• Eduardo Regis

Levante-se até o sétimo chamado!


Sakpata, imagem por Sostoli.


Em tempos de COVID-19, pensei em falar sobre os horrores da quarentena. Cogitei a ideia de fazer um texto explicando um pouco sobre os vírus e até imaginei que poderia fazer uma bela carta de despedida. Entretanto, tudo isto seria lugar comum, por isso vou falar dele, que nessas horas é o cara de quem devemos lembrar: Sakpata. Depois eu explico a importância de discutirmos este Vodun.


O culto ao Sakpta provavelmente começou em uma comunidade Nagô lá em Abomei, antiga capital do Reino do Daomé, hoje localizada no Benim. Nicolau Parés na obra O Rei, o Pai e a Morte, nos conta que Sakpta (Sànnpònná, em Iorubá) está relacionado à terra, à varíola e as doenças e epidemias contagiosas. Eis uma das razões pelas quais cabe falarmos nele nestes tempos.


A origem Nagô deste Vodun também é denunciada pelo nome dado aos seus sacerdotes: Anagónù, ou gente Nagô. Além disso, estes mesmos sacerdotes falam em uma língua ritual que provavelmente era uma forma do Iorubá arcaico. Novamente, é o Parés quem nos ensina isso. Aliás, Parés é uma referência obrigatória quando se trata do estudo dos Voduns no Benim.


Sabe-se que a região do Daomé era alvo de constantes epidemias de varíola. Por alguma razão, Sakpata passou a ser mais e mais identificado com essa doença. Isto causou um efeito duplo sobre sua imagem, que refletiu em seus sacerdotes: era muito temido por trazer a doença; mas também muito respeitado e venerado por ser o seu curador mais eficiente. Como dominava a varíola, Sakpata podia causar a doença com uma das mãos e removê-la com a outra. Este duplo, em uma época na qual a varíola era uma mazela seríssima, certamente conferiu uma fama indesejável aos sacerdotes, que sofreram alguma perseguição por conta do medo da população. Entretanto, como coloca novamente Parés, esta perseguição logo passava, pois era necessário apelar ao Vodun pela cura.


Parés coloca a hipótese de que devido às mortes de vários Reis pela varíola, o povo tenha enxergado o poder de Sakpta como algo muito mais forte do que o poder dos próprios Reis. Isto teria sido o gatilho que disparou sua identificação como “Rei da Terra”. Não é para menos, quando tratamos de uma força capaz de devastar multidões e que não poupa nem mesmo a linhagem real. Qualquer aspecto que se conecta a saúde humana certamente não deixará de causar uma impressão formidável.


Consultando Verger vemos que Sakpata também é conhecido por Obaluaê e Omulu. Estes dois nomes, bem mais familiares aos leitores Brasileiros, que já deviam estar suspeitando (caso não soubessem) desta relação. Verger também conta sobre a iniciação dos seguidores de Sakpata na África. O autor revela que dentre as diversas cerimônias há uma dança em frente ao templo que culmina com os iniciados todos caindo ao chão como se estivessem mortos. Seus corpos são prontamente cobertos com uma mortalha e recolhidos. De uma a duas semanas depois, os corpos são trazidos de volta para a cerimônia de ressureição. Cobertos com um pano verde e borrifados com banhos específicos, quando os corpos são retirados das mortalhas eles exibem uma cor esverdeada. Além disso, alguns corpos apresentam vermes, embora Verger note que os mais céticos entendem que os vermes são oriundos dos animais sacrificiais mortos que fizeram companhia para os iniciados durante o recolhimento. O grande sacerdote então se aproxima do corpo (um a um) e o chama sete vezes pelo seu novo nome. Usualmente, o corpo se levanta ou treme, dando algum sinal de vida, mas há relatos como os de Bernard Maupoil que contam que alguns não voltam e são entregues para a família para que os ritos funerários sejam realizados.


É com grande perigo que estas pessoas se submente a uma iniciação destas. Na verdade, é um perigo enorme, mas corrente. Afinal, todos os seres viventes correm o risco iminente de morte. De qual maneira? Impossível saber. Seja como for, é preciso admirar a coragem ou a entrega que apresentam estes iniciados ao caminharem para uma cerimônia dessas. É claro, estou escrevendo do ponto de vista nosso, ocidental contemporâneo e não quero perder este ponto de vista neste texto, pois acho que daqui, do nosso canto, ao olharmos tudo isso com certa estranheza é que podemos aprender algumas lições (favor não confundir estranheza com preconceito).


É Verger também quem nos conta que esse elemento de morte ritualística tão evidente não foi perdido no Brasil. Durante a iniciação de um filho de Obaluaê, uma das cerimônias envolve o iniciado e uma cova. Apesar, claro, de todo o ato de iniciação envolver a dicotomia “vida x morte” é sintomático que em Obaluaê isto seja explicito. Afinal, este Orixá, assim como o Vodun Sakpata é um grande equalizador, lançando pragas igualmente sobre homens, mulheres, Reis e plebeus. Assim, é evidente que a morte anda ao seu lado e é um processo fundamental dentro de seus mistérios.


Aqui também podemos destrinchar rapidamente a questão do “Rei da Terra”. Quando citamos a cova nos lembramos dos enterros, ou seja, do ato de enterrar os mortos. Assim, o “Rei da Terra” anuncia seu domínio sobre todos os mortos, que estão nela e a ela voltaram.


Agora sim, revelo a razão pela qual resolvi comentar sobre Sakpata. Estava estudando sobre este Vodun por razões que agora não são relevantes quando a epidemia de COVID-19 se tornou o monstro diante do qual estamos. A coincidência não me escapou. Afinal, era nada sutil. Depois, com o tempo, veio certo refinamento nos paralelos. Agora que estamos todos em quarentena, ou seja, recolhidos e longe dos olhos da comunidade (pelo menos figurativamente), só nos resta mesmo esperar pela misericórdia de Sakpta. Temos que torcer para que quando isto tudo acabe, possamos acordar até que o Sacerdote grite nosso nome pela sétima vez. Se não o fizermos, nosso destino será triste.


Neste recolhimento forçado, que aproveitemos essa ação da natureza para passar realmente por uma iniciação. Que consideremos a morte como algo próximo, pois assim se vive mais livremente a vida. Que tenhamos sabedoria para fazer deste tempo um tempo de meditações. O que deve morrer? O que nosso deve morrer? Quando me chamarem pelo meu novo nome à luz do dia quem eu vou querer ser?

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