• Katy Frisvold

Ensaio sobre a hipocrisia


Arte por @vault_editions
"A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude". - François duc de la Rochefoucauld

Hipocrisia é a ação de simular comportamentos e crenças em favor da virtude, mas não as seguir. Eu diria que talvez este seja um dos maiores problemas sociais da atualidade. Não que eu esteja aqui subindo num pedestal de integridade: há um pouco disso em todo mundo, e andamos por aí meio conscientes ou inconscientes de que este essa coisa feia esteja lá dentro de nós, escapando nas nossas falas e em nossas ações, todos os dias.


É o famoso “faça como eu digo, mas não faça o que eu faço”.


Poderíamos elencar uma miríade de vícios que andam espalhados nas muitas “opiniões” que vemos por aí, mas acredito que qualquer um possa observar por si. Com o avanço de pautas conservadoras que se alastram para dentro do discurso do populacho a partir do viés político e religioso, cobrem-se de virtudes virtuais os tipos mais pusilânimes possíveis. A resposta, como há de se esperar, é uma enxurrada de opiniões moralmente “superiores”.


De repente temos os protetores dos mais frágeis, que não estão realmente protegendo os mais frágeis, mas tão somente adotando um discurso hipócrita. Gente que fala dos mais vulneráveis sem nunca ter passado por uma real vulnerabilidade na vida.


No meio esotérico, não é difícil encontrar estas “almas superiores” cheias de virtudes, “ultra-espiritualizadas”, que preferem engrossar as fileiras de guardiões da moral e da ética enquanto se ocupam em ouvir com mal disfarçado deleite das dificuldades dos outros. Outros ainda, em espalhar. Templos espirituais inteiros dando foco à contenda, numa distração do real poder agregador em que as tradições repousam: o amor.


E todos nós perdemos. Todos.


Eu tenho a impressão que nobreza tem desaparecido em algum canto mal iluminado da sociedade. Que esta sociedade ande sofrendo de sociopatia, ou seja, de uma crescente falta de empatia à condição humana que já começa lá no topo da pirâmide social.


Outro dia ouvi alguém dizer: “É possível perdoar o pecado do pecador, mas jamais a do pregador”. Eu concordo. Mas ninguém parece estar ligando muito para isso. Anda todo mundo muito ocupado em determinar uma régua imensa aos outros, mas sem medir a si antes. Talvez se o fizessem não sobrariam tantas “opiniões” por aí.


Se assim fosse, talvez a coerência entre o discurso e a ação começasse a regular as relações. Talvez ficássemos menos ocupados em encontrar a figura do diabo nos outros. E talvez, só talvez, começaríamos a imaginar, pelo menos, o quanto aperta o sapato do outro antes de abrirmos a boca.


Sem empatia estamos todos divididos.


Sem empatia estamos todos perdidos.

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