• Paulo T. Vasconcellos

O Castelo na Lua



Dizem que na Lua existe um castelo.


Chegar nele é fácil. Saia da planície de Manilus, ande pela estrada que separa o Mar da Tranquilidade e o Mar da Serenidade, vire à esquerda e siga até o Lacus Somniorum, o lago dos sonhos.


No lago dos sonhos peça para os cisnes brancos ou negros te levarem até o Castelo do Lago dos Sonhos. Mas cuidado: um deles fala a verdade, outro mente. E não adianta tentar usar a solução clássica desse problema porque, às vezes, o que fala a verdade mente e o que mente fala a verdade. E se você disser que isso é injusto, eles rirão da sua cara e dirão que a Lua não é lugar de justiça, e eles não tem nenhum compromisso nem com a verdade e nem como a certeza.


Mas supondo que você saiba distinguir a verdade da mentira e escolher a indicação correta, você caminhará até o Castelo do Lago dos Sonhos. Melhor, você correrá até o castelo, mas não será o único. Por uma ilusão de ótica, você vai achar que ele está muito mais perto do que de fato está, e, ansioso, correrá. Ironicamente, no entanto, correndo ou andando, você chegará no momento correto. Alguns psicólogos dirão que isso é um efeito da percepção do tempo em um momento de ansiedade. Os cientistas dirão que é um efeito da difração da luz. Alguns poetas dirão que o castelo te esperaria mais tempo. Mas,novamente,  assim como nos cisnes, é melhor você saber distinguir a verdade da mentira.


Na porta do Castelo há um Grifo e um Dragão. É muito importante que você não ouça o que eles dizem. Via de regra eles falam sobre o tempo, mas com frequência começam a discutir sobre notícias, política, futebol e escândalos. Muito provavelmente eles brigarão sem parar e você não receberá informação alguma deles. Talvez eles te mostrem uma selfie em Cancún, uma foto amamentando um Leão, beijando um golfinho ou outra coisa fútil. Apenas ignore.


Você então parará perante a porta e poderia jurar que ela é feita de alabastro. Mas isso seria falso. Você não conhece alabastro. Provavelmente ninguém que você conhece conhece alabastro e provavelmente você precisaria de mais do que seis conhecidos-de-conhecidos para encontrar alguém que conhece alabastro. É uma palavra perdida nos livros, fadada a ser esquecida, como tantas outras.


Então você pensará em bater à porta. E se questionará porquê. Há a necessidade de adentrar assim? Por que não beijá-la? Acariciá-la? Talvez conversar com ela, perguntar se ela conhece alguém que conhece alabastro ou outra coisa para quebrar o gelo. Com o tempo ela se abrirá e você entrará. Talvez você se sinta constrangido de deixá-la para trás, afinal, não se cruza duas vezes o portão do Castelo da Lua, mas não se sinta. Ela não guarda rancores.


Você deixará os cisnes para trás, os que falam verdades e mentiras, os guardiões do castelo, que falam futilidades, e a porta, que nada disse, e talvez seja de quem você sinta mais saudades, e então você entrará no salão de festas, e se sentirá triste por não ter festa alguma. Talvez você pergunte onde estão as pessoas, mas suas perguntas não terão resposta. Aqui é a Lua, não um lugar de respostas.


Sem respostas para suas perguntas, você continuará em frente, rezando para que algo aconteça e desejando para que o que acontecer seja bom. Tudo isso é irrelevante. Aqui não é lugar de orações nem de desejos. Você encontrará uma sala com dois tronos. Nele não estão sentados nem um Rei e nem uma Rainha. Há muito esse castelo não tem nem Rei e nem Rainha. Dizem que se o Eclipse do Sol cair num domingo você pode encontrar os legítimos Regentes. Mas faz tanto tempo que isso não acontece que ninguém se lembra mais e, se acontecer, talvez os confundam com mais um funcionário ou outro turista, o que seria verdade, fosse a Lua um lugar de verdades.


Esse é o Salão dos Segredos e Mistérios. Em um dos tronos senta um dos guardiões. No outro, o outro. Você perguntará qual é qual. Um não responderá, outro lhe perguntará qual a diferença. De qualquer forma, ambos responderam. Talvez você peça um mistério. Talvez você peça um segredo. E você receberá. Mas não saberá se é um mistério ou um segredo. Temendo se trate de um segredo, não perguntará a ninguém o mistério. Acreditando ser um mistério, perderá um segredo. Guarde silêncio. O tempo das palavras ficou na porta. E por isso você sentirá saudades da porta.


Carregando seu segredo nas mãos, você encontrará vários espelhos. E eles rirão de você. Isso é injusto, mas aqui não é local de justiça. É local de espelhos. Não se apegue a eles. Espelhos mostram você e o que fica atrás de você. Uma dessas coisas vai mudar, a outra não. E é muito perigoso trocar uma pela outra.


Tão logo você pare de se importar com os espelho (você não deveria nem ter começado), você será conduzido ao quarto de hóspedes, mas não poderá dormir nele. Quando você perguntar por quê, não receberá resposta. Talvez você se pergunte se isso é mais um mistério ou mais um segredo. Mas, novamente, você ficará sem respostas. Não se questione se a falta de respostas é um novo mistério ou segredo. O tempo é curto e o paradoxo de Zenão há muito foi resolvido.


Se você não tiver mais dúvidas, você sairá do quarto. Se você ainda tiver dúvidas, andar lhe ajudará a pensar e você sairá do quarto onde não pode dormir. A primeira porta que você encontrar lhe levará à saída. As demais também, mas você parará de procurar na primeira. Você sairá pelo lado escuro do castelo, no lado escuro da lua. De lá você não tirará nem mistérios e nem segredos, mas talvez relembre toda a viagem inúmeras vezes, sem sequer se atentar para o mais importante.

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