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  • Verónica Rivas

Cassandra Rios e uma mensageira chamada Maria Padilha

“Quem psicografará a história da minha vida?”, diz Cassandra Rios em seu livro “Maria Padilha”, com um tom desafiante para a sociedade da época. Odette Pérez Rios nasceu em São Paulo em 1932 e seria conhecida como uma figura transgressora no ambiente literário e social da conservadora sociedade brasileira das décadas do 60 e 70. Ela foi conhecida sob o pseudônimo de Cassandra Rios, inspirado na figura da profetiza grega. Sem lugar a dúvidas Cassandra se apresentou publicamente através de romances de alto conteúdo erótico, mas sobretudo lidando com um tema que era, e de certa forma continua sendo até hoje, tabu para nossas sociedades latino-americanas: a homossexualidade feminina. Odette, além de ser uma escritora de romances eróticos, era declaradamente lésbica e não se importava de falar abertamente sobre esse assunto. Mesmo que muitos identificaram a sua obra como pornografia, ela mesma nunca considerou sua obra como pornográfica, já que ela mesma dizia que seus livros falavam de sexo por amor e sem preconceito. Do sexo vivenciado plenamente.


O primeiro livro da autora, A Volúpia do Pecado, foi rejeitado por todas as editoras de São Paulo, motivo pelo qual a própria Cassandra publica o livro por sua conta com um dinheiro emprestado pela sua mãe. O livro fez tanto sucesso que foi reeditado várias vezes até que, em 1962, pouco antes da ditadura militar, o livro foi proibido e retirado por ser considerado contrário e ofensivo à estrutura da família tradicional e aos bons costumes. É que o livro tocava no assunto da homossexualidade feminina na figura de duas personagens adolescentes. Mas, Cassandra continuava escrevendo de forma persistente e chegou a ser, na década do 70, a primeira escritora brasileira a atingir um milhão de exemplares vendidos. Mas, assim como era um sucesso em vendas, a autora foi, sem dúvidas, a escritora mais perseguida pela ditadura. O governo da época a via como um grande perigo, não somente pelo fato que fosse uma autora erótica, mas também porque sabia penetrar em todos os estratos sociais, sobretudo nas classes populares. Por isto e pelo conteúdo dos seus livros, Cassandra se transforma em uma ameaça para a ditadura já que suas obras eram consideradas não eróticas e sim pornográficas, obras que despertavam uma nova vivencia da sexualidade no povo brasileiro.


A liberação sexual estava intimamente ligada aos movimentos contraculturais, que, por sua vez, estavam ligados ao pensamento de esquerda", explica Londero [1]. "Por isso, aos olhos da ditadura, editoras que publicavam qualquer coisa sobre a temática de sexualidade eram verdadeiras inimigas do Estado por serem promotoras da revolução sexual entre os brasileiros, sendo consideradas pelos militares ainda mais perigosas que a própria revolução socialista. [2]

A obra de Cassandra representava um grande problema segundo as autoridades do governo da época, já que para eles a mudança dos valores morais trazia consigo a mudança do sistema político. Para eles pornografia era o mesmo que comunismo. Em 1986 a autora é convidada para se candidatar como deputada estadual pelo Partido Democrático Trabalhista, mas ela não atingiu a quantidade suficiente de votos. Por causa da severa perseguição que sofreu a obra da autora, até hoje é muito difícil achar todos os títulos que ela escreveu. Cassandra chegou a ser chamada “a escritora maldita” e a censura fez com que ela perdesse o alto nível de vida que os direitos autorais lhe davam e tivesse que escrever sob o pseudônimo de um homem para poder se sustentar. Cassandra Rios morre em São Paulo no ano 2002.


Pessoalmente fiquei sabendo de Cassandra Rios no decorrer da minha pesquisa sobre a figura de Maria de Padilla, que para mim tornou-se um fascinante mito histórico desde que conheci, em um Terreiro há mais de 15 anos, uma entidade espiritual que levava o nome de Maria Padilha. É difícil para mim explicar o efeito que essa entidade me causou, mas o que posso assegurar é que a minha vida tem um antes e um depois de tê-la conhecida. Imagino que muitos dos que lerem esse texto sabem do que estou falando e compartilham comigo um profundo amor e devoção por esse maravilhoso espírito. O que começou para mim como a simples pesquisa da estudante de Filosofia que eu era na época, para me aproximar dessa entidade, transformou-se em uma indagação que transcendeu fronteiras físicas e mentais. E foi esse constante questionamento e uma aventura por velhos documentos históricos que me fizeram valorizar o que na minha adolescência eu achava algo absurdo: aprender caligrafia castelhana antiga. Sim, eu achava algo inútil a escolha que a minha professora de Língua Espanhola tinha feito e por isso tentei vivenciar isso como uma “aventura de conhecer coisas novas”. “Você nunca sabe quando pode precisar de conhecimentos que hoje você acha inúteis”, me dizia meu pai para me incentivar a estudar aquele absurdo!!! Ele estava muito certo!!


O livro “Maria Padilha” de Cassandra Rios é interessante por vários aspectos, mas sobretudo o aspecto psicológico e o histórico são os que mais se destacam desde a perspectiva da minha pesquisa. Como veremos nos fragmentos que transcreveremos mais à frente, temos nessa obra uma descrição de Maria Padilha desde uma perspectiva psicológica que abunda em detalhes e que foca na importância desse espírito no caminho espiritual da personagem. Um detalhe significativo é que em nenhum momento da obra aparece a palavra “Pombagira” associada a Maria Padilha e nem a nenhum outro espírito dos que ali aparecem. A figura de Maria Padilha aparece aqui também fazendo ênfase na estreita relação que existe entre a nossa mente, as nossas atitudes e as escolhas que fazemos na nossa vida, assim também como no entorno espiritual do qual emergimos. Geralmente tendemos a interpretar a nossa vida como se cada área dela estivesse perfeitamente delimitada e diferenciada uma da outra, mas em um sentido profundo isso não é mais que uma ilusão. Neste livro, Cassandra Rios adquire o papel de uma mensageira, afirmando que o que está escrevendo são fatos. A própria Cassandra expressa que ela mesma lutou e se debateu por conta de ter uma grande dificuldade em acreditar na força de entidades cósmicas, como ela chama, e nos espíritos. Muitas vezes, ela teve esses fenômenos frente aos seus olhos incrédulos e tentava dar uma explicação científica àquilo que era incapaz de negar. Dessa forma, “Maria Padilha” é estruturado como uma mensagem através dos acontecimentos da vida da personagem Lenina, uma mulher de 27 anos, aparentemente com um brilhante futuro profissional pela frente, que passa por um processo iniciatório. Esse processo é algo que ela não pode evitar e que questiona e mexe com toda a vida da jovem e de sua família.


Quem tenha passado por iniciações de algum tipo sabe que uma vez que o processo começou não pode ser detido. Frente a isto nossa mente se debate, luta, questiona, quer modificar os acontecimentos, e muitas vezes, é tanto o esforço que colocamos que até parece que conseguimos parar o processo, mas logo o preço é muito alto. Muitas vezes escolhemos entrar ou não em um processo iniciatório, mas para muitos essa não parece ser uma escolha. Em alguns casos uma força que muitos chamam de destino, outros de karma ou talvez simplesmente de Energia, parece levar-nos irremediavelmente por iniciações que talvez tivéssemos querido evitar ou deixar de lado. Mas, na história que nos conta Cassandra, este aspecto não interessa, o importante é que ela deve cumprir uma missão: a de comunicar. Então, Lenina precisa entender o que vai comunicar, ou pelo menos tentar entender a fonte de onde a mensagem procede.


Antes que o espírito de uma esplendorosa mulher que recebe muitos nomes se apresente para a nossa personagem, ela passa por uma iniciação que acontece na sua própria casa, no seu próprio quarto. Aqui não tem sacerdote realizando rituais nem mostrando o caminho, mas na verdade não sabemos o quanto Lenina pode ter se familiarizado com isso antes. O que sabemos é que ela tem somente a assistência da sua avó, uma pessoa aparentemente católica mas que parece estar bastante familiarizada com assuntos de mediunidade e possessão de espíritos; já que várias vezes oferece para sua neta chamar “alguém que entenda do assunto”, um médium com experiência ou um Pai ou Mãe de Santo. Sua neta se nega a isso porque ela está em estreita comunicação com alguém a quem ela chama de Angá. A própria Lenina diz que Angá é uma alma, e neste caso uma alma muito evoluída que intermedeia o processo iniciatório. Talvez poderíamos, desde outro contexto, interpretar essa Angá como uma espécie de daemon pessoal que tem a função de guiar, orientar e ensinar.


Quando Cassandra Rios nos descreve o processo iniciatório de Lenina vemos que é difícil, e que ela narra as experiências que como humanos estamos sujeitos a passar e das quais não temos como fugir. As iniciações representam um processo de nascimento, decaimento, morte e renascimento. Neste processo a nossa personagem vê vários tipos de seres espirituais de aspecto assustador mexendo no seu corpo, tirando a sua roupa, espetando-a, causando dor como se isso não importasse. Ela é crucificada, enterrada e logo coroada. Mas Lenina tem consciência de tudo isso porque, mesmo que para ela tenha sido real o fato de estar sendo enterrada, de sentir seres devorando e desgarrando sua carne, sua mente estava lúcida, sabendo de tudo, que ela não tinha morrido, muito pelo contrário, sua mente estava mais viva que nunca. A nossa personagem começa a pensar na sua família, que nunca saberia que ela estava enterrada embaixo da sua própria cama, que sentiria sua falta, mas nunca saberia o que aconteceu com ela. Mas isso não foi um processo que apareceu do nada, este processo tinha sido explicado antes pela sua Angá e a própria Lenina o aceitou. Mas, mesmo assim, a sua mente se desespera, e no início somente pensa em que tudo isso passe logo para voltar ao normal, mas, quase no final do processo, o que ela quer é que sua mente também morra, porque ela sofre mais sabendo o que acontece do que sentindo os efeitos de tudo aquilo no seu próprio corpo.


Quando tudo aquilo termina e a nossa personagem percebe que esse foi o processo que a sua Angá tinha descrito, e vê que tudo parece ter voltado ao normal, ela percebe uma presença que sente como maléfica e depravada. Estava ali olhando para ela e se aproximando dela sem pedir permissão. O encontro com esse ser poderoso, escuro e de aspecto animal, é vivenciado pela personagem como aquilo que ela instintivamente desejava com todo seu ser mas que, ao mesmo tempo, ela reprime, e ela se culpa por ter sentido e vivido aquilo. Ela na verdade não sabe se aquele encontro aconteceu realmente ou se foi tudo um sonho que deixou consequências para toda sua vida. De certa forma, parece que esse processo iniciatório culminou com o ato sexual que aconteceu entre Lenina e esse ser animal e que a própria Maria Padilha diz que é Elêba, o deus do mal. Ela, ao mesmo tempo em que se sentia violentada, não podia parar de sentir o gozo que ela descreve como uma sucessão ininterrupta de orgasmos e contorções do corpo. Mas, como Cassandra nos deixará ver no livro mais à frente, a personagem poderia ter escolhido, aparentemente a escolha sempre esteve nas suas mãos, mas a pergunta é: até que ponto isso era possível?


Logo depois disso, ela se prepara para continuar com o que sua Angá tinha falado: preparar-se com todos os elementos requeridos para começar seu trabalho espiritual a serviço de outras pessoas. Então, ela deve retirar-se para o que chama “a casa da Angá” na noite do primeiro dia do ano, assim como tinha sido pedido pela Angá. Mas nessa noite aconteceu algo inusitado:



Jamais veria mulher mais linda, mais sensual, envolvente e leve. Impressionante figura que apenas sorrindo tinha o poder de paralisar-me, de deixar qualquer pessoa encantada com a sua beleza.
- Está me confundindo, Lenina. Não sou a Angá.
Então notei. Não era a minha Angá. Era uma outra mulher. A minha Angá era beatifica e essa outra era satânica, diabólica, impressionantemente sensual. Fiquei com medo. Ela sorriu e tranquilizou-me:
- Não se assuste pela minha sensualidade, não sou nenhum iurupari. Eu sou a sensualidade pura, o desejo puro, com todo o calor que posso irradiar de sexo e luxúria, não sou obscena e nem depravada, sou a natureza. Posso gostar de conquistar e ter necessidade de sexo, de gozos, de arrepios, mas não sou Elêba. Você me pediu que falasse no seu idioma quando ocupei o seu corpo, mas ainda uso algumas palavras para que me identifique. [...] Diga ao Juca que não esqueça de oferecer a Angá o espelho que ela lhe pediu. Deverá deixá-lo aqui no Cruzeiro. Ela o pediu para mim. Não posso deixar de ter a minha vaidade pela minha beleza. Natura est sibi consona. Como vê, “a natureza está sempre de acordo consigo mesma”. [3]

Mas quem era essa mulher? Com certeza, Lenina nunca a tinha visto antes e ela se surpreende muito. A personagem mais à frente vai dizer que ela, como mulher, como pessoa, sente-se qualquer coisa frente à imponente figura daquela mulher. Ela tenta saber quem ela é, mas sua pergunta é respondida por outra pergunta, “Quem é a Angá, por exemplo?” Então, ela diz que ambas têm um vínculo importante, diz que é a sua “Jinja Zâmbi”, mas ao mesmo tempo diz que pode também não ser isso. Na verdade, em todo o livro não fica clara qual é a relação que a Angá tem com a misteriosa mulher que acaba se apresentando como Maria Padilha. Mas o fato de que ela revele o nome Maria Padilha não significa que ela revele sua identidade, na verdade não sabemos quem ela verdadeiramente é, nem de onde ela vem. Ela não parece ter interesse em que saibamos isso. Ela se limita a dizer que recebe muitos nomes, tantos que convida a personagem a escolher por qual ela quer lhe chamar. Os nomes pelos quais é conhecida são Maria da Calunga, Maria da Encruza, Maria Molambo, Maria das Rosas Vermelhas, Maria Padilha. A misteriosa mulher diz que ela é muitas Marias e de certa forma deixa entrever que são as pessoas que colocaram esses nomes para ela, e também ela permitiu que lhe chamassem assim. Ela diz que ela vai presidir os trabalhos de Lenina, e esse aspecto vai ter uma importância fundamental na forma como a personagem vai lidar com os acontecimentos futuros.[4] A própria Angá revela que Maria Padilha está ali como uma espécie de filtro, como uma proteção para impedir que certos tipos de espíritos atrapalhem o seu trabalho. Por outro lado, Maria decide se apresentar em um momento de transição importante. Como dissemos anteriormente, era a noite do primeiro dia do ano, e era nesse exato dia que os trabalhos “públicos” de Lenina começariam, assim como uma série de mudanças na vida dela.


Antes do começo dos trabalhos públicos de Lenina, Cassandra Rios apresenta-nos mais uma descrição da misteriosa mulher, mas dessa vez pela boca da irmã da personagem principal, uma moça ainda na sua adolescência tentando lidar com o fato de sentir-se perdida no mundo, e de estar lidando com alguma espécie de doença mental que foi melhorada ou talvez até curada pela Angá de Lenina.



- Puxa, Lenina, a mulher era tão linda, mas tão linda que parecia um manequim ou artista de cinema. Acho que ela deve ser turista. Notei certo sotaque. Vestia umas roupas engraçadas, acho que deve ser hippie ou cigana, sei lá, estava toda de vermelho e preto, enfeitada com colares. Ela me pediu cigarro. Comprou daqueles cigarros pretinhos e fumou na minha frente, sorria para mim e me elogiou. Disse que eu sou bonita. Imagine só![5]

A irmã de Lenina continua ressaltando como aquela mulher se olhava no espelho com vaidade, e, para ela, era uma vaidade com todo direito e bem fundamentada, por ser ela tão incrivelmente bonita. A mulher misteriosa, que segundo Lenina devia ser Maria Padilha, pediu os dados sobre o primeiro trabalho da nossa personagem e falou que iria. E de fato assim fez, mas as consequências da sua presença ali mudariam muitas coisas.


O trabalho transcorreu tranquilamente. Foi iniciado pelo Pai Nosso em nagô e com o traçado de alguns símbolos cabalísticos. Antes de encerrar os trabalhos apareceu alguém que deixou a Lenina perplexa. Maria falou que ela era da Calunga e que ficaria ali até encerrar os trabalhos. E assim aconteceu. Quando todo mundo já tinha saído, a nossa personagem se aproxima de Maria, e entre perplexidade e fascinação indaga novamente quem ela é. Ela diz que as pessoas gostam de tentar achar uma explicação às coisas relacionadas com ela, por exemplo porque tudo com ela é em sete... ela diz que é simplesmente porque gosta. Não tem nenhum motivo para isso. Lenina insiste por uma explicação, mas a resposta que obtém é que Maria não gosta de responder coisas que não explicam nada. De certa forma quando li isso não consegui evitar lembrar de um ensinamento muito importante dentro do Budismo Tântrico: de que serve tentar explicar e encontrar o significado filosófico de uma série de rituais e fórmulas se a nossa mente não consegue chegar à essência dessas coisas? É na verdade a prática que dá o entendimento. Isso não significa que a busca e reflexão sejam inúteis e sim que elas devem fundamentar-se na prática. Devemos vivenciar os ensinamentos com tudo o que somos aqui e agora, e isto não está separado do nosso dia-a-dia, dos nossos medos e de todos os juízos positivos ou negativos que fazemos a nosso respeito.


O que se seguiu a essas palavras foi um encontro sexual altamente erotizado entre Maria e a personagem; ou pelo menos ela acha que assim aconteceu. Tudo pareceu acontecer em um sonho no qual seu corpo vibrava intensamente e no qual conseguia sentir toda a sua essência de mulher. Lenina tinha a ideia de que Maria representava aquela mulher que toda mulher quer ser, aquela que está oculta dentro de nós. Ela a sentia de certa forma, Maria era como uma espécie de desdobramento da sua mente subconsciente, e mesmo Maria falando que não o era, Lenina, na sua necessidade de explicar o que acontecia, ficou com essa impressão. Tudo isso termina com uma Lenina acordando cansada, em êxtase, cheia de prazer, beijando e adorando todo rastro que Maria parece ter deixado da sua presença, e caindo na realidade de que seu lugar de trabalho estava completamente destruído, e que os galos que ali estavam como uma parte importante do seu trabalho estavam todos mortos. A cena era de devastação, de perda, de desesperança, mas sobretudo de culpa. Da mesma forma que a nossa personagem recriminava a si mesma por sentir o desejo que sentira por aquele ser animal, deus do mal, da mesma forma se culpa terrivelmente por ter cedido à paixão que Maria despertou nela. Mas, ao mesmo tempo, ela somente conseguia pensar em poder encontrar-se com Maria cada vez que quisesse.


As palavras da Angá, que aparece no meio dessa cena de devastação são de certo modo bastante esclarecedoras, mas agora a mente confusa e atormentada de Lenina não quer explicações, simplesmente não pode entender.


Os desejos são fenômenos da Natureza e Maria os simboliza. Ela é como um raio que corta o espaço, não se sabe aonde vai cair ou que corpo vai atingir, é preciso que o corpo tenha resistência, forças como os para-raios com os seus sistemas de condutores metálicos, para que ali se arrebentem as descargas elétricas, impedindo que se danifique o corpo. E essa força deveria estar na sua mente, entendendo a razão da existência de tudo sem se deixar torrar por elas.[6]

A Angá dá mais uma oportunidade para a nossa personagem, mas ela já não quer saber disso, o que ela quer é encontrar a Maria de novo. Ela a procura nas encruzilhadas e nos cemitérios durante a noite, e até vai aos trabalhos de outros Pais e Mães de Santo, onde nada é o que ela espera ver, onde ela diz não encontrar nada porque a essas pessoas lhes falta devoção. No meio da desilusão continua sua busca frenética e não obtém resposta de Maria; então começa a se vestir e tentar agir como ela. Mas Lenina, vendo a sua família voltar para todo o conflito anterior e que tinha sido superado depois da sua iniciação, decide que tem que pensar menos nela e mais nos outros, e assim poderia ver e ter Maria novamente. Ela decide começar tudo de novo, ajeita a casa da Angá, mas ela já não vestiu as túnicas brancas que costumava vestir e sim vestiu uma roupa sensual vermelha e preta, e encheu de espelhos o lugar. Agora eram rosas vermelhas e cigarros o que predominava ali e ela, com uma atitude lasciva, entre gargalhadas e frente aos olhos perplexos da sua família, dizia “Saravá!”


Podemos fazer várias leituras desse livro de Cassandra Rios. Um texto literário não se torna interessante pelo estilo de escrita e sim pelo universo de possibilidades que como expressão linguística oferece aos seus leitores. E, assim como na nossa vida vamos compreendendo o que nos rodeia em função das nossas capacidades, no caminho espiritual não é diferente. As iniciações estão acontecendo, em diferentes níveis desde que nascemos, constantemente estamos experimentando a perda de um estado e o advento de outro. Algumas pessoas conseguem fechar os olhos para realidades que estão além da nossa compreensão lógica e vivem sua vida assim, do jeito que muitos consideram “normal”, mas para outros, que em algum momento entreabriram os olhos, mesmo que logo queiram fechá-los e fingir que não aconteceu nada, isso já não é possível. A única escolha é continuar, sendo responsáveis por nossas próprias escolhas e sabendo o quanto elas são importantes.


Não sabemos se alguém poderá entender realmente como foi a história da vida de Cassandra Rios, nem porque Maria Padilha se apresentou nos seus escritos. Não vemos aqui uma Maria Padilha pombagira, e sim uma Maria em forma de mulher que quer comunicar uma mensagem. Podemos dizer que, como uma grande mensageira que viveu constantemente entre luzes e sombras, em uma sociedade que tem medo do diferente, que usa e abusa do misterioso, e que embora sendo criada por humanos não sabe o que é o ser humano, Cassandra Rios cumpriu o papel que se propõe nesse livro magistralmente.


Imagem extraída do livro "Maria Padilha" de Cassandra Rios.

[1] Rodolfo Londero, professor da Universidade Estadual de Londrina e autor do livro Pornografia e Censura: Adelaide Carraro, Cassandra Rios e o Sistema Literário Brasileiro nos anos 1970.


[2] https://entretenimento.uol.com.br/noticias/bbc/2019/03/31/quem-foi-cassandra-rios-a-escritora-mais-censurada-da-ditadura-militar.htm


[3] Rios, Cassandra. Maria Padilha. Ed. Record. Rio de Janeiro, 1979. Págs.: 79-80.


[4] Ibidem. Pag. 80.


[5] Ibidem. Pag.: 85.


[6] Ibidem. Pag.; 106.



Bibliografia:


Rios, Cassandra. Maria Padilha. Ed. Record. Rio de Janeiro, 1979.


https://entretenimento.uol.com.br/noticias/bbc/2019/03/31/quem-foi-cassandra-rios-a-escritora-mais-censurada-da-ditadura-militar.htm https://pt.wikipedia.org/wiki/Cassandra_Rios