• Eduardo Regis

Nas raízes da Jurema: Catimbó e o xamanismo Brasileiro


Imagem retirada de: https://www.paraibacriativa.com.br/artista/jurema-sagrada/. Acesso em 20/04/2020.


Já imaginou tomar uma beberagem e entrar em uma jornada tão fantástica que poderia te levar até mesmo a conhecer novas cidades, mestres e espíritos capazes de ensinar coisas maravilhosas? Pode parecer um enredo de ficção, mas isso acontece frequentemente aqui no nosso Brasil. Para conseguir isso, não é preciso imaginar, basta se dedicar e trabalhar no culto conhecido como Catimbó ou Jurema ou ainda Jurema Sagrada.


O Brasil é enorme. Sei que isso é batido, mas nunca deixará de ser extremamente necessário repetir. Os processos de formação cultural não foram homogêneos e por conta dessa diversidade fantástica temos diversas expressões únicas. O Catimbó é um dos filhos dessa mistura cultural que foi forjada em um caldeirão repleto de etnias distintas e de religiosidades diferentes.


Pego carona no trabalho de Sandro Guimarães de Salles para tentar apresentar uma noção mais precisa do que seria o Catimbó. O autor nos lembra de que o termo acabou sendo associado à magia negra, mas que também quer dizer uma expressão espiritual. Salles ensina que o Catimbó é um culto que está principalmente localizado na Paraíba, em Pernambuco e no Rio grande do Norte e que apresenta elementos indígenas, cristãos e também do misticismo e ocultismo Europeu. Vale também dizer que mais contemporaneamente, elementos Africanos ou de religiões Afro-Brasileiras também vem sendo inseridos - como nos ensina Mário Filho em uma apresentação interessantíssima na plataforma Youtube.


É basicamente um culto de interação direta com o invisível. Poder-se-ia dizer que abarca também o culto aos espíritos do Catimbó - mestre e caboclos e, claro, a todo o grande universo mítico que os contém. De maneira mais objetiva, Jeane Odete Freire dos Santos Cavalcanti, resume assim: “Nas considerações acerca do que realmente é o catimbó fica claro que o é na verdade o culto a jurema, com todo seu sistema de organização”. Assim, a autora coloca claramente a jurema como elemento central.


No Catimbó há a possessão dos catimbozeiros por caboclos e mestres (tradicionalmente; agora é possível achar catimbozeiros que são possuídos por exus, por exemplo). Estes mestres e caboclos (assim como suas canções e certos elementos litúrgicos) formam um grupo relativamente coeso, diz Salles, levando-se em conta a extensão territorial na qual o culto se encontra e a falta de uma autoridade reguladora. Ainda, Salles comenta sobre o “Reino da Jurema”, um local fantástico que só pode ser acessado por meio das ferramentas do culto.


O Reino, como Salles e Mário Filho comentam, seria um conjunto de sete cidades, cada uma com uma “ciência”. Além disso, estas cidades seriam as habitações dos mestres. A ciência no sentido do Catimbó é o conhecimento oculto, a tecnologia mística que pode abarcar, por exemplo, conhecimento de ervas ou esconjuros. O nome dessas sete cidades apresenta alguma variação. Além disso, o Reino da Jurema em si estaria localizado dentro de um universo maior, com outros reinos ou regiões. O que expande as possibilidades de alcance do culto, embora o foco claro seja no Reino da Jurema.


Sobre a noção de ciência propriamente, cabe citar novamente Cavalcanti que reproduz a fala do Mestre Juremeiro Zé da Ciência: “a jurema é uma ciência sagrada e que requer disciplina. Para alcançar o que se pretende só precisa de fé e de um ponto (vela)”. Assim, é claro que a ciência da Jurema não se baseia no desenvolvimento de conhecimento por meio de parâmetros definidos. A ciência da Jurema é uma coisa mais sutil e que se assemelha profundamente aos ritos mais elementares de religiões Afro-Brasileiras e até mesmo aos preceitos de ocultismo ocidental.


Voltando ao Reino da Jurema, cumpre notar que o catimbozeiro tem acesso ao Reino e as estas cidades por meio do uso da bebida conhecida como Jurema e que é feita de partes desta planta, mas que também aceita em sua formulação outros ingredientes. De fato, Mário Filho nos ensina que cada mestre pode ter receitas próprias de bebidas, fumos e de outros elementos do culto. Assim, por meio de sua “ciência própria”, cada mestre pode variar os elementos do culto, adicionando características que demarcam uma profunda singularidade mesmo sem se afastar do conjunto reconhecível como Catimbó.


Beber um enteógeno e ter acesso a vários reinos distintos é, de fato, transitar entre mundos. O andarilho entre mundos por excelência é o xamã. Assim, quando o catimbozeiro ultrapassa essas fronteiras para conhecer as cidades em uma jornada a locais além ou em um catábase (já que os mestres e caboclos são, em última análise, espíritos de falecidos) está fazendo algo análogo ao xamã. Assim, não seria equivocado classificar o Catimbó como xamânico.


Os leitores já devem ter percebido a semelhança entre a Jurema e a bebida conhecida como Ayhuasca. Cumpre deixar claro que não são sinônimos. Entretanto, compartilham um princípio fundamental em comum, já que ambas apresentam como princípio o DMT, uma molécula alucinógena que favorece a transição entre os estados de consciência.


Almeida e Rocha comentam que o folclore catimbozeiro conta que a Jurema ganhou seus poderes por conta da Virgem Maria ter escondido Jesus à sombra desta planta enquanto fugiam para o Egito. Próxima de Jesus, a planta teria absorvido qualidades sagradas e mágicas deste. As autoras destacam uma canção do Catimbó retirada do livro “Reino dos Mestres: a tradição da Jurema na Umbanda Nordestina” de Luiz Assunção (2010) que narra esta história:


“A jurema é pau santo

Onde Jesus descanso

Sô mestre em toda linha,

Sô mestre curado.

Quando Deus andô no mundo

Na jurema descanso

O segredo as jurema

Quem me deu foi o Sinhô.

Os galinho da jurema

Sua sombrinha formô.

Que cobriu a Jesus Cristo

Que era nosso Sinhô’.


Salles comenta ainda que o Catimbó é muito preocupado em promover a cura da “mente e do corpo”. Assim, as chamadas “mesas de cura” seriam talvez um ponto central. Grande parte das cerimônias se desenvolveria, portanto ao redor da promoção da saúde. Claro que é preciso considerar que aflições espirituais estão dentro dessa grande preocupação. Assim, o próprio desenvolvimento espiritual dos praticantes parece estar inserido neste contexto.


Já que falamos de como a ciência Juremeira pode se relacionar ao ocultismo, vale destacar que Salles chama a atenção para o fato de que diversos elementos do Catimbó fazerem referência à magia europeia. Há referências ao Rei Salomão, ao Rio Jordão, ao Selo de Salomão e a elementos outros como a “cabra preta”. Assim como na Umbanda e na Quimbanda tivemos a influência dos grimórios e de certas noções de magia Europeia como foça estruturante, aparentemente ocorreu o mesmo no Catimbó.


Espero que este brevíssimo artigo atinja o objetivo de despertar o interesse por esta tradição Brasileira interessantíssima. Apesar de toda a complexidade e beleza do Catimbó, este ainda é pouco discutido fora da sua região de ocorrência. Aqui, no “Espelho”, interessados como somos por todas as manifestações espirituais e esotéricas, não poderíamos deixar o Catimbó de fora do debate.


Referências.


FILHO, M. Jurema sagrada (Catimbó): a fina ciência do Nordeste. Apresentação em vídeo. https://www.youtube.com/watch?v=sNX5uGAzva0

De SALLES, S. G. O Catimbó Nordestino: As Mesas de Cura Ontem e Hoje. Revista de Teologia e Ciências da Religião da Unicap. Ano IX, n. 2. Pp. 85-106. 2010.

CAVALCANTI, J. O. F. dos S. Fé e magia para cura do corpo e do espírito no Catimbó Jurema. V CONEDU. Olinda, PE. 2018.

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