• Cussa Mitre

O Fluxo do Rio


Vendo meus escritos antigos, achei este texto que escrevi em 2015. Dado a sinceridade crua continda nele, achei que valeria a pena republicá-lo, já que o site onde ele se encontrava disponível não está mais no ar. Fiz algumas pequenas alterações, embutindo nele a experiência nova adquirida nesses cinco anos entre a primeira escrita e sua republicação. Espero que seja de valia para alguém, assim como foi para mim um ótimo exercício de reflexão sobre toda a situação em si.


Certa vez tive uma amiga, que irei chamá-la apenas de E neste texto. E possuía um relacionamento deveras complicado: seu namorado era semi-famoso (leia-se: tocava em uma banda que era conhecida no meio músical daquele estilo), e conhecido por, além de dar suas escapadas pela noite afora, ia totalmente na contra-mão do que ela desejava. Ela era carinhosa, brincalhona, alegre. Já ele era soturno e parecia que seus momentos de alegria se resumiam a tocar com sua banda (e dar as suas puladas de cerca). Ela veio então se aconselhar comigo. Na ocasião, coloquei toda a minha opinião já que ela havia me pedido. Tempos depois, ela terminou com ele.


A amizade havia crescido de tal forma que acabamos nos aproximando e ficamos juntos por um tempo. Até que um dia E veio falar comigo e me contou sobre sua ideia de voltar com ele. Me assustei de início, e coloquei a mesa o que pensava. Ela estava decidida e eu, como sempre fiz e é de minha parte, respeitei a decisão. Mas não sem antes ter a seguinte conversa:


Eu: “Você quer que eu seja agradável ou sincero? As duas coisas eu não consigo ser ao mesmo tempo…” E: “Sincero, sempre…” Eu: “Você vai voltar para ele e vai se sentir incompleta. Verá que o que você queria encontrar não está nele. Até porque eu já te falei que isso que você procura você irá encontrar apenas dentro de você. Mas você ainda insiste em procurar nele. E irá falhar. Irá ficar triste e irá se lembrar de tudo que estou te falando agora. O grande problema é que a vida é como um rio… não há como parar ele no meio do caminho. Fazer barreiras nele apenas faz com que a água dele vaze para outros lados. Ele ainda vai continuar correndo, só não será na mesma direção. Sua ação de seguir adiante nesta ideia descabida irá fazer com que eu decida seguir a minha vida. Não posso prever o futuro, nem dizer o que irá acontecer. Mas sabendo como algumas coisas são, vou te dizer que minha vida irá continuar seguindo seu fluxo, contornando as pedras pelo caminho. Um dia, você irá chegar até mim e me contar que tudo que eu estou te dizendo agora se realizou. Infelizmente, o rio da minha vida terá seguido um caminho diferente do seu, e você irá me pedir ajuda. Eu irei te ajudar até onde eu puder, como apenas um amigo. Porque neste dia eu não estarei mais disposto a mudar meu caminho por você, e você irá me olhar com um ar de tristeza. E por ser quem eu sou e por ser do jeito que sou, infelizmente serei obrigado a olhar você o fundo dos seus olhos dizer apenas um legítimo ‘Eu te avisei‘ e continuarei a viver a minha vida…”

Minhas palavras tiveram um efeito certeiro. Ela se sentiu atingida por tal conversa, principalmente a última frase. O famoso “eu te avisei” funciona quase sempre como um desafio para quem o escuta. Ela, assim como estava decidida, resolveu seguir seu caminho. Voltou para o seu namorado na esperança de uma relação duradoura.


Eu, na plenitude de mim mesmo e de não buscar nada a não ser dentro de mim, segui minha vida. E, como eu havia avisado (e muitas vezes me pergunto se eu praticamente não havia feito algum tipo de magia ao falar tais palavras), encontrei uma outra pessoa. Minha vida se seguiu durante um tempo sem que E entrasse em contato.


Passou-se pouco mais de um mês e recebo uma ligação de E que, desesperada, me contava como ela não se sentia feliz nem como ele não havia mudado, conforme havia prometido. Me contava sobre como ele continuava fazendo as mesmas coisas que deixava ela chateada e em como parecia não se importar com ela. Sobre como ele agia exatamente da mesma forma e esperava resultados diferentes. Sobre como ele queria tudo, mas não cedia nada.


Acabamos nos encontrando para conversar com mais calma. E chorava e me olhava nos olhos, contando tudo que eu já sabia. Não que houvesse algum poder paranormal agindo sobre mim, mas porque os erros e atitudes que ela me contava eram exatamente iguais aos de outrora. Ela tentava me perguntar de forma discreta o que ela deveria fazer, ou como deveria agir.


Depois de ouvir tantas coisas que foram faladas, ela finalmente perguntou o que eu achava e me pediu para que dissesse algo. Apenas três palavras saíram de minha boca: “Eu te avisei”. Talvez o golpe desferido por tais palavras foram profundos demais, ou talvez ela achasse que eu, apesar do aviso, não iria falar tal coisa. Ela me olhou assustada, com os olhos vidrados e atônitos. Seu semblante declarava facilmente que ela não esperava ouvir tais palavras… Balbuciou um “como você pode falar isso para mim?” ao que foi prontamente respondida com um sonoro: “Você pediu para que eu fosse sincero sempre…”

Muitas vezes estamos tão interessados em algo que deixamos de notar os sinais que estão espalhados pelo caminho percorrido. Focamos tanto no destino da viagem que deixamos de aproveitar a paisagem que nos é apresentada durante o percurso. Esquecemos de que olhar para o caminho que estamos utilizando é essencial para que não tropecemos nas pedras que ali se encontram.


E neste interím, temos amigos verdadeiros que falarão para nós não o que queremos ouvir, mas o que precisamos ouvir. Saber diferenciar estes amigos, que irão sempre falar o que pensam, independente de se você irá ficar chateado com eles, dos amigos é uma tarefa árdua e muitas vezes dolorosas.


Para finalizar, deixo aqui um ditado, que é inclusive muitas vezes atribuído erroneamente a Eistein…

Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes…

Todos nós vivemos nossas próprias batalhas internas. Sejam elas demonstradas ou não. Ninguém sabe o seu sentimento ou pelo que você está passando, a menos que você se abra com alguém (e mesmo assim ela pode tentar imaginar, mas nunca terá compreensão completa do seu sentimento).

Recentemente passei novamente por uma situação parecida. Porém, desta vez, eu quis e mudei o fluxo do meu rio, a duras penas. Mudar o fluxo de um rio é um trabalho hercúleo, que vem normalmente acompanhado de dores, desafios e todas as consequências de lidar com uma força da natureza. Não é algo impossível de ser feito. Depende apenas de esforço, vontade e dedicação. Os resultados estão sempre na sua mão. Lembre-se apenas de que todos os fatores externos ainda podem influenciar na mudança de direção.

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