• Paulo T. Vasconcellos

Deus é um Pai Ausente e a Criação é uma Mãe Dominadora.

"Mas Livrai-nos do mal, Amén."




As orações de origem semítica costumam trazer o encerramento "Amén", ou ainda locução "Amén, Selá". Ignorem, por favor, o uso do "n" no final da palavra: essa regra gramatical é típica do português.


"Amén" foi incorporado pelos Cristãos (que grosseiramente são o judaísmo rodinha-de-violão) e pelos Muçulmanos (que basicamente são o judaísmo adolescente skinhead numa fase complicada) e não tem uma tradução clara. Muitos traduzem como "é verdade", ou ainda "Assim Seja", o que não faz o mínimo sentido, e, oficialmente, portanto, tem seu sentido perdido nas areias do tempo.


O que ajuda na etimologia dessa palavra é que as línguas semíticas omitem as vogais. Amén, portanto, se escreveria como Aleph-Mem-Nun, ou, transliterando para o português, A-M-N.


Os Egípcios (de onde mitologicamente os Hebreus escaparam) tinham como "Deus Primordial" (em uma das vertentes, eu sei) Amon-Ra. Amon significando escondido ou oculto, Amon Ra seria o Sol Oculto. A Gnose Saturniana defende que Saturno seria esse Deus Oculto.


Considerando que quase metade dos mandamentos diz respeito a não ter imagem ou nome para a divindade e considerando que, pela cabala, o Criador "se retraiu" para criar espaço para a Criação, faz muito sentido que o judaísmo seja, na verdade, uma religião egípcia sem cabeças de animais e pirâmides maneiras.


"Amén, Selá" se traduziria então como "A Ti, Deus Oculto".


Obviamente existe certa simplificação: existem diversas fases do Egito, a reconstrução da teologia egípcia depende de textos em segunda mão (gregos especialmente) e descobertas arqueológicas (por definição imprecisas) e mesmo o judaísmo não é uniforme: houve uma notória "rodinhadeviolonização" do judaísmo depois que o Cristianismo começou a ganhar mercado.


A parte importante, porém, é que a figura da divindade fora da criação é bem difundida: Amon para os Egípcios, Amén para os Judeus, Bondieu para o Voodoo, Olorum para o Candomblé e Zervan Akarana para os Caldeus são os exemplos que me vêm à cabeça.


A grande ironia é que da tese de que o Demiurgo estaria fora da Criação adviria uma série de heresias divertidas.


A primeira delas é que é possível se afirmar que deus não existe. Se o Criador está fora da Criação (para além do véu das estrelas fixas e no habitaculum dei pra Astrologia Tradicional), ele está fora do alcance humano. Sim, é meio sofisma, mas se uma árvore cai e ninguém ouve, afirmar que o barulho não existe é uma resposta tão boa quanto qualquer outra.


Estando deus fora da criação, ele não é exatamente a melhor instância de apelação pra resolver seus problemas: a realidade é dada, chorar (ou rezar) pra alguém que não ouve é uma péssima estratégia: deus ex machina (trocadilho imperdível) não funciona.


Também podemos concluir que um pontifície é, basicamente, um ótimo publicitário: o telefone de deus dá caixa postal faz tempo.


Por fim, partindo dessa teogonia do Criador inseminando a Criação, a Criação é, por definição, o que nos acompanha o tempo todo desde o começo. Aquilo que se apresenta inicialmente é tido como o padrão e o diferente como surpresa. Quem nasceu com a igreja condenando o aborto pode se surpreender ao saber que São Tomás e Santo Agostinho eram surpreendentemente tolerantes com o aborto.


O hábito é uma prisão insidiosa.


O que nós vivemos todos os dias se torna o padrão, e o padrão é o esperado. Toda a ciência se resume à análise dos padrões. Vivendo cada dia na mesma rotina é difícil imaginar que outra Vida seja possível, outra realidade, outras cores, sons e sabores.


Deus é um pai ausente e a Realidade é uma mãe dominadora.


Talvez isso explique porque a gente passa tanto tempo tomando no cu.

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • cartaicone