• Eduardo Regis

O Jogo dos Ossos


Imagem por PDPhotos por Pixabay.


A osteomancia é a divinação que se utiliza dos ossos para responder questões por meios mágicos ou, pelo menos, não definidos pelas leis naturais ou conhecidas. Adivinhar a sorte ou o futuro pelos ossos não é coisa nova. De fato, já se sabe que pelo menos desde a idade do bronze as pessoas já consultavam os ossos. Também não é uma coisa restrita a um espaço geográfico definido, uma vez que encontramos relatos dessa divinação tanto no ocidente quanto no oriente.


Mais recentemente um tipo específico de osteomancia, que ás vezes é chamado de Sangoma, tem ganhado destaque nos meios ocultistas. Essa divinação envolve ossos, partes de animais e alguns outros elementos e é uma manifestação bem popular entre os adeptos do Hoodoo Norte-Americano. Com isso, também ganhou aderência na comunidade de Voodoo dos Estados Unidos. Esse tipo de divinação é um tipo especial, cumpre dizer, de cleromancia – que envolve lançar um conjunto de coisas a analisar o padrão formado - que foca no uso de ossos.


Sobre o termo Sangoma é importante destacar que se trata de uma denominação genérica para adivinhos e para curandeiros do Sul da África. O termo é provavelmente originário da cultura Zulu e por uma associação entre os Sangomas Zulus e este tipo específico de osteomancia, o dito termo acabou sendo associado à adivinhação em si.


Antes de começarmos a dissecar o conteúdo de fato desse artigo, um aviso: cabe dizer que escrevi este artigo com base em um estilo particular de osteomancia e que não há consenso neste campo, por isso, não se espantem ao encontrarem informações dissonantes.


É fato que essa divinação tem um apelo ou talvez seja melhor dizer que tem um charme. Os “osteomantes” andam por aí com bolsas repletas de ossos, pequenos amuletos, patas de bichos e (geralmente) um pedaço de pele de animal (que serve de “tabuleiro”). A leitura é feita lançando-se isso tudo sobre a pele e os padrões que surgirão com a queda serão lidos pelo adivinhador.


É preciso entender que esta não é uma divinação com diretrizes tão bem delineadas quanto as de um tarô, por exemplo. Isso quer dizer que cada um irá ler suas jogadas de um jeito e o valor atribuído a uma determinada peça (um osso, por exemplo, ou um broche) será de decisão única e exclusivamente do adivinhador. De fato, nem mesmo os “conjuntos” do jogo serão idênticos ou iguais entre os adivinhadores, já que há ênfase na montagem do conjunto pessoal de cada adepto, o que envolve coletar ossos e objetos que tenham algum significado para o adivinhador.


A leitura, claro, é subjetiva e precisa de uma boa dose de intuição. Afinal, sem peças ou cartas com significados definidos, o operador precisará conhecer bem o seu conjunto e saber dar valor ao padrão do jogo que cair sobre a pele (ou sobre qualquer outro “tabuleiro”). Por isso, alguns membros da comunidade dos “jogadores de ossos” entendem que a leitura não pode ser feita sem o auxílio de espíritos ou de poderes psíquicos.


Aqui temos um ponto interessante e de divergência dentre os praticantes. Alguns acham que é possível treinar o jogo de ossos como qualquer outra habilidade. Outros insistem que sem um “dom” não será possível se desenvolver. Ainda, há aqueles que acreditam que a comunhão com certos espíritos (como os dos animais que doaram os ossos ou os ancestrais) é fundamental para uma leitura acurada. Esta última visão parece ser particularmente popular dentre esses adivinhadores.


Na verdade, muitos praticantes pregam que é preciso uma comunhão com o próprio conjunto de ossos em si, que ganhando uma personalidade quase individual (assim como as peças), passa a agir quase como um fetiche. Essa relação torna-se mesmo quase uma adoração, mas alguns poderiam chamar de parceria ou de comunhão, e envolve extremo cuidado com o conjunto e até mesmo o oferecimento de alimentos e de outros rituais para manutenção.


O conjunto em si, inclui ossos (claro). Entretanto, não só isso. Os praticantes costumam adicionar partes de animais (patas preservadas parecem ser bastante populares), dados (de osso, preferencialmente) e pequenos objetos como amuletos ou então pequenos ícones que representem determinadas ideias. Por exemplo, em um determinado conjunto de um praticante famoso na internet achamos pedras, conchas, pedaços de madeira, um broche, pregos e pequenos bibelôs. Assim, o conjunto é realmente muito diverso e pode ser extremamente pessoal.


Além disso, com toda essa diversidade e com todos esses materiais nem tão durável assim é de se esperar que o conjunto vá se transformando com o tempo. De fato, vários adivinhos osteomantes relatam que seus conjuntos perderam e ganharam novas peças com o tempo, atestando que, de fato, o conjunto ganhar um caráter de entidade.




Exemplo de um conjunto de “jogo de ossos”, retirado de: https://www.etsy.com/listing/621656964/bone-casting-throwing-reading-set-gift


Com isso nós temos que esse tipo de adivinhação acaba ganhando um espectro ainda mais amplo e podendo se tornar até mesmo uma prática espiritual devocional ou de comunhão independente. É curioso pensar como a associação entre métodos de divinação ou de adivinhação e a presença de espíritos ou de entidades não é algo tão incomum, mas que dentro da tradição esotérica ocidental acaba ficando um pouco esquecido (embora na Ordem Hermética da Aurora Dourada encontremos algo similar no contexto Enoquiano). De fato, como advoga Jake Stratton-Kent, os mortos são a categoria mais desprezada na tradição esotérica ocidental, o que é surpreendente, pois vemos a importância deles nas culturas passadas e em outras culturas contemporâneas. Quando vemos a popularidade do “jogo de ossos” dentre os praticantes de Hoodoo ou dentre os envolvidos com outras práticas que bebem da fonte Africana, lembramos como essa dimensão dos mortos e dos ancestrais é importante e como pode dar pano para manga aqui no nosso ocidente.


Enfim, voltando à vaca fria (ou ao osso da vaca fria), esse pequeno artigo pretende apenas apresentar esse método. Há diversos livros bacanas que aprofundam o tema, com o livro de Catherine Yronwode (THROWING THE BONES: HOW TO FORETELL THE FUTURE WITH BONES, SHELLS, AND NUTS) ou da Michele Jackson (BONES, SHELLS, AND CURIOS: A CONTEMPORARY METHOD OF CASTING THE BONES). Aos interessados, recomendo a que procurem esses e outros livros.



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