• Dr. Facilier

O multiuso Baralho Cigano




Saudações, crianças!

O titio esteve sumido porque resolveu dar umas pernadas pelo mundo em busca de tradições locais sobre cartomancia, aqueles conhecimentos de raiz, passados de boca a ouvido e que dificilmente são encontrados em livros.

Minhas andanças começaram justamente na maravilhosa terra de vocês, o Brasil, um verdadeiro caldeirão das mais variadas culturas e tradições. Fiquei com a impressão de que uma vida toda de estudos e pesquisas não seria suficiente para conhecer todas as variantes de magia popular que convivem harmoniosamente nesse rico solo, alimentado pelo sangue do negro e do índio e regado com o suor do branco.

Qual não foi a minha surpresa quando, chegando ao Rio de Janeiro e passando a bater em todas as portas onde me diziam atender uma cartomante, deparei-me com o mesmo Petit Lenormand de que tratei na nossa última conversa. Com os mais diferentes formatos e ilustrações, novos em folha ou muito surrados pelo uso continuado, eu sempre me deparava com as cartas do Petit Lenormand: em quartos escuros e pequenos, templos religiosos, tendas erguidas nas ruas, elegantes espaços dedicados às ciências ocultas, em mãos velhas, enrugadas e castigadas ou jovens e muito bem cuidadas, as cartas da velha Europa eram onipresentes. Mas, no Brasil, poucos ouviram falar no Petit Lenormand, pois, nesse país, ele tem um outro nome: Baralho Cigano.

Ao que pude concluir, o uso dessas cartas disseminou-se num culto brasileiro chamado Umbanda, também sendo encontradas num culto-irmão um tanto mal afamado chamado Quimbanda. Embora a maioria dos adeptos da Umbanda vejam-na como uma religião, a mim me pareceu tratar-se mais propriamente de um culto mágico formado a partir da união de elementos tradicionais do catolicismo romano, da feitiçaria europeia, da magia africana e da ciência dos índios que habitavam o Brasil muito antes da chegada do homem branco. Marcada por um contato muito estreito com espíritos de todo tipo, a Umbanda parece não fechar as suas portas a ninguém, acolhendo todo e qualquer “morto” vinculado à cultura e às tradições dos seus adeptos: espíritos de índios, de velhos africanos, de crianças, de marinheiros, de boêmios, de mulheres da noite, todos são bem-vindos nesse culto brasileiro.

Um dos agrupamentos de espíritos muito disseminado em algumas casas de Umbanda é composto por ciganos e tudo indica que foram esses espíritos que trouxeram para esse culto o uso das cartas do Petit Lenormand, que passou a ser chamado, por isso mesmo, de Baralho Cigano.

Há algumas variantes na interpretação das cartas no Brasil em comparação aos significados clássicos encontrados na Europa, as quais formam a denominada “escola brasileira”. Por exemplo, a carta do Trevo (6 de Ouros), que na escola europeia significa um golpe de sorte, na escola brasileira quer dizer exatamente o oposto, um golpe de azar, pois os trevos foram associadas às ervas daninhas do campo (e tanto se disseminou essa interpretação que, em alguns baralhos brasileiros, essa carta passou a ser chamada de “paus e pedras”). A carta dos pássaros (7 de Ouros), associada, na Europa, a aborrecimentos e falatório, no Brasil foi associada a romance, assim como a carta da Cruz (6 de Paus), que remete tradicionalmente a sofrimento, tornou-se um símbolo de fé e espiritualidade na terra da Santa Cruz.

Mas o que mais me chamou a atenção mesmo foi o uso oracular dessas cartas para a determinação dos orixás que acompanham o adepto da Umbanda. Os orixás são divindades africanas que vieram ao Brasil juntamente com os negros Yorubá, dos quais a Umbanda absorveu a noção de que cada pessoa é vinculada a um, dois ou mais orixás, bem como da importância de se conhecê-los, para se poder cultuá-los e atrair suas bênçãos para a vida. Além disso, as mesmas cartas são usadas para saber a qual agrupamento ou falange de espíritos está ligado o chamado “guia espiritual” da pessoa.

A primeira pergunta que eu me fiz certamente é aquela que vai na mente de muitos de vocês que estão lendo estas linhas: o que cartomancia tem a ver com um culto mesclado com tradições africanas e indígenas? Aparentemente, nada. Mas, num segundo olhar, tudo!

É preciso levar em consideração que a Umbanda não foi formada somente a partir dos saberes do negro e do índio, mas igualmente pelas tradições europeias importadas para o Brasil, dentre elas a cartomancia das mulheres portuguesas, muitas delas degredadas sob a acusação de bruxaria. Outro ponto importante é a ausência de um método oracular ou divinatório próprio da Umbanda, de modo que alguns trouxeram o jogo de búzios do Candomblé (um culto similar à Santeria cubana) para a Umbanda; outros, a vidência num copo de água; outros ainda, o oráculo africano da “alobaça”, no qual se usam pedaços de cebola para divinação. Não é nada estranho, portanto, que as cartas também tenham chegado a esse culto, seja por meio dos próprios espíritos que o compõem (no caso, os ciganos ou, ainda, as entidades femininas conhecidas como pombagiras), seja pelas mãos de praticantes já antes versados na arte da cartomancia.

Assim é que alguns sacerdotes do culto, chamados de pai de santo ou mãe de santo, quando não detêm o conhecimento do jogo de búzios diretamente do Candomblé ou de alguma vertente da Umbanda que o transmite, associam os orixás e algumas falanges de espíritos às seguintes cartas do Baralho Cigano:

1 – O Cavaleiro (9 de Copas): Exu

3 – O Navio (10 de Espadas): Iemanjá

5 – A Árvore (7 de Copas): Oxóssi e espírito de caboclo (índio)

6 – As Nuvens (Rei de Paus): Iansã (Oyá)

7 – A Serpente (Rainha de Paus): Oxumarê

9 – As Flores (Rainha de Espadas): Nanã Buruquê

10 – A Foice (Valete de Ouros): Obaluaê

11 – O Chicote (Valete de Paus): Boiadeiro

13 – A Criança (Valete de Espadas): Ibejí e espírito de criança (Erê)

18 – O Cachorro (10 de Copas): espírito de baiano (no geral, espíritos vindos da região Nordeste do Brasil)

20 – O Jardim (8 de Espadas): Ossãe

21 – A Montanha (8 de Paus): Xangô

22 – Os Caminhos (Rainha de Ouros): Ogum

28/29 – Homem (Ás de Copas) e Mulher (Ás de Espadas): espíritos de cigano ou cigana

30 – O Lírio (Rei de Espadas): Oxum

31 – O Sol (Ás de Ouros): Oxalá

32 – A Lua (8 de Copas): Pombagira

35 – A Âncora (9 de Espadas): Marinheiro

36 – A Cruz (6 de Paus): espírito de preto-velho ou preta-velha (almas benditas)

Caso você queira tentar descobrir seus orixás por meio dessas cartas, uma preparação de três dias é recomendada para que sua energia pessoal (no Brasil, dizem Axé) fique o mais serena e limpa possível, facilitando, dessa maneira, o processo divinatório. Durante esses três dias de preparação, você tomará um banho dos pés à cabeça com pétalas de rosas brancas trituradas com as mãos em água de coco fresca. Se você for daqueles mais preguiçosos, que acham muito trabalhosa essa receita, pode banhar-se com água perfumada com colônia de alfazema, item muito fácil de se encontrar no comércio brasileiro.

No terceiro dia, você acenderá uma vela branca em intenção do seu anjo da guarda, pedindo que lhe sejam revelados seus “orixás de cabeça”, os quais, na Umbanda, normalmente são dois: o orixá de frente e o “juntó”. Feito isso, embaralhe as cartas e sorteie três: poderá sair apenas um orixá (ou espírito), dois, três ou nenhum. Se você não obtiver sucesso, deixe passar um mês e repita o processo, até que seus orixás sejam revelados. Se sair apenas um orixá, repita o processo também depois de um mês, para tentar encontrar o seu “juntó”. Saindo dois orixás, o primeiro será seu orixá de frente, o segundo, o seu “juntó” e a terceira carta mostrará como as forças desses orixás se unem na sua vida. Por fim, se você sortear três cartas representativas de orixás, a terceira carta indicará um orixá que, juntamente com o orixá de frente e o “juntó”, integrará o seu “enredo” espiritual.

Por hoje, é isso que eu pretendia ensinar-lhes. Espero que gostem! Se quiserem adquirir um Baralho Cigano bem brasileiro, eu recomendo o “Baralho para Ler a Sorte” da Copag e o Tarot Cigano de Katja Bastos (Trybo Cósmica), considerada a “mãe” da “escola brasileira”.

E não percam a próxima crônica, pois passarei a ensinar um método de cartomancia portuguesa também muito difundido no Brasil e presente mais comumente na Quimbanda.

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • cartaicone