• Eduardo Regis

E os sapos fugirão...


Imagem de Ajotasan por Pixabay.


Estou caindo na face pluridimensional de um Deus venerado na corrida espacial. Sinto-me bastante especial. A Terra esfria mais e mais e eu me esqueço do que é sentir calor nessas artérias entupidas de sapos engolidos que se mexem e soltam grunhidos guturais. Estou perdido em maratonas psicossociais que me obrigam a sorrir e dar bom dia a esses animais que vivem para comer, foder e me irritar.


Animaizinhos, animalzões. Gordos, magros, burros, todos burros e falastrões. Andam de verde, com tons de amarelo e se me perguntar de verdade o que eu quero, lhes direi que daqui, do altar do gelo ultimal eu desejo mais e mais que todos se enforquem no cordão umbilical que os conecta ao guardião de tudo que é boçal – um Deus amado nessa nossa era tropical.


Na padaria peço pão, mas queria pedir veneno. Pelo espelho do balcão vejo a sombra clerical de um sacerdote da mais pura involução total. Ele ri, vocifera abobrinhas temperadas com sazón de absurdos e jocosamente faz uma dancinha da vitória levantando as mãos dezessete vezes enquanto gargalha. Pego o pão e jogo no chão. Quem aguenta comer num lugar desses? Morrerei de inanição que é mais sadio.


Na volta vejo um mamute transeterico atravessando a rua no sinal. Estou certo de que é uma revelação da glândula pineal. Ajoelho-me encantando em um instintivo ritual que me leva a uma ilha perdida no umbral onde signos explodem no céu invernal enquanto o Rei do Entre-estar me abraça e me beija na testa suada da ira que senti na padaria e me diz que eu e ele somos verdadeiros amigos. Eu levanto-me. Estou salvo.


Chego a casa e me jogo no sofá. A televisão ligada que esqueci antes de ontem canta sobre mortes e morte sem fim e a voz daquela jornalista sem graça parece que canta somente para mim. Eu sei que essa letra é sem graça e a melodia um arranjo maldito de uma orquestra desafinada. Eu já conheço toda essa miséria. Eu também já sei que a coisa é toda muito séria. Já entendi que vamos todos morrer.


A palhaça da cultura está abraçada com aquele tal de João-ninguém da cintura e cantam louvores a um céu tempestuoso repleto de anjos pegando em armas. Desligo a televisão. Minha cabeça dói. A quinta dimensão me puxa novamente e sou tragado por um vértice de horas no qual obedeço a comandos autômatos de um demônio neurótico. Assim como me engoliu, ela me cospe e estou novamente lançado na minha cama. Acordo e penso na grana e no dia que brilha com raios solares que vão me causar um câncer de pele.


Hoje é dia, quem diria. O discurso do Deus tropical, aquele merda e cagão, finalmente mostra seu bafio. Ao voltar para casa estou ferido. Um espinho no peito, outro no pé e uma faca nas costas. A carta no bolso da calça me faz elogios, mas me manda nunca mais voltar. A quinta dimensão me rejeita e eu não sei o que farei amanhã. Entro nos websites e as promoções que vou perder me sufocam e as modelos sem roupa das câmeras que me provocam querem mais e mais de mim.


No dia seguinte, estou sem o Deus pluridimensional. Na semana seguinte, estou sem comprar e assistir jornal. No mês seguinte, desprovido do meu apoio habitacional. No ano seguinte, estou em uma explosão de água de chuva, trovões de cargas elétricas e galhos de árvores que sacodem. Sentado na rua, aquilo me lava. A madeira corta minhas chagas já abertas e se tenho algum sossego é pela razão das moscas não voarem debaixo de um temporal desses.


Finalmente, depois de comer amêndoas caídas por um ano inteiro e de caçar as mangas que dão nas ruas (não achei), tomo coragem para pedir ajuda e demoro umas dez pessoas para lembrar como se fala, pois quem realmente se cala, não quer mais voltar a pronunciar sequer uma única sílaba. Aí me lembro da fila do pão e dos fiéis desse Deus de merda e achei que melhor que pedir ajuda era eu mesmo me ajudar. Agarro a faca de cortar manteiga e dessa vez faço meu pescoço de pão. O sangue que brota finalmente me faz lembrar do que é sentir calor e os sapos todos fogem, grunhido coisas incompreensíveis. Sorrio, pois disso ainda lembro e debaixo de toda aquela barba ninguém vê que eu sorrio genuinamente.

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