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  • Paulo T. Vasconcellos

Notícias de um ano que deixou um gosto suave na boca.

São Paulo, 19 de dezembro de 2019.





Amado Irmão de Armas, boa noite.


Como de costume, não tenho como prever quando esta carta chegará às suas mãos. E, ainda que ela esteja sendo escrita em formato que dificilmente pode ser considerado postal, tenha em mente que, com certa frequência, quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas.


Se décadas atrás uma folha de árvores mortas carregaria minhas palavras desenhadas com tinta para você, hoje a incerteza decorre das previsões de postagem e de se você achará, a tempo, este texto.


Com certeza haveria formas mais delicadas e dedicadas de dar-lhe notícias. Uma conversa pessoal, quem sabe.


Porém, este texto, enquanto semente, pode ser carregado pelo vento ou pela chuva e plantar raízes em jardim inesperado. Como tantas vezes debatemos, nunca sabemos os efeitos do bater das asas de uma borboleta, de um texto ou de um ato de gentileza ou crueldade impensados.


Chegamos a 2020.


Oficialmente, em novembro de 2019, Roy Batty descobriu que era um andróide, pediu mais vida ao seu criador, salvou Deckard, lamentou os momentos que se perderiam com sua morte como lágrimas na chuva e morreu.


O presente, definitivamente, não se aproxima nem um pouco daquilo que Blade Runner prometeu, a despeito de tantas vezes a busca pelo algoritmo da alma humana nos fazer duvidar se passaríamos pelo teste de Voight-Kampff.


Porém, escrevo essa missiva não para falar do futuro, mas para lhe apresentar minha retrospectiva do ano recém passado, hábito há tantos anos negligenciado.


Talvez eu devesse falar das lágrimas e risos? Das conquistas e fracassos? Do aprendizado, da ignorância, das coisas do céu, da terra, da luz e das sombras?


Talvez, mas me perdoe se não o faço. Com o passar dos dias, dos meses, dos anos e das décadas essas coisas são... coisas.


Nossas grandes conquistas foram soterradas sob as areias do tempo, assim como nossas grandes derrotas. "Me chamo Ozimandias, e sou Rei dos Reis: Contemplem minhas obras e se desesperem, Poderosos!", talvez tenhamos bradado um dia. Mas isso hoje não importa.


Sei que talvez isso soe triste e melancólico, sei que tenho o péssimo hábito de soar triste e melancólico, mas lhe asseguro, não estou nem triste e nem melancólico. Ao contrário.


Talvez, se eu tivesse que olhar para o ano que passou e resumi-lo em uma grande frase eu diria:


"As coisas não voltarão a ser como eram antes."


Simples? Com certeza. Presunçoso? Igualmente.


Mas tenho como lhe provar a importância dessa súbita realização? Ou melhor, tenho como lhe fazer provar essa panaceia contra os males da nostalgia e saudosismo? As coisas não voltarão a ser como eram antes. Serão novas.


O bom e o mau passado se foram e com eles o bem e o mal pretérito. Não voltarão. Pretender reinstalá-los é tão sensato quanto pretender o retorno de um velho e alquebrado monarca ao trono. O Rei está morto, viva o Rei!


Diante do cadáver da vida pretérita nos resta apenas trabalhar para que o futuro seja melhor.


Com certeza vimos coisas que as pessoas não acreditariam. Essas histórias talvez se percam, como grandes estátuas perdidas no deserto ou ídolos esquecidos.


Porém, se a Morte triunfa porque tem paciência e sabe esperar, a Vida é teimosa como ela só. Insiste e continua, como uma gravidez inesperada, como grama que racha a calçada e busca a luz, como fungos que invadem sua casa e deixam um beijo de penicilina no pão de forma esquecido no fundo da geladeira.


A Vida, ainda que amarga, teima em mudar. Pois a Vida é mudança, como já diria o velho chinês que tanto gostávamos de citar.


Despeço-me dessa missiva ansioso por revê-lo e com uma notícia: meus antigos alunos, lendo velhos textos de nosso antigo blog, resolveram fazer um almoço de natal nos nossos velhos termos, até com o mesmo nome.


Sempre a Primavera, nunca as mesmas flores, meu amigo. Sempre o Inverno, nunca as mesmas mortes, meu irmão.


Abraços de guerra,

Paulo T. Vasconcellos.