• Gabi Aguiar

Maria Navalha


Em se tratando de Mulheres na História da Magia, a primeira coisa que passa pela minha cabeça são as pombogiras. Nós nos baseamos muitas vezes na imagem da bruxa nórdica, ao mesmo tempo em que caminhamos sobre os ossos dos nossos antepassados, levantando a poeira da nossa própria terra. Eu honestamente ainda não sei de onde eu vim, e quando digo isso, falo sobre o quão profundamente eu fui no trajeto de conhecer a minha própria linhagem. Digo isso, pois muita gente parte daí no momento de buscar referências mágicas femininas, mas pra mim a avó fiandeira está mais próxima, no nosso terreiro e no nosso quintal.

Existem algumas histórias possíveis acerca da vida de Maria Navalha: Foi a primeira malandra e a primeira pombogira brasileira, cria da primeira favela carioca, no bairro da Gamboa, o Morro da Providência. Que teve infância difícil e teve que virar gente grande cedo, passou dificuldade, perdeu a família, sofreu tentativa de abuso, foi covardemente assassinada. Que tinha um magnetismo incrível, um carinho muito grande pelo povo da rua, agia sobre as injustiças que via e era valente. Que era briguenta e o que tinha de amigo tinha de inimigo também, a navalha ia sempre colada no corpo, pra atacar e pra defender. Uma moça dona de si, jovem, que tinha a lira como lar... As ruas, os cabarés e os bares lhe deram sua vida, a sua fama e seu apelido. Maria era macumbeira também, aprendeu muito de feitiço e ajudou gente a beça. Foi apunhalada pelas costas numa viela, na favela. Morreu na rua.

O que mais me inspira nessa mulher é que tudo o que lhe foi tomado, é o que ela dá. A sua força está no que muitos chamariam de fraqueza. Pensem só se não seriam infinitas as chances de uma mulher que passou por tudo isso sucumbir dentro da própria indignação, frustração ou tristeza. O mundo não a devia nada, coube a essa mulher se reinventar e escrever a sua história, tanto viva quanto depois de morta. Quem tem um vínculo com essa entidade tem uma parceira, uma irmã, confidente, amiga. A gente encontra a Navalha com facilidade na umbanda e na quimbanda. Na umbanda ela vem com a malandragem e na quimbanda pode vir como exu pombogira também. Ela é quente e despojada, e isso deve ser refletido nas suas oferendas e nos pontos, afinal de contas não tem muita frescura com ela não, mas personalidade. A navalha dela corta feitiço. Com os quadris e os pés ágeis, ela traz prosperidade e dinheiro. Com os cabelos ela ama e traz amor. Sua postura traduz autoridade e a sua carioquice, simplicidade. Ela é bamba.

Escrevo esse texto pra vocês e pra ela, que foi além de tudo isso, a primeira entidade que acreditou em mim quando nem eu mesma acreditava, que pegou minha cabeça e deu jeito na minha vida quando ninguém quis, quando eu era muito menina pra entender sozinha. Essa mulher me proporcionou meus primeiros passos na quimbanda e foi figura fundamental no meu amadurecimento e na construção do meu caráter como mulher adulta. Ela é um dos meus pontos de base e referência enquanto feiticeira e enquanto pessoa, ela é o símbolo da minha transição pra vida adulta, do meu eu mais íntimo e confuso que simplesmente é o que é sem medo e sem culpa. Eu agradeço, Navalha, todos os dias, por poder caminhar sobre os seus ossos.

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • cartaicone