• Paulo T. Vasconcellos

O Encontro do Homem e da Mulher Ideal


Arte por Anna Alpatieva

Existe um certo paradoxo em um homem falar sobre machismo. Não defendo ou acato a figura do “Lugar de Fala”. Todos devem possuir o direito de falar sobre o que quiserem, ainda que suas opiniões sejam vazias de lastro e de substância. O preço da liberdade é o convívio com a estupidez. É um preço caro, mas a alternativa, o discurso hegemônico, é pior.


A hegemonia é nociva em geral e em abstrato pois suprime a diversidade. De um lado, oprime o indivíduo, que se vê pressionado a diluir ou intensificar falsamente suas vontades. “Não queira o que você quer, deseje o que você não deseja”. De outro lado, pasteuriza o tecido social, transformando o caleidoscópio humano em um tedioso plano de metas, objetivos e avaliações de desempenho.


Com efeitos tão sensíveis, é fácil demonizar a hegemonização. Daí para uma grande teoria da conspiração, com iluminattis, reptilianos, drogas de controle mental na água da torneira e grandes corporações massacrando o indivíduo com o objetivo de impor a ordem social é um passinho.


O que se ignora, entretanto, é que a hegemonização é eficiente. Do ganho de escala na produção em massa até o conforto de possuir uma métrica objetiva de sucesso. A grande vantagem de um ideal de felicidade é que ele responde as dúvidas mais primitivas da alma humana: “Quem sou, onde estou e para onde vou?”


A criação de um ideal humano (real ou fantasioso, nocivo ou benéfico) oferece um norte. O problema é que talvez a direção correta seja um sudoeste. O ideal humano é praticamente um leito de Procusto, que estica ou serra suas vítimas para caberem no tamanho “correto” de sua cama. Com o agravante de que, nesse caso, as vítimas anseiam por se adequar ao leito.


No mesmo sentido, a criação de um ideal masculino ou feminino oferece uma métrica de sucesso, porém, talvez esses parâmetros sejam ilusório. Poucas coisas são tão nocivas quanto “o jeito certo”: “O jeito certo de ser homem”, “o jeito certo de ser mulher”, “o jeito certo de estudar”, “o jeito certo de trabalhar”, “o jeito certo de amar”, etc.


Essa hegemonia, notória no machismo, mas presente em quase todos os “ismos” (do “cristianismo” até o “humanismo”), causa prejuízos, ao afirmar que “o jeito certo de ser mulher é X”, mas também agride ao afirmar que “o jeito certo de ser homem é Y”.


É extremamente recomendável se avaliar com rigorosa criticidade os ideais de “masculinidade” e “feminilidade”. Com destaque crítico especial aos seminários sobre o pretenso “sagrado” masculino, simplificação estereotipada e idealizada do “jeito certo de ser homem” tipificado em um estereótipo espiritual, mental, emocional e físico pré-definido. Trocaram o catecismo e a “Vida dos Santos” por seminários (regiamente pagos) e nem percebemos.


Se a Vida fosse um jogo, o primeiro objetivo seria descobrir os objetivos. Tomar para si o objetivo alheio ou disponível é um problema porque é possível e provável que você realize o sonho alheio ou disponível sob o custo de tempo e energia que poderia ser empreendido na própria vida, o que é algo tão bom quanto aprender a cozinhar um prato que você não gosta (ou pode até ser alérgico).


O ideal humano deveria ser descobrir a própria humanidade. Da mesma forma, o ideal masculino deveria ser descobrir a própria masculinidade. Paradoxalmente, ideais, nesse quadro, apenas prejudicam, pois ofuscam as nuances de descobertas possíveis. O ideal seria não ter ideais, um paradoxo quase tão grande quanto um homem falando sobre machismo.

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