• Eduardo Regis

Não sou uma andorinha


Nem sempre a gente tá com vontade de fazer o que gosta. É um fato da vida que até o que é bom enjoa. Algumas vezes, entretanto, nem se trata de enjoo. É só mesmo uma fase. Daquelas nas quais o que a gente quer mesmo é sentar todo dia num restaurante e pedir um prato que se sabe ser bom e farto. Quando é mais gostoso só ficar andando pelas ruas e olhando os anônimos na marcha incessante de quem tem alguma coisa para fazer.


Hoje eu acordei assim. Desgostoso de tudo que aprecio. Olhei pela janela e vi as gaivotas planando, como todos os dias fazem. Será que as gaivotas se cansam de planar? Foi daí que veio minha epifania. A natureza da gaivota é planar e apanhar peixes. Não se pode sentir o dessabor da própria natureza. A natureza minha qual é? Eu não tenho a resposta.


Minha natureza não é o que me agrada. O que me agrada é, no máximo, consequência dela. O que eu sou é só meu. Já do que gosto (ler, escrever, cinema etc), tantos outros são ainda mais apaixonados do que eu. Minha natureza não pode ser planar, pois tenho braços desajeitados e ossos pesados. Pescar, nunca soube. Nem com rede e vara.


Talvez o meu íntimo seja uma enorme malha de desgostos. Minha essência pode bem ser estar sempre aborrecido. Assim, sempre procuro coisas novas e nunca paro nas mesmas. Sou sempre descobridor e nunca mestre de nada. Alguém tem que fazer esse passeio superficial pela vida. Afinal, o que seria do mundo se todos fossemos catedráticos em qualquer coisa?


Descobrir a minha natureza talvez seja, afinal, o que eu devesse estar fazendo o tempo todo. Já dizia o oráculo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo”. É um conselho profético, do tipo que não se pode desprezar como mera bobagem. Valia então, vale agora. E eu devia segui-lo ao invés de ficar sentado em frente ao meu computador, desanimado, procurando palavras para enfeitar a tela. Essas palavras jamais expressarão o que sinto. Um conceito jamais representará o que sou.


É a alma do homem a que talvez seja a mais sofrida de toda a criação. Os anjos, ouvi dizer, sabem bem o que devem fazer. Os demônios, aparentemente, estão sem nenhum conflito de identidade. O tigre sacia sua fome matando. O elefante se afunda na lama sem pudor.


Eu, por outro lado, tenho vergonha de tudo. Tenho vergonha de sair com o cabelo despenteado. Tenho vergonha de que leiam meus textos. Sinto desespero ao pensar que julgarão o que faço. Acho que quando eu encontrar minha verdadeira natureza, eu poderei exibi-la com orgulho. Pois o que se é e o que se precisa fazer não se submetem ao escrutínio de terceiros.


Agora mesmo uma gaivota mergulha. Imagino que esteja caçando peixes de escamas prateadas para se banquetear. Vai chegando a hora do almoço, é verdade. Pode ser que ao longo da vida, em geral, não saiba bem qual é meu papel e meu caminho. Entretanto, nunca na hora do almoço. Nessa hora, sei bem quem sou. Sou um homem faminto. É a manifestação mais grosseira do meu ser. Preciso manter-me vivo, acho.


Se eu fosse uma andorinha, meus problemas estariam resolvidos. Porém, o que eu entendo de andorinhas? Vai ver elas me olham e pensam que tenho a vida ganha e que meu espírito está em paz, enquanto se ressentem de ter que mergulhar todos os dias em busca de sustento.


Não sei de andorinhas e nem de mim. Não sei de nada, mas sigo almoçando para manter-me vivo assim mesmo. Só por garantia.

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