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  • Ingrid Gründig

Bixa Travesty

"Como constantemente me torno aquilo que sou, toda a criação envolve destruição."

A sétima arte abraçou, chocou, transicionou e rodou o mundo com Linn da Quebrada. Lugares como Berlim, Toronto, Paris, Belgrado, Valencia, Biarritz, Madrid, Nova York, Milão, Cartagena e muitos outros ao redor do mundo e no Brasil, passaram em suas telonas o documentário que mistura realidade e ficção, contando a história de Linn da Quebrada (uma rapper travesti) com a participação de Jup do Bairro e Liniker.




Ganhador do Teddy Awards e de mais 9 premiações como melhor documentário entre alguns outros prêmios, apresento-lhes hoje Bixa Travesty.

"Muito prazer. Sou a nova Eva. Filha das travas, obra das trevas. Não comi do fruto do que é bom e do que é mal, mas dixavei suas folhas e fumei sua erva."

A força de um corpo trans negro e periférico marcado e taxado como marginal é claramente abordada nesse documentário e como sua luta dentro de um mundo normativo é invisível.

"Nós temos que fazer tudo para nos protegermos"

Outro ponto abordado nesse documentário é de como as travestis são marginalizadas até mesmo no mundo LGBTQIA+ e a solidão que reside nesse mundo tão execrado pela nossa sociedade. Ele retrata bem como é difícil se relacionar com outros corpos que não compreendem a pluralidade de um corpo trans, mostrando que o preconceito não existe só no mundo cis mas sim na própria camada que deveria acolher os "diferentes". Isso tudo nos traz a reflexão de como andamos vivendo em uma grande divisão até mesmo dentro de nichos que lutam pela mesma coisa: aceitação e igualdade, afinal... ser acolhido como um igual deveria ser um direito básico no exercício da liberdade de sermos quem somos. Como esse processo de unificar as lutas é importante, segregar seres humanos em nichos, rótulos e caixas acentua ainda mais a solidão em um mundo abundantemente complicado.

Vale assistir o documentário até mesmo para entender o que é ser diferente. Como mulher, branca, bissexual, feminista, a todo momento me vejo representada de alguma forma em brinquedos, séries, propagandas, novelas, filmes. E os que não são? Onde vivem? O que comem? Como se reproduzem?

Bixa Travesty choca porque trás algo que a nossa sociedade cristã e careta quer continuar a esconder uma realidade antiga para permanecer no controle de nossas mentes e corpos: o Brasil lidera desde 2008 o ranking de assassinatos a transexuais e travestis de acordo com os dados disponibilizados pela ONG Transgender Europe (TGEU). Em 2019 só de assassinatos documentados foram 124, como se a cada 3 dias morresse uma pessoa trans.


Em muitos momentos corpos nus transitam entres as cenas, para o desespero dos que se chocam ao olhar para um corpo. Mas o que é o corpo? O corpo é só o corpo. O corpo não carrega moral. O corpo é amoral. Não deveria chocar. O choque é só o resultado da hipocrisia em um mundo onde o aceito é o que já se conhece, o que não escancara os nossos medos e é confortável em nossas próprias limitações.


Ao longo do filme, temos referências performáticas importantes como a de Ney Matogrosso com Secos e Molhados, no filme também é exposta a visão de pessoas maduras habitando esse espaço de desconstrução, como a mãe da Linn, os relatos de preconceitos diários, e a superação de obstáculos ao redor da vida, com muito humor e sarcasmo.


Tá bom? Ou quer mais? Então desafie-se e assista esse fenômeno mundial, que é esse documentário que consegue ser perturbador e ao mesmo tempo, revolucionário.