• Katy Frisvold

Magia de Sangue

***Originalmente postado em outras paragens em 09/2018




Há algum tempo tem-se percebido o ressurgimento do interesse e uso do sangue menstrual pelas magistas e bruxas. É muito interessante que as mulheres estejam acordando novamente os potenciais energéticos de seus fluídos corporais, e que estejam buscando finalmente mais contato com seus corpos.


Contudo, para quem gosta de entender os "por quês" das coisas, ergue-se a questão do que anda motivando as mulheres a usarem seu sangue menstrual na magia, ou ainda, se encontramos mais específicos nos diálogos sobre o tema, como por exemplo, um dia ideal para coleta. Pelo visto as respostam variam mais ou menos de "para potencializar feitiços" ou que se coleta "quanto está mais abundante". Observando os métodos para coleta que estão sendo feitos, também erguemos certa preocupação em termos de saúde - afinal torcer o absorvente ou mergulhar um tampão em algum líquido pode ser “insalubre se for para consumo”. E dai já dá pra juntar os pontos e suspeitar de que alguém vai beber ou comer isso.


Mas vamos ser francos, essa história não é novidade, algumas “bruxas” foram acusadas pela inquisição por colocar umas gotinhas de sangue menstrual em suas poções. Mas isso foi em outro tempo e nós não sabíamos muito sobre os mistérios femininos além da crendice popular.


Esse conhecimento no Brasil é anterior a esses novos grupos que trabalham com conscientização feminina, das curandeiras da Deusa, de todo este reavivamento do Sagrado Feminino.


Ao mesmo tempo, se pararmos para pensar, justamente porque o sangue menstrual é poderoso ele deve ser usado com certo cuidado, assim como tudo o que é sagrado deve sempre ser considerado cuidadosamente. Senão não é tão sagrado. Torna-se banal. Não só isso, pesquisando-se um pouco mais, aprende-se que todos os fluidos corporais são assinaturas energéticas, e assim, nem tudo deveria levar nossa “assinatura”. Nem toda deidade deveria provar de nossa energia, assim como nem toda deidade não é necessariamente boa para a gente. Então já sabemos que é necessária uma maior compreensão de quando e como usar, já que o sangue em particular possui este poder de atar e atrair, de criar elos, de selar pactos, e às vezes a gente tem que entender primeiro como funciona o contrato, quem é o sujeito do contrato e quem está ganhando com ele. Existem mais pessoas em relação abusiva com seus deuses do que em relações saudáveis. Se não fosse isso, certamente estaríamos num mundo um bocado mais tolerante hoje em dia. Afinal, quem está feliz em sua relação como o “divino X” certamente não perde tempo espezinhando o povo.


Então vamos falar no quanto o sangue menstrual é sagrado olhando uma tradição antiga ou outra, para encontrarmos pistas do quanto estamos falando? Na Tradição de Ifá, encontramos uma estória em Irosun Meji, onde Olodumaré (o criador) abençoa a mulher. A estória começa com homens e mulheres trabalhando lado a lado, mas que os homens começaram a cultivar a ideia de que as mulheres eram inferiores. As mulheres se rebelaram e começaram a recusar sexo. Só que sem sexo não havia procriação. Observando isso, Olodumaré chamou o líder dos homens e a líder entre as mulheres (Iyami Agba). Olodumaré disse que ia resolver o problema, deu a cada um deles uma caixa contendo seu sopro divino e os mandou para casa. Chegando em casa, o homem não viu razão para abrir uma caixa de sopro e foi dormir. Já a mulher achou a proposta interessante e ficou imaginando o que aquilo representava. Em sua curiosidade, ela abriu a caixa e de lá um sopro saiu e entrou no corpo dela. Assim que isso aconteceu, homem e mulher estavam novamente na presença de Olodumaré. Ela estava apavorada porque achava que tinha feito algo errado, mas Olodumaré a acalmou dizendo que ela havia colocado seu gênero adiante, pois o sopro era seu poder. Ele disse que agora ela iria sangrar porque ela tinha este poder (asé/axé) dentro dela e que nenhum mortal era forte o suficiente para segurá-lo por muito tempo. Com isso ela ganhou o poder de criar e sustentar a vida, e o poder da palavra (ofo asé). Assim, conta a lenda, que as mulheres que param de menstruar são ainda mais poderosas, pois conseguem carregam o poder de Olodumaré dentro delas para sempre.


Entre as tribos ameríndias, a menstruação sempre é acompanhada de uma série de limitações alimentares. Rituais de passagem são estritos, e alguns deles podem levar quase um ano de preparação. Algumas tribos levam estes rituais a níveis que poderíamos considerar cruéis, uma provação extrema para que a mulher aprendesse a ter coragem e força para os trabalhos mais penosos. Entre estes, temos os Ipurucotó (de Roraima), cujos relatos nos contam que suspendiam alto as moças em redes até o término do período, davam três dias de descanso, findos dos quais ela era agarrada e chicoteada por três vezes pelo pai e ter colado em seus seios um pary (esteira) cheio de formigas apará que com seus ferrões provocavam dor indescritível e sangramento. Repetiam esta operação no abdômen e depois nas costas. Depois disso ela teria uma dieta restrita para seus períodos.

Outras diversas etnias da Amazônia acreditavam que o líquido catamenial expelido durante a menstruação e outras secreções femininas e mesmo a urina eram excelente remédios contra picada ou ferroada de animais peçonhentos. Quando a índia queria enfeitiçar algum índio fazendo com que ele ficasse perdidamente apaixonado, ela adicionava na bebida dele algumas destas secreções.


Se nos voltarmos para as Tradições da Índia, temos que observar que existem diferentes linhas de pensamento. De uma perspectiva bramânica a menstruação é considerada ashaucha, "impureza", e é vista como a maneira pela qual as mulheres se livram de impurezas e/ou iniquidades e, portanto, podem manter seus deveres como mãe e chefe de família. Já os movimentos tântricos eram frequentemente antinomianos, e reagiam sobre a perspectiva do Bramanismo em relação às mulheres. Isto é encontrado em sua forma mais radical no Vama Marg, no "movimento de mão esquerda", que freqüentemente eram focados em Shiva ou Kali (Saiva e Shakta), ou seja, a veneração final era colocada sobre Kali e suas dez manifestações da sabedoria à qual Shiva teve que se submeter.


No tantrismo Vama Marg as mulheres recebem a posição superior e a quebra de kleshas (blocos de obstruções) e tabus sociais são importantes para moksha (liberação). É aqui que encontramos a compreensão do ciclo menstrual como um "poder da lua" presidido por Lalita e Kali, representando a lua cheia e nova neste mistério. O ciclo menstrual pode ser visto numa sequência de 15 nityas ou “dígitos” da lua, abrangendo desde a nova até a cheia dividida em 40 horas cada, fazendo referência às mansões lunares e presididas por uma classe de espíritos chamados nakshatras, 28 em número, um para cada noite lunar e assim refletido no ciclo menstrual. A menstruação era então considerada uma descarga lunar particularmente poderosa, com grandes potências alquímicas e mágicas, e a menstruação, assim como os fluidos vaginais, naturalmente conteria as virtudes do nakshatra ou nitya astrologicamente ativo em um determinado dia. Isso daria ao ciclo lunar um arsenal completo de fluidos alquímicos que poderiam ser usados de maneira talismânica para causar danos, para curar e efetuar todos os tipos de mudança. Isso porque as mulheres são “origem”.


A lua influencia significativamente os biorritmos da mulher, e seu corpo, mente e espírito estão intricadamente conectados com seus ciclos. A lua nova marca o tempo de renovação. O sangue fecunda a terra e através de um processo alquímico: ele se transforma em chuva e alimento.


Assim como o momento do nascimento de uma criança impõe um conjunto de qualidades à ela, da mesma forma o útero contém 28 possíveis qualidades de nakshatras e 15 possíveis qualidades nitya. Às vezes essas descargas são chamadas de "kalas", significando "um dígito de morte", pois o nascimento e o útero estão naturalmente ligados a Yama ou à morte, o Senhor de Kala ou Tempo, já que a vida é possível por causa da morte e não o contrário…


Tudo a considerar, talvez tenhamos que repensar a forma em que estamos lidando com esta redescoberta de poder, e manter sagrado o que é sagrado.



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