• Eduardo Regis

Meus Duendes e minhas Fadas


Imagem de Rondell Melling por Pixabay.


David Hume (1711-1776) em seu livro “A História Natural da Religião” coloca que os “Deuses de todos os politeístas não valem mais do que os duendes e as fadas de nossos ancestrais, e merecem bem pouca devoção ou adoração”. Ao longo deste livro ele argumenta claramente que o politeísmo só pode ser uma etapa em direção ao monoteísmo, hierarquizando, portanto, esses “estágios”. Porém, que fique claro que ele não poupou críticas ao monoteísmo também. No fundo, embora não possamos nos aprofundar no pensamento de Hume aqui, cabe dizer que ele era um crítico das visões religiosas de sua época.


Interessa-me particularmente essa ideia de que os Deuses dos politeístas (ou seja, um espalhamento das potências criadoras ou das potências essenciais das coisas) sejam meros intermediários (aqui interpretarei intermediário como: mediador e “meio-termo”). Ainda, assumo que peguei uma frase de Hume e a tiro de um contexto maior para discutir também afinal se devemos desprezar tanto intermediários como: duendes, fadas e espíritos.


Como vocês já estão cientes, muitas religiões entendem que ou o Deus criador é tão abstrato que o ser humano não pode alcançar uma compreensão razoável dele ou que o Deus criador simplesmente desenhou uma série de leis e deixou o mundo girando, delegando a espíritos intermediários o papel de regular toda a criação. De toda a sorte, temos a noção de que um Deus absoluto, por mais que seja imanente, faz-se distante. Ou que, pelo menos, personalizar esse Deus é tarefa árdua. O Deus todo poderoso então fica desprovido de humanidade.


Do outro lado do espectro (para sermos bem simples), temos os Deuses “politeístas” e espíritos mais personalizados que são mais reconhecíveis. É mais simples lidar com uma entidade cuja forma (mesmo que meramente simbólica) é conhecida e passível de representação. Entidades com um campo de ação mais limitado e com mitos que as conectam ao humano, tornam-se como “pessoas” com as quais aprendemos a lidar. Assim, as interações são mais simples, pois há diversos elementos de identidade: a forma humana, os desejos, as virtudes, os vícios e os fenômenos específicos característicos da entidade (trovão, chuva, amor etc).


Hume escrevia no século XVIII, mas pensamentos como o dele ainda se apresentam no século XXI. Há pessoas que ainda entendem que a personalização de deidades e espíritos é caracterizante de um estágio preliminar de desenvolvimento cultural próprio de tribos e de determinadas sociedades “atrasadas”. Para a ignorância o melhor remédio é o conhecimento. Desafio qualquer um a estudar tais sociedades e seus sistemas religiosos e ousar sinceramente dizer que ali não há uma complexidade ímpar. Se o problema for preconceito, estudar também pode ajudar, mas nem sempre é a solução. De toda a sorte, há de se reconhecer que estamos lidando com maneiras distintas de se navegar no mundo e há de se resistir a tentação de categorizá-las como “mais ou menos desenvolvidas”.


Os Católicos, por exemplo, embora reconheçam um Deus absoluto não se cansam de apelar aos Santos – mortos elevados. Ou seja: ancestrais míticos, ancestrais adorados, pessoas que viveram, foram de carne e osso e morreram. De fato, Jesus Cristo, viveu e morreu e foi um homem. Se ousarmos tirar a humanidade de Cristo, iremos fatalmente remover da Igreja um de seus mistérios e um de seus pilares. Essas figuras Santas, que andaram entre nós, são veneradas, adoradas e cultuadas. Não é incomum que se peça pela ajuda dos Santos ao invés de se recorrer ao Deus. Poucos, porém, que acusam os politeístas de serem “subdesenvolvidos” notam isso e ousam investigar que na prática, o culto aos Santos, é próximo ao dos politeístas.


Hume reconheceu isso e afirmou que se trata de um problema, pois resgata a “idolatria”, característica que os Hebreus vêm tentando apagar desde sua rixa Bíblica com o antigo Egito. Sem entrar muito nesse mérito, está claro que o humano parece carregar consigo o ímpeto de apelar ao que lhe parece mais familiar – em uma análise que se beneficiaria de maior meditação, mas que bastará para essa conversa. Trocando em miúdos – a idolatria de que tanto reclamam, se colocarmos em uma posição mais honesta, parece apenas a maneira humana de interagir com o invisível, por meio do que é comum entre o visível e o invisível – e esse elemento em comum é traduzido, por exemplo, pela imagem. Pensando assim, não é de se espantar que algo tão complexo como o mundo invisível seja decomposto em várias imagens distintas e personalizadas.


Voltando aos Santos, que como expliquei, são mortos, é válido fazer um desvio e resgatar que o culto aos mortos é uma das coisas mais antigas e conservadas ao longo da história. De fato, diversos dos “Deuses dos politeístas” podem ter sido mortos divinizados ou até mesmo foram colocados como tal em uma troca de fatores que surpreenderia, caso não nos déssemos conta de que é novamente a necessidade humana de familiaridade agindo. Os mortos que, aliás, se estendem até mesmo as fadas das quais Hume falava. Podemos evocar Nigel Jackson que em seu “Call of the Horned Piper” alega que o mundo das Fadas é o mundo inferior dos mortos, deixando claro que esses espíritos têm relações íntimas com a humanidade e com a veneração ancestral.


Lembro-me também de Jake Stratton-Kent que advoga fortemente que os mortos vêm sendo constantemente ignorados pela tradição esotérica ocidental. Não me resta opção senão concordar com Jake. Por outro lado, talvez o problema esteja mais no foco. Afinal, santos são mortos, Deuses podem ter sido mortos e fadas e até duendes podem ser mortos. Estamos imersos em mortos, aparentemente, e até mesmo aquela prática inocente de conversar com os elfos pode se revelar uma bela de uma prática necromântica. Não vamos bater o martelo nisso agora. Eu mesmo acho que há diferenças e algum exagero nesse meu argumento, mas estou apenas tentando chamar a atenção para um fato pouco considerado.


Tudo isso para ressaltar o fato de que intermediários são absolutamente importantes e são uma presença bastante popular nos sistemas religiosos e mágicos. Vamos falar de Jake Stratton-Kent novamente. Se alguém se puser a ler sua reconstrução do Grimorium Verum (e recomendo que façam) verá que a presença de um espírito intermediário é fundamental. Mais perto de casa, nossa Katy Frisvold aqui do “Espelho” já falou sobre a importância de intermediários também em outros locais (se a memória não me trai). Assim, gostaria de deixar claro que (contrariando Hume) acho digno que os intermediários e que os Deuses e espíritos mais “familiares” sejam dignos de nossa atenção.


Entretanto, para além de “intermediários” como figuras de mediação, estamos também conversando sobre “intermediários” entre nós e o Deus absoluto em uma escala mais sutil, pegando carona na ideia de Hume. Afinal, na raiz do argumento de Hume está certa “desvalorização”. Se essas coisas não são o criador supremo, por qual razão merecem minha atenção? É uma pergunta importante, embora absolutamente sem sentido do ponto de vista de alguém que seja religioso ou que pratique magia. A razão é simples: esses seres ensinam e propiciam coisas. Deus, todo poderoso, nunca desceu pra me dar nada. Entretanto, certos espíritos já interagiram comigo de maneira indubitável. Ora, podemos discutir se esses espíritos não seriam, afinal, Deus. Ok. Poderíamos, mas não vamos. Foquemos no que temos no mundo e o que temos, de fato, é um entendimento múltiplo.


Os lares, espíritos das casas Romanas, estão aí para provar que o que tá mais perto não é necessariamente menos valioso. Se você mora em um local, não faz sentido ter uma boa relação com seus vizinhos? Nessa mesma lógica, imagine os benefícios de estar em harmonia com os espíritos da sua própria casa. Indo mais pra dentro – agora imagine os benefícios de se estar em harmonia com os espíritos que andam com você! Não há razão para pensar que há aqui qualquer atividade, culto ou prática de menor valor. Como alguém espera alcançar o incognoscível sem ao menos saber o que se passa em sua própria casa?


Só me resta então dizer que Hume estava completamente equivocado. Na verdade, Hume, meu querido, parece-me que faz mais sentido que os duendes e fadas sejam mais dignos de nossa atenção do que qualquer coisa que a mente não consegue ao menos compreender. Aqui não existe contradição. A relação com espíritos mais próximos e intermediários não anula ou não prejudica uma possível construção de interação com um Deus absoluto. É possível desenvolver as duas coisas sem prejuízos. De fato, parece-me que o desenvolvimento conjunto dessas duas faces trará somente vantagens. Por fim, queria declarar que estou tremendamente satisfeito com meus duendes e com minhas fadas.

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