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A Magia é uma Língua Viva


Arte por Bill Mayer

É recorrente e crescente a quantidade de vezes que paro para ver o mundo e percebo que ainda não sei nada, que ainda não compreendi a fórmula pela qual a vida funciona e que ainda caminho no labirinto com a besta à espreita sem encontrar o fio de Ariadne que vai me permitir transitar pela minhas escolhas com segurança. O paradoxo engraçado e cruel a respeito disso é que a vida se trata da não conformidade, pois a vida é aprender e mudar, e quem é cheio de certezas tem pouco espaço para mudanças. Não há maldição maior do que estar sempre certo.


Iniciar um movimento é sempre mais difícil do que mantê-lo. Mantê-lo é sempre mais fácil do que pará-lo. Em um movimento automático, retilíneo e uniforme agimos como autômatos. Segunda-feira é dia de preparar a agenda, quarta-feira é dia de peixe, sexta-feira é dia de sexo e sábado dia de se divertir. A rotina, nesse sentido, embaça as percepções e apaga o quadro negro da vida antes de podermos copiar a lição.


Ninguém é apenas anjo ou apenas demônio. É a dualidade entre desconstruir padrões e estabelecer aprendizados que dá a mola do crescimento. A resistência para a mudança mata. Uma concepção fechada não toca a existência e se torna desvivida peça de museu. E é por isso que afirmo que gastamos bem menos empenho em sermos honestos em admitir padrões e conceitos que em aprender. Diga a um ocultista que escrever um nome em uma vela com mel e acender ajuda a curar uma doença e ele concordará. Diga a ele que o Elemento Terra representa as emoções e ele terá uma síncope.


Nada nasce na zona de conforto. A zona de mudança é uma zona de guerra em que não se distingue amigo de inimigo: será que é possível que a crença que te ajudou a sobreviver no período mais negro da sua vida se torne uma casca apertada demais impedindo seu crescimento? Sim, é. Isso se encaixa perfeitamente naquela definição de loucura sobre tentar obter resultados diferentes fazendo exatamente as mesmas coisas.

A Magia muda o praticante e sua realidade. É a causa do efeito que pode ser observado, ainda que não medido. Crowley postula que magia é criar mudança na manifestação e a Dion Fortune diz que ela age nos planos psíquicos e sutis. Eu creio que é uma união das duas coisas, pois elas nunca foram separadas.


A Magia só é possível na matéria se ela existe no seu operador. Assim como o Poder, que não pode ser concedido, a magia deve ser aprendida pela ação observada pelo próprio agente, assim como uma língua se aprende falando.


Magia funciona como um idioma e seus dialetos, com suas idiossincrasias geográficas e socio-politicas: existe a língua dos livros e gramáticas e a língua das ruas e interações. Da magia telúrica até a magia celeste, ela funciona como um idioma agindo por leis, observáveis, que a física não enunciou, mas que causam mudanças na realidade.


Existe uma teoria linguística que diz que a maneira pela qual exercitamos nossa cognição e pensamentos tem o poder de mudar como percebemos a realidade. Como a mesma frase lida por falantes com sotaques diferentes. A magia como idioma estimula a trocarmos e limparmos nossas lentes de leitura, objetivando o ambicioso feito de conhecer o mundo em si, não nossa visão do mundo. Como o ouroboros, onde o fim retorna ao princípio, a magia procura entender a realidade sem distorções para que nós sejamos sem distorções, estabelecendo o eixo mente-coração, em que as emoções não nublam os pensamentos e os pensamentos não censuram as emoções.


O que se entende tradicionalmente como magia são sistemas organizados em exercícios, graus hierárquicos, métodos e vertentes sob uma visão filosófica. Cada uma pretende a mesma verdade primordial, o que não impede que indivíduos distantes desse vocabulário formal estabeleçam um grau de compreensão que os levem ao conhecimento de si e do mundo.


A Magia é o Estado Natural do ser humano, e não um conhecimento que segrega seus praticantes. Estes sistema e métodos são lentes de leituras do mundo (ou o dedo do sábio que aponta a lua no velho provérbio chinês) a linguagem pela qual se comunica a magia é visceral, democrática e acessível. Talvez, a Magia seja a única língua realmente viva, pois é falada e vivida por todos aqueles que um dia, no passado, no presente ou no futuro, tomaram de sua taça.