• Paulo T. Vasconcellos

Notícias de Uma Árvore que Cresceu de Surpresa.


São Paulo, 06 de junho de 2019.


Caro Irmão de Armas, bom dia.


Como de costume, escrevo sem saber quando esta carta encontrará suas retinas. Desejo que ela chegue em suas mãos, não apenas porque todo texto anseia por ser acolhido entre as pálpebras do leitor, mas também e especialmente por desejar que esta carta lhe alcance como a manhã encontra a noite, trazendo notícias de um novo dia, talvez doce, talvez amargo, mas, com certeza, não madrugada.


Sei que permaneço ausente do hedonismo e de nossas conversas. Se é relevante (e sei que não é) venho me ausentando de tudo que é leve, nossas conversas incluídas. Sei que isso pode parecer amargo e pesado, e peço-lhe desculpas se lhe causei alguma espécie de preocupação, mas não é amargo ou pesado.


Escrevo até mesmo para garantir-lhe o contrário.


Lembro-me como se fosse ontem da escura madrugada que parecia não ter fim. O nascer do sol parecia ficção ou um conto de fadas. A falta de um Leste implicava na ausência de um Norte, um Sul e um Oeste. O peso das armas, das lutas e da marcha se acumulava nos ossos. Comíamos o pão entre as batalhas. Descansávamos entre assassinos. E o que isso dizia a respeito de nós?


Sei que talvez essa carta lhe encontre em alta madrugada. Sei que talvez a guerra ainda não tenha acabado, e que o peso ainda se acumule. Mas gostaria de mandar notícias vindas de após a absorção da estrela da manhã pelo azul do céu: o dia amanheceu.


Escrevo não sem receio de julgamento. Decerto quem olhar não achará qualquer motivo para tal orgulhosa afirmação. Ainda carrego armas e armadura. O peso das batalhas ainda se acumula. Para os olhos atentos meia dúzia de novas cicatrizes se juntam às dezenas de antigos ferimentos.


Porém, nada disso guarda íntima relação com o tempo de alegria que do terror nasceu.

Subitamente, me vi em situação inédita. Em paz.


Sei que tropeço e gaguejo na tentativa de expor o que sinto. Sabemos que a experiência transcendente, quando colocada em palavras, torna-se, quando muito, uma sucessão de clichês.


E sabemos que, após tantos anos falando da Guerra, é enorme a dificuldade de falar em paz.


Mas é essa a sensação.


Paz.


Isso não significa que eu tenha alcançado a terra prometida, com rios de leite e mel e a plena desnecessidade de esforço que há tanto permeia o ideal humano.


Não.


Ainda sou o responsável pela pão de minha mesa e pelo vinho de minha taça. Ainda há espaço para melhores vinhos, para partir o pão em outras mesas e inúmeros sabores que ainda não provei.


Mas inexiste preocupação.


Não saberia dizer quando isso aconteceu. É como se, um dia, ao acordar, eu percebesse uma árvore de vida dando frutos em meu quintal. Obviamente ela não nasceu de um dia para o outro, mas com certeza foi percebida de um dia para o outro. E de um dia para o outro um novelo de medo e dor se desfez. Subitamente, minhas maiores preocupações se tornaram as pessoas que amo.


Percebe o quanto isso é libertador? Hoje, meus maiores medos e anseios são que as pessoas que eu amo sejam felizes. E isso não advém de um mal colocado martírio ou resignação. Existem preocupações, existem problemas, existem dramas e combates. Mas eles se encontram na ponta adequada de minha lança e são, por isso… manejáveis. Estão em xeque. São desimportantes.


A lista de prioridades, hoje, começa com a felicidade daqueles que amo, pois a minha felicidade aconteceu.


Amanheceu.


Tão certo como o amanhecer, uma nova noite cairá. Novos terrores, medos e incertezas surgirão. Mas, pela primeira vez desde que meus pulmões se encheram de ar, sinto-me tranquilo. Até mesmo ansioso. Pois são novos problemas.


Não ouso, ainda, dizer que combato o bom combate. Mas digo, certamente, que combato hoje um combate melhor do que ontem.


E que espécie de homem eu seria se não brindasse o sucesso em encontrar melhores adversidades?


Despeço-me, ansioso, pelas próximas missivas. Registro minha saudades e reforço meu desejo para que possamos, novamente e em breve, celebrar a vida.


Abraços e saudades,

Paulo T. Vasconcellos.

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