• Eduardo Regis

Exu é teu sangue!


Átila Nunes, ou melhor, o corpo de Átila Nunes. Na foto, um Exu. Foto tirada em 1957.




É sangue que corre na veia do moço que faz a casa de Exu ser edificada. Em outras palavras, moço, é o seguinte: sem Exu não se faz nada!



Exu é uma figura que fascina. Capas vermelhas e pretas com lantejoulas ou sem. Chapéus, cartolas, tridentes, marafos, charutos, farofa e risadas. Tudo isso nos remete ao Exu – o grande agente mágico Brasileiro. Um mistério genuinamente nosso que faz ferver o caldeirão da Brasilidade. Eu sei que vocês estão acostumados a me ver falando de Vodou e devem estar estranhando eu vir agora com esse papo de Exu. Embora eu seja apaixonado pelo Vodou, sou Brasileiro e tem algo nisso que não me deixa parar de me encantar por Exu. Mesmo que eu não entenda muito de Exu, quero dividir com vocês impressões que tive ao trabalhar brevemente com essa entidade. Portanto, vamos dar licença que é hora de Exu brilhar um pouco por aqui.


Muitas pessoas muito mais qualificadas do que eu já escreveram bastante sobre Exu e se eu tentasse discutir o mais do mesmo, faria feio. Como passar vergonha não está nos meus planos, minha abordagem será diferente. Eu quero discorrer sobre a razão pela qual Exu me parece tão fascinante e tocar levemente em como eu entendo a ação dessa entidade. Estou certo de que muitos discordarão. Tudo bem. Espero que as vozes dissonantes se transformem em textos de diálogo para, quem sabe, publicarmos até por aqui.


Prometi a mim mesmo que não iria conceituar Exu. Não vou. Entretanto, eis o que acho dele: Exu está lá e aqui. Exu é de lá e de cá. Exu não conhece caminhos impedidos. Exu está perto o suficiente e longe o bastante. É nesse “entre”, nesse limiar, que me parece que Exu “habita” – e isso é grande parte do seu caráter. Por exemplo, ao estar à margem, Exu se reveste de uma capacidade de transgredir própria de quem consegue (justamente por conta dessa “intangibilidade”) alcançar o âmago das coisas. No caso, o nosso âmago. Parece que o limiar que Exu é não é um “estar à parte”, mas é um “fazer parte”, porém sem toda aquela rigidez de quem não se libertou.


Deve ser por isso que Exu e Pomba-Gira (e entendam que quando me referir ao Exu, estou me referindo aos dois) geralmente são compreendidos como malandros, bandidos, prostitutas etc. Não dá para achar que realmente todos esses espíritos eram necessariamente esse tipo de gente em vida. Pessoas transgressoras e livres aparecem de muitas maneiras, mas será que a professora que resolveu ensinar meninas quando era proibido pareceria ou revolucionária ou chamativa o suficiente? Talvez exista a necessidade de uma “hipercaracterização” – e é nesse exagero que vemos nossa imagem como veríamos nosso reflexo numa casa de espelhos. Nesse reflexo caricato e distorcido teremos a chance de perceber com maior facilidade o que é nosso e também o que nos cabe, o que nos é ridículo e exatamente o quanto devemos nos preocupar com a opinião alheia (spoilers: absolutamente não devemos nos preocupar com a opinião alheia).


É essa possibilidade de quebra de moldes e de expansão do espírito – uma espécie de libertação, que me fascina fortemente. Não nos enganemos, o Brasil é um país de tensões culturais. A matriz Católica nos puxa para a culpa (comeram a maçã né...), mas a matriz Africana (que é sim tão constitutiva quanto a Católica) tem outras questões e as coisas vão se encaixando de maneiras surpreendentes, mas nem sempre em uma construção pacífica. Enfim, eu não quero encher vocês com minhas teorias baratas, mas acredito que essa questão toda seja bem conhecida e bem batida. Fato é: só uma figura de natureza do “entre” mesmo conseguiria navegar como uma “válvula de escape” nessa sociedade nossa.


Então, Exu me parece ser uma maneira muito própria também de se puxar o autoconhecimento. Sei que geralmente o Exu é compreendido como uma “ferramenta”. Usa-se para fazer trabalhos – amarração, ganhar dinheiro etc. Nada de errado em ter em mãos uma ferramenta prática. Todos nós precisamos e queremos navegar pelo mundo de maneira mais confortável, entretanto, parece-me (e devo aqui assumir que foram os livros de Nicholaj Frisvold que pela primeira vez me despertaram isso) que haja mais em espíritos que são parte nossa ou que andam juntos conosco do que apenas meios para um fim concreto.


Assim, como nós falamos de uma entidade que reflete parte nossa, é possível que tenhamos algo a aprender convivendo e “estudando” essa figura. Ora, se nos conhecemos, tudo muda e o mundo passa a ser pleno. Há diferentes partes nossas, é claro. Algumas serão mais conectadas a determinadas coisas do que a outras. Essa, que faz parte ou que é o Exu é particularmente interessante, pois ela trata de coisas que talvez rejeitemos sobre nós mesmos – e que caso aceitemos, nos tornaremos muito melhores (sem conotação moral aqui) dentro do nosso universo.


Por isso parece-me que exista tanta advertência sobre os perigos do Exu. Ora, como lidar com coisas que são partes da chamada “sombra” sem esperar algum risco? É preciso, me parece, ter os dois pés fincados muito bem e com muita clareza no chão para que possa realmente se tirar proveito desse tipo de trabalho. Caso contrário, podemos sim alimentar nossos vícios e desvios. Entretanto, se não descermos até aonde as coisas das quais não gostamos estão, não vai dar para tirar elas de lá. Não dá para compreender o que não se conhece.




Acho que me fiz entender. O Exu é algo desafiador e eu acho que é fundamental puxarmos desafios para nós. Só o fogo forja o metal mais resistente, mesmo que depois seja necessária a água para a têmpera. Devemos nos lembrar, porém, de que o fogo nunca fará seu trabalho sem arder. Portanto, o fogo que queima em Exu é uma das oportunidades que temos para realizar essas transformações. A questão é: seremos fortes o suficiente para aguentar esse processo? Cada um descobre por si, se ousar queimar um pouco os dedos.


Lembro que o rubor do fogo encontra a água após a têmpera e este mistério está no sangue grosso e vivo. Sangue que é o calor que corre o corpo e é a água que emana o fogo. O sangue, uma lava do humano, um hálito de dragão que corre feito rio, é a força condensada de muitas provações, eras e pessoas. Não tenho dúvidas de que o fogo de Exu queima também nesse sangue que nutre nossas vidas e que vai além das nossas mortes.

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