• Katy Frisvold

Feliz encontro, feliz partida.


S. Dali - A Persistência da Memória

Quando eu era uma menina os ponteiros do relógio soavam tão sonolentos que pareciam se mover sob a água, hipnóticos e modorrentos. E eu me agitava sob estes ponteiros, com a impaciência e energia de quem tem um mundo para conquistar. Hoje e os ouço como implacáveis botinas marchando sem parar, enquanto um silencioso chicote de obrigações paira no ar, e escrevo nos curtos hiatos que antecedem cada golpe.


Não sei bem quando foi, mas de repente percebi que não tenho mais tempo para perder com você.

Antes eu até perdia tempo tentando te mudar. Hoje, eu penso que se conseguir mudar algo em mim a tempo de aproveitar um pouco melhor a jornada, já está de bom tamanho. E tenho tanto para aprender e tanto para mudar!


Já perdi muito tempo culpando os outros sobre as mazelas em que me coloquei, e também de outras em que eu fui colocada, às vezes sem protesto. Já perdi muito tempo esperando que tudo se resolvesse como num passe de mágica ou que outros tivessem uma súbita consciência e responsabilidade. Perdi ainda mais tempo pensando que o exemplo tem que surgir do outro, lógico que sem perceber que escolhia reagir a tudo e a todos. No final, percebi que perdi muito tempo pensando que não dependia de mim ser feliz e decididamente, não vou cometer este erro de percepção contigo. Estou me desapegando de você.


Mas é que sempre havia sempre algo: Primeiro era o pai, a mãe, os irmãos e amigos. Depois o círculo de culpados se ampliou. Pessoas e situações. E eu achava que se as pessoas ou as situações mudassem, eu seria feliz. E então ser feliz então era uma coisa para amanhã, como um ponto final de uma história de vida escrita nos moldes de contos de fadas.


Felicidade era a minha meta e assim não houve no mundo qualquer obstáculo ou pessoa que eu não tenha me ressentido ou lutado, ora gritando como vítima das pessoas ou das circunstâncias, ora empunhando uma espada. Reagindo. E entre uma luta e outra só vi o que estava fora, sem perceber que tudo era espelho. Que vi nos outros o que recusava em ver em mim mesma. Que desejei para mim o melhor, e menos para o outro porque não via que o outro... o outro sou eu!


Eu quero fazer diferente: desejo então que você seja feliz. Do fundo do coração.

Percebi que eu me afastava da felicidade sem perceber, mas veja bem: definir a felicidade é algo assim... complicado, não é? Afinal, com quantas brigas faz-se a paz? Ser feliz e estar contente é a mesma coisa?


O que é que me faz feliz? É o mesmo que te faz feliz?


E o que é felicidade? Se você visualizasse um mundo para você ser feliz, que mundo seria esse? Seria ele um mundo povoado? Ou seria uma torre solitária feita de tijolinhos de preconceitos? De toda forma, seja que mundo for este, permaneço firme no meu desejo de que você seja feliz.


Eu não sei o que você pede na sua oração. Não sei nada de seus sonhos e do que te deixa acordado. Eu não sei se você acredita que a felicidade seja permitida nesta vida em que você vive. Na verdade, eu não sei nem se você quer ser feliz. Vendo como o mundo está, acho que poucos querem a felicidade. Parece-me que a maioria prefere estar certa muito mais do que quer ser feliz.


E eu quero ser feliz. Não amanhã, mas agora. Posso?

É, eu não tenho mais tempo para brigar. Eu não tenho mais tempo de te convencer do que é importante para mim, nem de defender o que é meu prazer e muito menos criticar o seu. Perdi tanto tempo até entender que para ser feliz eu teria que esvaziar as minhas grandes convicções e abrir espaço para as minhas muitas dúvidas... que hoje eu acho (e só acho) que só com estes espaços vazios é que eu tenho a capacidade de me preencher de maravilhamento. Mas isso sou eu. Eu não sei a receita para te deixar feliz. Você vai ter que encontrá-la sozinha.


Tardei a perceber que não devo preencher o silêncio com as minhas inseguranças, e que não poderia atrair doçura com meu fel. Que a função reina senhora absoluta e que a forma é bem menos importante. Só assim eu pude observar que gente feliz não importuna ninguém. Mas como poderia saber disso se eu nem sabia o que eu queria para ser feliz?


Então que a mudança aconteça agora. Que eu não espere mais que você mude para que eu comece a ser feliz. Se a felicidade é real, ela existe muito além e apesar de você. Da mesma forma, ela existe mesmo que eu esteja ocupando este espaço. Então vá. Vá ser feliz! Aquele abraço!



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