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  • Eduardo Regis

O Buscador Eterno

A figura daquela pessoa que perambula por espiritualidades tentando encontrar algo com o qual se identifique é bem conhecida por quem tem vivência no campo. Com frequência essas pessoas acabam sendo vistas como indecisas, como inconstantes e até mesmo como incapazes. Entretanto, gostaria de tentar convencer o leitor de que não há nada mais natural nos dias de hoje do que bater em várias portas antes de achar uma da qual se goste. Ainda assim, insistirei que devemos fazer isso de maneira atenta.

Foi-se o tempo em que os ocidentais precisavam seguir a espiritualidade dos seus pais, da sua vila ou da sua cidade. Não que ainda não aconteça. Acontece. Porém, em geral, as pessoas são livres para escolherem suas denominações religiosas e espirituais. Não sem transtornos, em alguns casos, mas é possível. A liberdade não é sem preço, porém. Tomar as próprias decisões exige maturidade e alguma dose de tentativa e erro. Por isso, não é surpresa que algumas pessoas estejam no mundo quebrando a cabeça enquanto não se encontram.

Poder escolher exige que uma decisão seja tomada. Então logo surge um problema. Há uma vasta gama de opções. A informação desloca-se rápido e alguém que tenha alguma proficiência em Inglês pode, por exemplo, conseguir dados sobre diversas coisas sem muita dificuldade. Assim, uma pessoa do interior do Rio de Janeiro pode facilmente ter contato com uma expressão religiosa tipicamente Grega. Algo que seria impensável há pouco atrás ou, pelo menos, muito difícil. Portanto, a enorme quantidade de informação e de variedade pode tornar atrativo experimentar diversas expressões religiosas distintas. Acredito que seja natural que uma criatura que precisa lidar constantemente com sua finitude queira aproveitar ao máximo tudo disponível que lhe interessa.


A questão é que nessa “dança das cadeiras”, não há muito espaço para aprofundamento. Aí mora o perigo. Nada de errado em ser um buscador, o problema talvez seja ou nunca achar nada ou não “ligar” para nada. Voltaremos a esse ponto mais tarde.


Primeiro, acredito, os interesses e afinidades da pessoa guiarão para onde ela irá. Talvez ela tenha visto um filme sobre os Monges Budistas e tenha achado a vida monástica fascinante. Nesse caso, ela pode procurar um centro Budista e frequentar durante meses ou poucos anos até perceber que não está satisfeita. As razões para isso podem ser muitas. Por exemplo, algumas coisas simplesmente são muito legais no papel, mas na hora da prática, a pessoa descobre uma sensível falta de talento. Eu conheço pessoas que tentaram meditar diversas vezes e falharam miseravelmente. Elas realmente insistiram nisso, pois estavam convencidas de que lhes seria benéfico, mas simplesmente ou não conseguiam ou se sentiam mal quando faziam. Talvez elas tenham tido instrutores ruins, mas é possível que simplesmente a meditação fosse algo realmente chato para elas. Nesse caso, adiantaria insistir? Ou se imaginarmos que a pessoa achasse a experiência da Missa Católica excruciante, de que valeria insistir no Catolicismo?

Pode ocorrer também da pessoa procurar indicações de amigos. É uma característica marcante das pessoas sempre ter opiniões sobre tudo. Também é bem comum que elas achem incrível tudo que fazem e que se esqueçam de que nem sempre o outro precisa concordar. Também já testemunhei diversas vezes pessoas sendo convidadas a participar de algum grupo espiritual apenas para sair rapidamente depois. Não “bateu”, como se diz coloquialmente. Estes casos, geralmente não implicam em uma relação mais demorada e, por isso, são majoritariamente compreendidos como inócuos.

Há também a situação na qual a pessoa tem um primeiro contato, acha legal, mas a prática continuada e o estudo mais profundo vão revelando certos aspectos que não agradam. Acontece também da pessoa sofrer uma mudança e seus interesses se alterarem ou radicalmente ou sutilmente. Em alguns casos isso pode significar uma ruptura completa com a prática espiritual corrente. Conheço o caso de um senhor que era muito dedicado ao Candomblé (cabeça feita e tudo) e que, repentinamente, após longos anos, decidiu converter-se Kardecista.

Já que temos diversas possibilidades e podemos passear entre elas, vamos celebrar essa liberdade. É extremamente positivo que alguém possa perambular até finalmente encontrar uma prática que realmente lhe toque. Isso é muito melhor do que simplesmente dedicar-se cegamente a algo apenas por um senso de obrigação muito rígido.


Ninguém nasce sabendo, já diz a sabedoria popular. Logo, não há como decidir realmente por um caminho sem começar a trilhá-lo. É preferível começar e mudar de rota a nunca começar, paralisado pela dúvida. De uma maneira clara seria possível colocar assim: como saber sem experimentar? É verdadeiramente impossível. Procurar lugares novos para frequentar e vivenciar novas formas de espiritualidade é um processo legítimo e necessário àquele que procura. Entretanto, não deve ser feito de maneira irresponsável.

A maioria das práticas espirituais faz uma distinção entre pessoas que “apenas” frequentam e pessoas que são estruturantes. Não há nada de errado em alguém estruturante, como um Pai-de-Santo, por exemplo, resolver se dedicar a uma nova expressão religiosa. Não me entendam mal. Problemático é aquele que já foi Pai-de-Santo, Pastor, Padre, Dirigente de Centro Espírita e Grau 33, tudo isso em menos de cinco anos. Existem sim, colecionadores. Pessoas que só que se envolvem em espiritualidade para ganhar mais certificados. Ou ainda, que de maneira leviana, resolvem fazer juramentos e tomar responsabilidades que não pretendem cumprir. Mudar de perspectiva é muito diferente de ser desinteressado e desleal.


Acredito que ocorra uma mistura das figuras do “colecionador” e do “buscador” no julgamento popular e as razões para isso parecem claras. De fato, em uma investigação superficial eles podem se parecer, mas não é tão difícil distingui-las se aplicarmos algum rigor à nossa observação. Estas figuras são diferentes em um ponto fundamental: uma é honesta, a outra não.


O processo de descobrimento e de conhecimento de si é complexo e demorado. Na verdade, ele é incessante. Não há vergonha alguma em mudar de opinião ou mudar de ponto de vista. Muito menos em conhecer as coisas para podermos julgá-las pelas nossas próprias opiniões.


Aos buscadores, aconselho que nunca parem de aprender e de experimentar e de viver tudo aquilo que lhes interessa. Não deixem que as opiniões alheias os impeçam. Quando tiverem encontrado algo que lhes seja particularmente apaixonante, não cessem de continuar aprendendo e procurando coisas novas. O mundo e suas expressões são diversos e enormes. Há espaço para mais de uma tradição dentro das pessoas. Não há contradição em trabalhar seu íntimo e sua relação com o Universo da maneira que melhor lhe for conveniente. Na verdade, não há outra maneira de fazer isso.


Entretanto, cada passo deve ser dado com o devido respeito aos que nos cercam e às expressões que encontramos em nosso caminho. Isto não é difícil de ser compreendido, mas não é tão simples de ser posto em prática. A ansiedade e a necessidade de aceitação própria e por terceiros podem se revelar poderosas em nos fazer tomar decisões infundadas. Delira aquele que pensa que todos seus passos serão firmes, com propósito e certeiros. Porém, se nos dedicarmos minimamente a cultivar o respeito ao interno e ao externo, seremos leais nessa jornada e mesmo nossos erros serão legítimos.


Bibliografia recomendada acerca do tema:

- O peregrino e o convertido: a religião em movimento. Danièle Hervieu-Léger. Editora Vozes. 2008.

- Uma era secular. Charles Taylor. Editora UNISINOS. 2010

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