• Paulo T. Vasconcellos

Meditações sobre um Inverno que se Aproxima.



Imagem por sciencesource

São Paulo, 15 de maio de 2020.


Querido Irmão de Armas, boa noite.


Não começo a carta pedindo desculpas pela ausência de notícias, posto que elas chegam no momento exato.


Tenha em mente que, se a árvore no começo da vida frutifica em pencas e abundância, nutrindo pássaros, solo e agricultor sem distinção, em sua maturidade os frutos são mais restritos e doces, destinados a finalidade mais nobre. Se em juventude a fertilidade doa maçãs a torto e a direito, em maturidade a cidra demanda fermentação e preparo.


Espero que o prenúncio do Inverno tenha lhe alcançado vivo. Não digo "bem", posto que isso seria inocência que não nos serve mais, tal qual uma velha calça jeans ou um quimono estranhamente apertado e sua faixa inconvenientemente curta. Em verdade, desejo que esteja Vivo, posto que enquanto há Vida há Mudança e enquanto há Mudança há Esperança.


Desejo que mude, sempre.


A Metade Escura do Ano, como você sabe bem, me deixa letárgico. Eu contabilizo tranquilamente uma hora de sono a mais e igual adicional de ranzinzice matinal. A quase década de celebração dos ciclos da natureza deixou isso ainda mais evidente.


Acho que a pessoa que eu mais admiro foi um advogado com o qual eu trabalhei. Italiano, radicado no Brasil, tinha como política de vida passar metade do ano trabalhando no Brasil e metade ano trabalhando na Itália. Ele hackeou a roda das estações e vivia em eterna Primavera e Verão.


Pessoalmente, ainda que eu tivesse tal oportunidade, dificilmente eu a exerceria. Creio que meu sonho de vida (e norte de ambições) está mais relacionado com poder viver as estações em sua totalidade. Existe um dia para plantar, um para esperar e um para colher. Um para preparar o mosto, um para fermentar e um para beber. Atletas profissionais não possuem o mesmo corpo durante todo o ano. Isso é impraticável.


A Modernidade, porém, em sua ambição de dissociar o Homem da Natureza (que começou com o Judaísmo e sua ânsia de colocar o Homem no centro da Criação) logrou êxito em pasteurizar os ciclos da natureza. Todo mês é mês de plantar, esperar, colher, preparar o mosto, fermentar e beber. Afinal, tudo é produto e nunca deve faltar tomates no mercado (mesmo que não seja estação de tomates).


Nossa vida é como um almoço no qual a bebida, a comida e a sobremesa são jogadas em um liquidificador para que cada garfada ou gole tenham o tempo todo o mesmo gosto e a mesma textura, pasteurizando a existência.


***


Não lhe causará espanto minha afirmação de que este ano o Outono/Inverno chegou mais cedo, já em Março, com a decretação da Pandemia.


Peço-lhe desculpas se por acaso ofender suas sensibilidades, mas, igualmente, peço-lhe que não se ofenda: discorde, esbraveje, maldiga, mas não se ofenda. Ofereço-lhe um gole de meu vinho, do qual a Pandemia foi fermento e envelhecimento. Caso ele não lhe apeteça o paladar, prometo ofertar-lhe outras bebidas.


Tal catástrofe (e creio que podemos chamar assim a Pandemia) trouxe à tona meu ranço com a atividade Estatal. Explico, mas peço desde já que tenha paciência com um escritor que não possui nem rima e nem solução.


Diante da catástrofe, diversas medidas governamentais foram tomadas para minimizar seus efeitos. Dentre elas, uma muito pontual, consistente na legalização de acordos para redução da jornada de trabalho com indenização estatal para os empregados.


Reconheço que as intenções são boas: evitar o desemprego. E reconheço até mesmo que, em nossa vida e em nosso país, elas são necessárias, posto que nosso estado natural é de crise e fragilidade, com soluços de prosperidade.


Porém, tal medida pasteuriza a vida. Empresas com capital para sustentar a crise serão jogadas no mesmo saco com empresas frágeis. Como sempre, o Governo não deixa faltar mamadeira para os amigos do Rei e os dinheiros dos impostos são devolvidos por intermédios de eminências pardas orbitando o trono.


"Mas então, Anarco, o que você deseja? Que as pessoas sofram?" poderia você me perguntar, evocando um velho nome há muito não utilizado, e eu lhe responderia que não. Ou, ao menos, não mais do que o esperado em um longo e tenebroso inverno.


Minha utopia é que todos sejam capazes de se recolher em hibernação sem medo de lhe faltar pão na Primavera. Que aqueles que desejam se arriscar em plena Pandemia (como um amigo médico) o façam e colham frutos justos, ou que aqueles que desejam se recolher (como uma amiga enfermeira) o façam sem medo de que no próximo equinócio lhe falte trabalho ou pão.


O problema não é o racionamento no Inverno. O problema é a incerteza de que a Primavera virá farta.


Utopia? Talvez. Mas lhe lembro de um velho amigo que conheceu uma inglesa que trabalhava três meses por ano para poder viajar nove.


A segurança do lavrador não está na lavoura que não morre, mas na certeza que ela renascerá depois da colheita.


Desejo que possamos ver, ainda com luz nos olhos, uma Vida na qual todos tenham condições de suportar o inverno recolhidos e sem precisar se arriscar com a certeza de que a Primavera trará os meios e condições para que as despensas sejam re-estocadas.


Utopia, você dirá? Com certeza. Mas tenha em mente que vivemos em tempos nos quais os meios de produção não precisam ser físicos e é possível (ainda que não garantido) que viveremos em uma idade de prosperidade sem precedentes.


Vivemos em tempos sem igual, meu Caro, como todos os que viveram antes de nós.


Espero, em breve, poder ver-lhe e abraçar-lhe, posto que palavras não substituem abraços assim como a comida não aplaca a sede.


Com o Coração,

Tarso.

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • cartaicone