• Raphael Kakazu

Ensaios: O Preço da Arte


“Nunca devemos admitir como causa daquilo que não compreendemos algo que ainda entendemos menos”

Precisamos conversar sobre uma coisa muito importante hoje, principalmente hoje onde tudo parece se resolver com um feitiço de prosperidade na lua cheia e uma maldição na lua negra. O mal do marketing digital misturado com a pseudo-feitiçaria dos que preferem a exposição em demasia e a leviandade ao invés do autoconhecimento e aprofundamento do que realmente é a arte de manipular energias.


É entendido que a natureza de todas as artes é uma balança, motivo pelo qual dizemos que tudo e todos têm um preço; nada é gratuito. A natureza provê para então retirar, a vida floresce para fertilizar na morte e assim seguimos com inúmeras possibilidades metafóricas. Logo, o que quero dizer é que até mesmo a magia tem seu preço; e hoje não estamos falando sobre o valor cobrado por aqueles que vivem deste Ofício, estamos falando daquilo que damos em troca pelo sucesso de um feitiço bem realizado.


O preço para se mexer no novelo das Moiras é a vida; a fonte que abastece a prática da magia é a própria energia vital do praticante; motivo pelo qual quanto mais adentramos nesse universo, mais cautelosos nos tornamos sobre quando se faz necessário realizar um feitiço propriamente dito; afinal, viver uma vida de bruxaria e feitiçaria engloba muito mais do que fases lunares e ingredientes queimados numa pira.


“A beneficência é sobretudo um vício do orgulho e não uma virtude da alma”

Não nos enganemos com o pensamento de que o bem também não possui seu preço; estamos falando aqui das forças duais que permeiam todo o universo, então, não existe dois pesos e duas medidas; tudo é catalogado e descontado da nossa “conta corrente” vital. Pensemos em um feitiço para abençoar um(a) adolescente que está adentrando a vida adulta, por exemplo.


Juntou-se dentro de um azeite de alta qualidade uma raiz de cálamo aromático, um pedaço de canela, um punhado de resinas de mirra e uma pitada de gengibre tailandês como uma fórmula de um óleo santo. A união dos ingredientes é uma alquimia, um preparo cuja finalidade será abençoar algo ou alguém. Escolheu-se então uma lua nova, ascendeu-se uma pira imensa para que as chamas tocassem o céu e lá foram jogadas ervas de Júpiter para que o Rei do Olimpo abençoasse o feitiço e o enfeitiçado.


Na hora de Saturno de um dia venusiano, ungiu-se o abençoado, entoaram-se encantamentos em línguas mortas, agradaram as forças aliadas com pão, vinho e sangue; e assim findou-se o feitiço; a pessoa seguiu a vida, prosperou e foi agraciada pelo divino mistério da magia.


E então, pensemos juntos: Onde entra a força vital em tudo isso?


Tudo o que foi utilizado na cerimônia desde os óleos, as ervas, os encantos, as configurações astronômicas e os agrados foram símbolos para contar uma história (inclusive meu primeiro artigo dessa série de ensaios foi sobre isso, você pode ler clicando aqui) e não uma forma de “troca”. Para que tudo isso funcionasse, consumiu-se energia vital, doou-se um pouco de vida para terra a fim de colocar a boa sorte no caminho daquela pessoa; essa foi a moeda de troca para se causar uma mudança sobrenatural no curso de vida daquele enfeitiçado.


Cruel na visão de alguns e óbvio na de outros, esse fluxo parece ter sido apagado dos ensinamentos mais modernos. Condicionam os novos praticantes a respeitar éticas e moralidades humanas, mas não o advertem sobre o preço que se paga pelo conhecimento e pelo sucesso de seus feitiços como demanda a natureza mais primordial; fala-se da natureza como a provedora, a benfeitora e como aquela que “necessita” de nós quando, na verdade, somos nós que necessitamos dela e a ela recorremos quando necessitamos de algo. E esse algo nos é cobrado numa medida equivalente ao que buscamos. Não podemos comprar um carro a preço de moto, só para deixar mais claro.


“As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins.”

Gosto muito dos escritos de Donatien Alphonse François de Sade, vulgo Marquês de Sade, por conta das reflexões que ele propõe sobre individualismo e humanidade; motivo pelo qual ele está sendo citado ao longo desse ensaio. Também fui inspirado por outro texto que também abordou esse tema, clique aqui para acessá-lo, ele foi escrito pela Petrucia Finkler há algumas semanas atrás.


Bom, a essa altura acredito eu que todo mundo já entendeu o meu raciocínio sobre como a magia funciona; gosto de dizer que tudo aqui condiz com a minha realidade e por ela apenas eu tenho direito de discorrer e isso implica que haverão opiniões contrárias às minhas e tudo bem, seguimos a vida do mesmo jeito. A natureza vai continuar cobrando seu valor, nós continuaremos pagando e se para o ego é necessário encará-la como doce e provedora apenas, que seja feito dessa forma.


Lembremos, contudo, de que dualidade não é um conceito simbólico dentro dessa arte noturna, é literal, visceral e, por vezes, indiferente às intenções humanas. A mesma datura stramonium que concede o extático voo das bruxas, também traz o beijo da morte; a mesma ruta graveolens que diminui as angústias da ansiedade, também traz as dores do aborto, e assim por diante. A natureza por vezes é cruel aos olhos humanos, e ao mesmo tempo encantadoramente bela, mórbida e misteriosa aos olhos de um feiticeiro.


“Antes ser um homem da sociedade, sou-o da natureza.”

E assim termino este ensaio cuja intenção não é provocar medo, receio ou aversão, mas trazer luz para o que realmente acontece quando se mexe com magia, quando se quer entender e comungar com a natureza na sua forma mais selvagem. Pagar pelos benefícios que podemos causar não é errado, muito menos indigno, é natural e harmônico; contraditório é o desejo apenas de receber, sem prover nada em troca.

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