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  • Katy Frisvold

Imagine isso



Finalmente decidi escrever sobre ser mulher e magista. “Magista” é um termo bastante impreciso, que peca ao mesmo tempo por excesso ou escassez de uma definição melhor para alguém com um espírito tão curioso quanto o meu. A partir deste ponto sem muita definição, passei por uma grande variedade de questionamentos e protestos - às vezes acalorados - para que não escrevesse nada. Porém, as mais ousadas companheiras de jornada viram valor na ideia de compartilhar visões sobre o assunto aqui no Espelho de Circe e em breve, vocês poderão encontrar outras mulheres falando de outros ângulos. Se a proposta é trazer os assuntos a partir do resultado da vivência mágica, vamos ter que começar por aqui (e agora me aguentem).


Quanto mais me estudo e vivencio os meus espelhos, menos importantes se tornam as formas.


Quanto menos formas, mais contextos surgem.


E quando surgem os contextos, menos absolutas se tornam as verdades.


Perdoe-me trazê-los a esta abstração, mas é só neste quadro limpo que a gente pinta ideias novas. É que amadurecer em um ambiente natural traz esta noção estranha de relatividade e de que estamos em plena marcha ao túmulo sem saber muita coisa do mundo e da vida. Mas deixo aqui o meu amor afiado e minha fé na humanidade.


Abraçar minha noção de mortalidade sem precisar que me provem que o mundo espiritual exista foi fundamental para que a direção fosse lançada adiante na seguinte pergunta: “magia” para quê?


Talvez porque “Magia” seja a arte de “imaginar” uma “imagem” tão real que ela “possa” a ser percebida como tal. A “imaginação” é a semente da criação, e esta é a faísca divina que a humanidade recebeu em algum ponto da história da evolução. Por trás de absolutamente toda “criação” houve alguém para “imaginar”.


O grande influxo de informações que recebemos, diariamente, deixa pouco espaço para que novas visões de mundo sejam sequer imaginadas. Tudo nos chega em imagem, cor, brilho e contraste. Em som estéreo e alto volume. Tudo pronto e produzido para consumo imediato.


Estamos perdendo a capacidade de visualizar, de sonhar e de imaginar. E com isso, de meditar, de colocar tudo na tela branca da mente antes de termos uma opinião sobre qualquer coisa. Estamos fadados a repetir as mesmas expressões e opiniões de especialistas sobre tudo, mestres e doutores de quem nada sabemos, e a repetir a história, novamente, e novamente. O mundo anda louco porque as pessoas do mundo estão loucas tentando fazer a diferença com ideias repetidas e ações iguais. Mas disso você já sabe. Ou pelo menos tem este desconfortável sentimento de que não estou assim tão enganada.


O contexto tem sido descartado para caber em formas, porque formas são mais previsíveis e manipuláveis.


Aqueles que pelo menos têm a capacidade de pressentir esta tirania da forma sem contexto tentam traduzir, muito frequentemente, em termos não binários. Talvez esta seja uma forma de limpar o quadro das muitas ideias implantadas no ideário ocidental sobre a cor da magia, do que seja paraíso, inferno, de homem e... de mulher.


Cabe o questionamento de que uma vez retirado o valor dado à forma, haveria pouco espaço de sustentação moral. Se não “soubermos” o que é uma “mulher”, o que nos restaria saber sobre este ser senão o que ela de fato “é”? Certamente, teríamos que no mínimo entender o contexto ao redor deste ser. Como vive e o que come? E acredito que seja assim, através destes questionamentos que poderemos compreender todas as diferentes ideias do que é este ser, mulher.


Lugar de fala é para cada um e uma de nós. Lugar de ouvir é de todos.


Mas me fale de você. Diz pra mim onde dói. Conte-me como você achou que precisava que o outro lhe desse poder, que te validasse, que te respeitasse. Diga-me porque o outro é importante na sua vida. Explique-me como você trata seus amados e amigos, e como você trata seus inimigos e desafetos. Conta-me dos seus sonhos, das suas metas e obstáculos.


Mas não me conte uma história de sofrimento emprestada dos seus pais e nem dos seus dignos antepassados. Conte-me da sua. Do seu ponto de partida nesta jornada de heroína. Conte-me sobre as cartas que te foram dadas, porque ninguém escolhe com que cartas vai jogar nesta vida e quem aceita isso chora menos, não é? E me conte como tem tentado superar. Errando e acertando, e fazendo diferente a toda vez. Quem sabe na milésima pedra se esconde a pepita de ouro? E vamos torcer para que não seja de tolo. Sonhos mudam, se superam, se expandem.


Veja bem, tenho imensa gratidão às feministas que vieram antes de mim, por terem morrido por mim, por terem apanhado, lutado e sofrido por mim. Sem elas, talvez nem pudesse estar emitindo uma opinião pública. Entender a história é crucial para não repeti-la, mas ninguém abraça o poder no pódio de vítima. Superar é um trabalho duro e dedicado de abraçar um aprendizado. E nem sempre o aprendizado vem sem dor alguma.


Imagine se pudermos, a partir deste quadro em branco, criar um novo jeito de pensarmos a nós mesmos? O que somos e no quanto de potencial mágico realmente temos? Imagine isso.