• Raphael Kakazu

Ensaios: Amianto

“Moça, sai da sacada. Você é muito nova, pra brincar, de morrer. Me diz o que há, o quê que a vida aprontou, dessa vez? Venha, desce daí. Deixa eu te levar pra um café, pra conversar. Te ouvir”



Dizem que a bruxaria te muda ou te mata durante o processo. Uma metáfora sensacionalista, cheia de drama e também de verdades. É fato que na vida ao longo do nosso crescimento e desenvolvimento somos apresentados a situações que horas nos mudam e horas nos matam. Quantos pedaços de nós estão velados nas memórias que enterramos no fundo de nossas mentes? Quantas vezes fomos postos a provas de fogo das quais não achávamos que iriamos sobreviver?

É um discurso meu sempre usar a bruxaria dentro dos meus escritos, horas como parte da minha história e horas como figura de linguagem, mas sempre partindo de um único pensamento: Falar sobre a vida também é falar de bruxaria. Não aquela onde erguemos castelos e rodamos moinhos, mas aquela que nos resta quando o Diabo nos pega na curva da encruzilhada e nos joga em nossas próprias jornadas com nada mais, nada menos que nós mesmos.

Então, meus caros, podemos sim parar de romantizar tanto essa jornada e nos dar oportunidade de reconhecermos o quanto mudamos ao longo dessa trilha, o quanto já morremos e renascemos das cinzas da própria fogueira do Sabbath e como isso nem sempre foi fácil. E se de alguma forma vocês estão aqui lendo meus devaneios é porque também sobreviveram; também aprenderam sobre o que é bruxaria por trás da romântica escrita literária e dos luxuosos cenários montados. E vejam bem, quando eu digo parar de romantizar não estou incentivando uma visão pessimista e melancólica, mas sim uma de apropriação sobre todos os fatos que já nos ocorreram.

“Venha, desce daí. Deixa eu te levar pra um café, pra conversar. Te ouvir. E tentar te convencer. Que a vida é como mãe. Que faz o jantar e obriga os filhos a comer os vegetais. Pois sabe que faz bem.”

Entendam, meu texto não é sobre dores, amargores e muito menos sofrimento. Pelo contrário, quero ter com vocês uma conversa que tive com poucas pessoas nessa vida; uma conversa sobre a dificuldade do processo sem torna-lo um livro de autoajuda porque tem horas que precisamos dizer que não tem sido fácil, que doeu e que de alguma forma ainda dói. Porém, uma vez que atingimos o fundo do poço o único caminho é o da ascensão de volta para o mundo, para o sol e para a sociedade. E que bonito não? Ascender depois da queda para uma nova realidade.

Por vezes sinto que revivemos constantemente o mito de Azazel. Nos apaixonamos, caímos, e então levantamos para descobrir um leque de novas possibilidades à nossa frente; de poderes que podem nos abrir portas, que nos permite encantar o nosso ao redor e assim por diante.

O fato é que estamos onde estamos devido ao tanto de vezes que nos quebraram, nos usurparam de sonhos e nos redirecionaram para outros caminhos. Aprendemos que o nosso maior poder, a nossa magia, é transformar o medo em coragem, a insegurança em oportunidade e a dor em esperança; tudo isso sem ninguém, sem nenhum ser divino onipresente guiando nossa mão e dizendo “vai ficar tudo bem”.

“Mas, tudo bem, nem sempre estamos na melhor. Moço, ninguém é de ferro. Somos programados pra cair.“

E isso não quer dizer que não houveram outras pessoas ao nosso lado dizendo que tudo iria ficar bem. Pessoas que também estavam tão trincadas e estilhaçadas quanto nós, e que também estavam vivendo em suas jornadas. E essa é a beleza de anjos caídos; uma vez que todos caíram, todos puderam recomeçar, presidindo e sendo presididos. A jornada sempre será individual, mas a história não necessariamente precisa ser solitária.

E dessa forma acho que falei mais sobre bruxaria do que em qualquer outro texto meu, nas entrelinhas, entre nuances e à margem da história de mais uma pessoa nesse mundo. Mas não seria isso bruxaria no fim do dia?



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