• Katy Frisvold

Corona, um curioso limiar


Coincidências são aquelas coisinhas estranhas da vida. Alguns acreditam que sejam portentos de augúrios ou mensagens do subconsciente. Outros descartam qualquer hipótese como fantasiosa. Mesmo assim é inegável o poder de nos intrigar.


O Coronavírus foi chamado numa primeira fase de 2019-nCoV, e não consegui descobrir quem foi que criou o nome popular “Corona”. Logo na confirmação da pandemia em território nacional cheguei a acompanhar atentamente a rádio estatal (sou dessas) e às vezes o repórter dizia “a corona” e outras “o corona”. Essa é uma questão interessante quando em nossa língua temos que lidar com os gêneros, e relevante se observarmos a atribuição recorrente ao que é negativo como automaticamente de qualidade feminina.


Levou uns dias para que achasse também pitoresca esta coisa toda, porque me fez lembrar a tradução imediata à palavra “corona”: coroa. Um símbolo máximo da mulher.


Alguns podem até discordar disso, afinal, quantas representações vimos de mulheres coroando homens? O que mais crescemos lendo e vendo foi uma sucessão de homens (?) em túnicas pomposas (?) portando o símbolo máximo da “santa madre igreja”, um símbolo cooptado e eternizado na história escrita e na cultura do populacho, que a tudo aplaudindo, aceitou se converter em rebanho do pastor máximo de Roma.


Subjugaram o natural, o selvagem e carnal porque nenhuma mulher possível é pura como Maria, e porque ninguém sofre mais bonito do que ela. Modelão hein? Foi aí que nos tiraram a coroa para botar na santa que sofre ali, fria e calada, cercada por eunucos em vestidos.


Mas vamos um pouquinho adiante para pesquisar sobre este símbolo e formar uma opinião a respeito, me aguentem mais um pouquinho.


A coroa foi frequentemente associada com “vitória”, desde a coroa de louros de Apolo à coroa maçônica (representando vitória sobre a morte). Então voltemos a Apolo para lembrar que a coroa era a ninfa Dafne, que preferiu ser transformada pelos deuses do que ser estuprada por Apolo. Poxa Adão. Não é não!


Corona Australis, Jamieson,1822

Este mito se relaciona à Corona Australis (a Coroa Austral), que mantém outro mito bastante curioso sobre Semele, amante de Zeus e mãe de Dionísio. Dionísio não só resgata sua mãe do mundo dos mortos como coloca a Coroa Austral no céu como homenagem à mulher que o gerou. A coroa é da mamãe. Simples assim.


Interessante também é notar que o termo para parir um filho seja justamente “coroar”. Uma mulher “coroa” um novo ser humano com uma dor equivalente a vinte ossos quebrados. A coroa é nossa, sim senhor! Ganhamos o direito à ela a cada ser humano que encarna. É nosso limiar de carne e sangue. Tomem essa na cara, meninos.


Vitória! Já podes respirar! Você está vivo!


Penso que estamos num limiar estranho agora. Corona está vindo para ceifar e para lembrar que o mendigo e o rei nasceram de uma mulher. Talvez saiamos da quarentena mais conscientes do desequilíbrio causado pelo roubo deste símbolo, desta trindade onde a imagem da mulher foi substituída por uma ave.


Ok. Sei que peguei pesado com a turma de Roma, mas acho que é o mínimo que as pessoas fariam se soubessem de toda a história negra que rolou por lá e por todo mundo graças aos pontífices de Roma. Hoje em dia dá para pegar mais leve porque o atual Papa pelo menos não é um completo babaca. Eu até simpatizo com ele. Mas talvez por ser menos babaca é que tenha tantos babacas tentando tirar ele para colocar outro babaca-mor mais afinado com a babaquice retrógrada.


Voltemos ao assunto: Em geologia planetária, uma “corona” é um acidente geográfico com forma oval. O que será que ele te lembra?


Em tempo, é relevante que a palavra "coronavírus" perca o gênero novamente, mas agora que me encantei com o retorno deste símbolo, já começo a achar que tanto faz. O nosso lucro a gente já levou.

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