• Elisa Taborda

da Sala de Jantar



É sábio proteger-se com máscaras... nunca se sabe quando encontraremos as significações rígidas alheias para tomar uma xícara de café, ou uma cerveja barata num boteco. É preciso localizá-las bem no centro do rosto, esconder quaisquer pedacinhos à mostra, aparar arestas que nos denunciem. 


Uma boa máscara funciona como um espelho das expectativas de outrem. Não é preciso observar muito para compor a sua: certas expectativas universais não costumam exigir análise muito apurada. Baseiam-se na manutenção de um lugar confortável e seguro, como um camarote: uma pequena cadeira, comida fracionada sentimentos fracionados crítica fracionada. Tudo na medida exata para não sujar muito a casa, para poder depois ser varrido para debaixo do tapete. É preciso poder esconder tudo das visitas, servir um insosso pavê de abacaxi de sobremesa e assim finalizar interações sociais já tão desprovidas de recursos transformadores.


Vocês pensarão: "quem é você e de onde vêm essas críticas mordentes?". Pois eu lhes digo que elas vêm do centro. Estou eu lá, presidindo minha sala de jantar, dando conta (e tomando conta) das ações e reações, das inflexões de olhares lascivos, dos pequenos gestos reveladores, dos gostos e desgostos de meus comensais. 

Sentados à mesa ou caminhando displicentemente por entre os móveis talhados a mão, discutem sustentabilidade e miséria como se do planeta não fossem a célula cancerígena. O assunto mal toca suas máscaras carnavalescas e engraçadinhas (eu juraria que esteve ali naquela noite um espécime da fauna política mascarado de Tiririca), enquanto bebericam educadamente taças de espumante. A educação, aliás, é a mola mestra das encenações de salas de jantar: dá o tom das conversas, e basta anunciar a "falta de educação" e o "aí já é vandalismo" para fazer cessar discussões incômodas, aquelas mesmas que ameaçam a ação corrosiva das individualidades proposta pelas máscaras. 

Onde estou? Minhas críticas ressoam de alguma fresta nas paredes, ou elas vêm da cozinha desses salões sociais? Minha voz é a força da resistência? Ela se manifesta nas ruas e clama por Liberdade? Igualdade? Fraternidade? Esgueiro-me pelas frestas do comportamento tradicional e reacionário para, de dentro mesmo desse sistema, implodi-lo? Estaria eu envenenando a sopa das salas de jantar enquanto rio de piadas prontas compradas no varejo? Haveria pessoas por trás de cada máscara, haveria máscaras usando máscaras que usam máscaras que usam...?

Não, caro leitor, não me procure pelos cantos. Mantenha sua atenção voltada para o centro do salão, para as rodinhas barulhentas de comensais agora já relaxados pela fumaça dos charutos (charuto pode?), pelo calor provocado pelas taças de espumante. Observe atentamente a direção dos olhares, essas janelas de almas infantis empenhadas em seguir conveniências para não ficar sem sobremesa. Talvez elas nem gostem tanto de abacaxi, mas já faz um tempo que as preferências pessoais deixaram de ser determinantes. Procure no vestido mais bonito, nos lábios mais empenhados na sedução, no medo mais profundo e irracional do abandono. Procure na sofreguidão, no trabalho mental mais vigoroso, nos planos mais mirabolantes para atrair a atenção dos convivas. Procure no desespero silenciado, em uma atuação cujo objetivo imediato é ser agradável e incômoda na pequena medida certa: surpresinhas inofensivas. Desastrado o garçom... uma taça cai. Silêncio.

Como poderíamos prever? De repente estamos aqui, eu e você, parados frente a frente, a taça em pedaços no chão de carpete. Fosse um despertar geral, não seria mais uma sala de jantar. Seria um mundo inteiro, vivo e pulsante, pronto para as mais profundas e divinas experiências do espírito. Pena: foi apenas o seu despertar para mim, o meu despertar para você. Foi apenas você me vendo por trás de tudo e apesar de tudo. Foi você se dando conta da máscara que carrego, foi você com raiva dela e com raiva de mim, com raiva de nós... Fui eu com raiva da sua máscara, da sala, de mim, do mundo todo. Foi muita raiva... foi pouco amor ou amor demais.

Não quer ficar? Não fica. Não carrego mais comigo as rédeas de destino algum, nem traço artimanhas que me façam facilmente degustável, digerível. Pude enfim assumir escolhas outras, feitas sempre com o peso da reprovação que estampava olhos que só eu podia ver, sentada ali na primeira fileira das carteiras de colégio. Se eu voltar a sentir vergonha das minhas escolhas agora, perco o que de mais incrível conquistei, observando as salas de jantar e as minhas carteiras de colégio: perco a mim mesma. Aqueles olhos... é preciso admitir, eu ficava linda refletida neles.


Ceci n'est pas une pipe.

René Magritte






Imagem: fotografia que reproduz a obra de arte Le Déjeuner des canotiers, de Pierre-Auguste Renoir. 1880/1881.

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