• Eduardo Regis

Maçonaria e Vodou - Parte II


Discutimos anteriormente a figura de Hiram Abiff. Esta é a personagem central da alegoria Maçônica e sua vida e morte (principalmente) são temas explorados dentro da fraternidade. Sem entregar nenhum segredo, é justo dizer que temas de morte são uma constante na vida Maçônica. Novamente, já exploramos um pouco desta ligação entre a morte, a Maçonaria e o Vodou na parte I dessa discussão.

Podemos colocar então que os Gede são parte fundamental da Maçonaria, pelo menos do ponto de vista do Vodou. Neste caso, os Barões, claro, seriam a elite. Novamente, podemos puxar a imagem dos antigos senhores das fazendas na Ilha de São Domingos e relembrar que estes podem ter inspirado parte do imaginário dos Barões.

Entretanto, a morte não é o único tópico que conecta o Vodou à Maçonaria. Rigaud (novamente) apresenta outra dimensão quando “equivale” Damballah ao Grande Arquiteto do Universo. O papel central de Damballah no Vodou não é uma inovação de Rigaud, mas o autor certamente está reforçando essa noção ao afirmar que este Lwa serpentino seria a face que enxergamos do criador.

Ao examinarmos o Oroboros, a serpente que morde a própria cauda, podemos ganhar algum insight sobre essa discussão. Oroboros é um símbolo que pode ser interpretado de maneiras muito distintas e amplas, mas podemos afirmar que uma das interpretações mais aceitas é a de que representa o retorno ao ponto de origem. Isto pode querer dizer, de outra maneira, que não há diferença entre a divindade e a criação.

Na serpente que morde sua própria cauda achamos uma conexão inesperada (talvez) que novamente traz à tona a ideia de morte. O retorno eterno ao ponto de origem só pode indicar que, de fato, a vida é eterna. Assim, os Barões ganham novos contornos, pois não seriam então apenas personificações sinistras, mas lançariam luz sobre um mistério que conecta o homem à criação. Claro que não podemos nos esquecer de que a morte literal é utilizada frequentemente como símbolo para a iniciação. Entretanto, esta parece ser a camada mais externa de um mistério que guarda muitas outras.



Oroboros. A serpente que morde a própria cauda.

Não escapa também à percepção que o Oroboros forma um círculo, símbolo comumente associado ao divino e ao espírito. Um círculo não tem, na verdade, um ponto de início e não tem um fim. Além disso, delimita certo espaço através de uma fronteira clara e separa o que está circunscrito do que não está. Parece-me uma boa alegoria para o próprio Universo, se formos ousados. Podemos pensar que estamos contidos dentro dos limites de Deus. E o que há além? Ou tudo ou nada.

Os cabalistas afirmam que Kether (A Coroa) seria a primeira manifestação do inefável que podemos perceber (de alguma maneira). Curiosamente, uma coroa é um círculo (geralmente). As coroas, claro, são usadas por Reis e o Vodou possui um. Seu nome é Ogou. Portanto, se o Oroboros é como uma coroa e Damballah, sendo uma serpente, está ligada a este mistério, percebemos que talvez seja pela agência de Damballah que Ogou reina. Em outras palavras, seria sobre a cabeça de Ogou que Damballah repousaria.

O veve (desenho ou padrão ritualístico) de Damballah também nos fornece pistas sobre a sua ligação com a Maçonaria. O símbolo parece conter um esquadro e um compasso atravessando uma cruz e um triângulo. Ainda, os símbolos menores ao lado do maior também sugerem esquadros e compassos. Ainda, como Robinson comenta sobre o veve de Papa Loko, a figura da cruz e do triângulo no veve de Damballah podem ser referências ao nível e ao prumo, símbolos Maçônicos importantes.

O triângulo, claro, por si só é um símbolo Maçônico central. Ele representa a trindade a divindade, para resumir de maneira quase simplória suas qualidades.


Um dos veves de Damballah.


O nível e o prumo.

Milo Rigaud também afirma que Legba é o poteau-mitan e o ponto dentro do círculo. Um círculo com um ponto no centro é um símbolo Maçônico (e gnóstico) que representa a mônada. No contexto Maçônico pode representar ainda: o indivíduo dentro de seus limites morais e da Lei Maçônica; e o indivíduo dentro do universo. Na verdade, as interpretações são variadas e provavelmente há uma para cada Loja Maçônica neste mundo. Evidentemente, o círculo com um ponto no meio é também o símbolo astrológico do Sol.

Ainda, Rigaud comenta que este símbolo seria o próprio Hounfour. O ponto seria Legba (poteau-mitan) e o círculo seria o espaço do Hounfor. Isto traz conexões evidentes ao próprio templo Maçônico, já que ambos seriam do tamanho do universo. Isto claro é também uma lembrança poderosa de que é preciso viver os juramentos e códigos em qualquer lugar e a qualquer instante. No caso do Vodou, esta lembrança mostra como esta religiosidade origina um ethos. Clifford Geertz entende que, de fato, religiões geram ethos e concordo com esta interpretação. Entretanto, chamar o Vodou de religião pode ser perigoso, já que esta espiritualidade não está organizada e regida por instituições. Além disso, os Haitianos não parecem viver o Vodou como ocidentais vivem uma religião.


Retornando ao círculo e ao ponto: como são um símbolo do Sol, há uma conexão entre o Hounfor e este luminar. O Hounfor é o ponto de encontro da comunidade e o local no qual os encontros entre pessoas e Lwas acontecem. Assim, é possível sugerir que o Hounfor seja o ponto ao redor do qual gira a comunidade de Vodou.


Também é pertinente discutir brevemente como o Oroboros era provavelmente utilizado por feiticeiros do mundo antigo, principalmente no Egito, como um “círculo mágico”. Este círculo protegeria o mago e criaria um espaço deslocado da realidade ordinária no qual as operações poderiam ocorrer em condições ideias. Assim, o mago seria o ponto dentro do círculo e a ligação entre o visível e o invisível. Ele seria o próprio poteau-mitan. A conexão entre Legba e magia parece se apresentar por meio dessas conexões.


Rigaud associa Legba ao sol. Este lwa, como o autor coloco, seria o Cristo do Vodou. Os cabalistas compreendem que o centro Crístico da Árvore da Vida pe Tiphareth. No esquema da árvore, Tiphareth leva diretamente à Kether, tendo apenas o abismo como obstáculo. Assim, vemos que Legba é aquele que conecta as coisas e consegue alcançar o que for mesmo em face das maiores dificuldades.


Outro Lwa que encontra relação com a Maçonaria é Ogou, como já discutimos. Ogou apresenta uma faceta de mestre ferreiro. No Candomblé este é um aspecto de Ogum (cuja origem é a mesma de Ogou) muito conhecido. Entretanto, Karen McCarthy Brown alega que no Haiti, este lado de Ogou acabou sendo inibido e prevaleceu o lado guerreiro. De toda a sorte, como a Maçonaria é uma fraternidade de construtores, não seria muito absurdo fazer associações aos ferreiros. De fato, Tubal Caim é um nome conhecido na mitologia Maçônica e Nigel Jackson afirma que ele teria sido o primeiro ferreiro.


Certamente estes ensaio (divido em duas partes) não fez mais do que explorar superficialmente a conexão entre a Maçonaria e o Vodou. Para além disso, espero que tenha contribuído para que os leitores pensem em conexões aparentemente surpreendentes entre suas próprias tradições e outras manifestações. Este é sempre um exercício rico e que acaba tendo a capacidade de estimular novas compreensões.

Bibliografia:

Rigaud, M. Secrets of vodou.

Jackson, N. The Pillars of Tubal-Cain.

Filan, K. Vodoo Money Magic.

Ferretti, S. Repensando o Sincretismo.

Skinner, S. Techniques of Graeco-Egyptian Magic.

Geertz, C. The Interpretations of cultures.

Brown, K. M. Mama Lola: a vodou priestess in Brooklyn.

Robinson, C. Freemasonry and Vodou. The journal of vodou archive. 2013.

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