) Diante de uma ameaça forjada pelas mãos isentas da natureza, não há garantias de que o humano tenha qualquer vantagem. Contra o vírus novo e célere, nossas armas intelectuais não são tão eficazes e precisamos contar com o arcabouço biológico, que é falho e até misterioso. A incerteza e a falta de controle fazem surgir o medo e então como em uma reversão a um aspecto natural adormecido, o humano quer apenas se perpetuar. Porém, isso não se resume à vida corpórea, mas se estende também à mente, que é para muitos o assento da alma e a parcela mais nobre da existência humana.


A mente se expressa de muitas maneiras. É verdade que a mais rápida e fácil talvez seja através de opiniões, de pontos de vista. Um conjunto de opiniões e valores pode, em teoria, ser utilizado para definir uma pessoa. Aliás, diria que isto tem sido a norma. “Fulano é esquerdista”. “Ciclano é Bolsonarista”. Destas simplificações (que mais são bandeiras do que reduções adequadas) está a ideia de que pessoas são meramente amontoado de ideias.


Então, o humano quer ser perpetuar pelas ideias. Não quer tanto se perpetuar pelo corpo, embora tente, pois ainda é impossível. Resta então que a mente resista ao agravo do tempo e se torne imortal, memorável e que seja cultuada. Porém, esta “vida eterna” pede por algo que a maioria esmagadora jamais conseguirá atingir: genialidade. Assim, em um mecanismo mental replicado da biologia dos vírus, ideias e opiniões são lançadas aos ventos, em uma tentativa odiosa de que um determinado ponto de vista prevaleça. O resultado? Evidentemente nada agradável.


Assim é com o secularismo, que nessa dinâmica bizarra, torna-se o que chamo de “secularismo virulento”, pois é, em sua essência, ódio. É ódio ao que é religioso e espiritual. É ódio ao que não se consegue enxergar valor. É auto centrismo levado ao extremo. É o oportunismo de se lançar contra o que não se entende, tentando: 1) legitimar pela ou redução ou aniquilação do estranho a sua própria noção; 2) perpetuar um dado status quo; 3) alcançar qualquer outra vantagem.


É aí que o humano se distancia do vírus, pois o vírus é um construto natural desprovido de consciência. O humano, por sua vez, sistematicamente age com intenção. Embora o fim possa ser sempre a perpetuação de si mesmo como ou corpo ou mente ou figura, a intencionalidade denuncia que o humano sabe ser desprezível, enquanto que o vírus só sabe se replicar.


O leitor astuto saberá fazer as substituições adequadas e verá que esse mecanismo provavelmente existe para qualquer área. Troque secularismo por política ou por futebol e a discussão continua se encaixando.


É curioso, portanto, que em meio a pandemia provocada por um vírus, seja revelado que nós mesmos somos tipos virais e que soltamos novas partículas a todo o instante, em uma tentativa desesperada de “infectar” o próximo e a sociedade. Não sabemos viver sem viralizar. Não sabemos não sermos contagiosos. O humano está agora em uma “inversão de papéis” que melhor seria chamada de “descortinar de papéis”. Afinal, antes do SARS-COV-2, qualquer coisa era subvertida pelo humano para fins de seu mecanismo de perpetuação. A conclusão? O agrupamento social é, de fato, um grande laboratório e estamos frequentemente desenvolvendo novas armas sociais.


Referências:


Taylor, c. A secular age. Belknap press. 2007.


Park, C. L. Religion as a meaning-making framework in coping with life stress. 2005. Journal of Social Issues. 61(4): 707-729.

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