• Eduardo Regis

Maçonaria e Vodou - Parte I





Milo Rigaud ensina que Damballah é equivalente ao Grande Arquiteto do Universo e que Legba pode ser compreendido com o ponto dentro do círculo. Estas afirmações sugerem que a já conhecida associação entre Vodou e a Maçonaria pode gerar uma discussão ainda mais rica do que a normalmente conduzida sobre o tópico.


De fato, Vodou e Maçonaria parecem coisas tão distintas que a ideia dela se juntarem poderia passar como absurda. Entretanto, a verdade é que a Maçonaria é um dos muitos ingredientes que compõe a diversidade de influências do Vodou Haitiano. Influências que, por sinal, se agregaram de forma harmônica. Quando pensamos nas raízes do Vodou, obviamente primeiro pensamos na África e no Cristianismo. Entretanto, há outras, como, por exemplo, o espiritismo e o esoterismo Francês.


Como exatamente se deu essa mistura de Vodou e Maçonaria é um tema que pode ser um pouco complexo demais para a discussão presente. Na verdade, encontrar explicações que detalhem essa associação não é tarefa fácil. Muito mais comuns são os estudos acerca da influência da Maçonaria na Revolução Haitiana, por exemplo. Entretanto, é possível especular se usarmos o método comparativo. No Brasil, temos um culto de Vodouns chamado Tambor de Mina (no Maranhão) e estudos sobre esse culto revelaram que muitos dos senhores de escravos da região eram Maçons. O pesquisador Sérgio Ferretti recolheu o testemunho de anciãos da região e do culto e sugere a partir deles que alguns elementos da Maçonaria foram incorporados ao Tambor de Mina principalmente por conta dos escravos entenderem que a natureza secreta da Maçonaria era similar ao próprio segredo do seu culto. É possível que eles tenham compreendido seus cultos e mistérios como uma espécie de “Maçonaria dos escravos” e que isso tenha favorecido à incorporação de alguns elementos maçônicos.


É difícil afirmar se um processo similar teria ocorrido no Haiti. Pelo menos, não é possível fazer nada além de especular sem a condução de um estudo cuidadoso. Existem, sabemos, muita similaridades entre a formação do Vodou Haitiano e dos cultos de herança Afro no Brasil, mas também existem diferenças que não podem ser ignoradas. Portanto, podemos tomar os estudos de Ferretti apenas como uma sugestão sobre a formação do Vodou.


O que sabemos é que no agora Haiti, na época colonial, a Maçonaria provavelmente se instalou no ano de 1749 através do Grande Oriente da França. Por conta do cenário próprio do local, no qual havia muitos filhos de Franceses com escravas, foi permitido que os homens de ancestralidade mista se juntassem à Maçonaria. Isso acabou abrindo o caminho também para a entrada de homens negros livres sem ascendência Europeia, que, conhecendo a Maçonaria, viajavam a França e conseguiam lá sua iniciação. Nesta época, na França, as lojas já aceitavam o ingresso de qualquer homem livre, independentemente da cor da sua pele. Uma vez que retornassem à colônia, os novos Maçons, sofrendo com a resistência em serem aceitos, fundaram novas organizações Maçônicas. Este pode ter sido um ponto de entrada para a mistura entre a Maçonaria e o Vodou.


Por conta do batismo católico, que era praticado pelos senhores em seus escravos e por conta da perseguição às práticas de ascendência Africanas, muito dos mistérios dessas práticas acabaram se perdendo. Sob a guarda da Maçonaria, os homens de ancestralidade Africana conseguiram um “porto seguro” (ou pelo menos “mais seguro”) para a continuidade de suas práticas. A razão disso está em um dos princípios Maçônicos fundamentais que dita que não há espaço para intolerância religiosa dentro da fraternidade. Na esteira desse pensamento, Clay Robinson da Universidade da Flórida acredita que muitos homens negros podem ter se apropriado de partes da mitologia e dos ritos Maçônicos para preencher algumas lacunas no Vodou. Se isto aconteceu ou não ainda é tópico de debate. Definitivamente, podemos ver, entretanto, pontos de convergência. Por exemplo, Bon Dieu é muitas vezes chamado de Gran Met (Grão Mestre). Ainda Kenaz Filan aponta que a cerimônia do Kanzo seria inspirada em cerimônias Maçônicas. Além disso, Filan também cita a Mambo Azan Taye que diz que “Todos os Lwas são Maçons”.


Não é o objetivo aqui discutir em detalhes a formação da Maçonaria no Haiti, mas por força do contexto é válido que discutamos brevemente a Maçonaria em geral.


A Maçonaria é uma fraternidade que tomou sua forma contemporânea no século XVIII. Apesar das alegações frequentes que ela teria surgido no antigo Egito, sabemos que provavelmente a Maçonaria é herdeira das corporações de ofício medievais. Entretanto, não sabemos bem (em outras palavras, há divergências nas teorias) quando e como a Maçonaria perde seu caráter operativo e ganha um caráter completamente especulativo, passando a aceitar homens de todos os ofícios.


Atualmente é possível compreender a Maçonaria ou como um clube ou como uma fraternidade que está interessada na construção do caráter. Sabe-se também que muitos dos ensinamentos Maçônicos giram ao redor de uma figura mítica que teria sido o arquiteto-chefe da construção do Templo de Salomão. Este homem chamado Hiram Abiff e sua morte são centrais na mitologia Maçônica. Isso, claro, explica a razão de muitos símbolos Maçônicos serem ligados à construção e à morte.


Ainda hoje, a fraternidade é compreendida por muitos como algo sinistro. O imaginário popular ainda fala de homens em ternos negros que se reúnem secretamente. Às vezes até mesmo em cemitérios! Este talvez seja o fio que liga a Maçonaria aos Barões no Haiti.


Os Barões são sempre descrito como homens elegantes em vestes funerárias. Também se associa a eles maneirismos distintos, mais refinados do que os de Gede em geral. Dentre sua indumentária podem ser identificados aventais e outros elementos Maçônicos. Isto parece apontar para uma associação possível entre os senhores de escravos do passado e a morte. Um cenário que não seria muito fantasioso seria o da identificação daqueles homens indo se encontrar a noite (talvez realmente em cemitérios) com a própria morte encarnada. Assim, não seria absurdo imaginar que os escravos tenham associado aqueles senhores (que tanto os castigavam e que levavam tantos deles ao túmulo) com a própria figura sinistra da morte.



Bawon Samedi por Andre Pierre. A pintura mostra o Barão Samedi com medalhas e com louros (notem as mangas). Tanto as medalhas quanto os louros são elementos Maçônicos comuns.

Continua na parte II.

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