• Paulo T. Vasconcellos

As Mentiras da Arte.


Luca Mombello. The Immaculate and God. Detail ~ ca.1560


"Morreu o Rei. Meses depois a Rainha morreu de Tristeza."


Platão (um protótipo de tirano) propõe em seu discurso "A República" que sejam retirados da República ideal todos os poemas que não sejam Ditirambos Elogiosos (pequenos poemas de louvor aos deuses).


Sim, se vivêssemos na República idealizada por Platão, teríamos apenas música gospel para ouvir, motivo de sobra pra se retirar da República Ideal as instruções de Platão sobre a República ideal.


Platão se justificava dizendo que a Arte é uma imitação da Vida, e a Vida é uma imitação do Mundo das Ideias. Por isso, a Arte está a dois passos da verdade, sendo uma distração que afasta da Verdade.


Aristóteles, com muito mais acerto, na minha opinião, sustenta que a Arte não imita a Vida, mas a Idealiza. Por isso a Arte não tem compromisso com a Verdade, mas com a Verossimilhança.


Não é verdadeiro que uma assassina de aluguel tenha tomado um tiro na cabeça, entrado em coma, tido um filho durante o coma, acordado, duelado com seu ex e vencido usando um golpe chamado "Cinco toques do coração que explode".


Mas é verossímil que um casal de ex-namorados sente para conversar o quanto um machucou o outro sem querer e, ao terminar a conversa, aquele que levanta e dá as costas acaba com o coração partido tão logo dá cinco passos da amada.


Sim, Kill Bill é uma analogia sobre uma briga de namorados.


O valor da Arte não está na imitação da Vida, mas em destacar um pequeno elemento dela e abordá-lo em detalhes. Por isso nos filmes ninguém pega troco, tranca a porta ou liga para o número errado se não for parte da Trama: a Arte se ocupa do que é relevante e, através da Beleza, eleva o espírito humano. Essa, pelo menos, é a definição de Poe.


Poe ainda menciona que ao lado da Beleza (a elevação do Espírito) estão a Paixão (o prazer da Emoção) e a Verdade (o prazer do Intelecto) e defende que a Verdade demanda Precisão e a Paixão demanda Familiaridade.


E é aí que começa o problema.


A Arte é criação humana que sai do domínio do Autor e se realiza na interação com o Leitor. É o Leitor que cria a obra em cada interação. Se ele será cativado pelo Espírito, Intelecto ou Emoção, é mérito dele, tendo o Autor mera intenção. E "intenção e resultado são raramente coincidentes".


Se o Intelecto demanda Precisão, o Espírito demanda Beleza e a Paixão demanda Familiaridade, o grande risco é que nos apaixonemos por mera identificação.


"Narciso acha feio o que não é espelho", ou "Nossa, ele é tão inteligente! Fala tudo o que eu penso!".


"Qual o problema em admirar aquilo com o que me identifico?" Perguntará o inquisitivo leitor. Oras, eu gostaria de responder com o argumento de autoridade: "A Arte deve confortar os perturbados e perturbar os confortáveis". Mas isso seria apelar para a identificação do Leitor com Banksy.


Ao invés disso, prefiro dizer que é uma vida muito pobre viver em um mundo que é mera imitação daquilo que já se ama, já se conhece, já se acredita. É como viajar para a Tailândia e comer apenas no McDonald's.


O parágrafo inicial abriu com uma provocação: "Morreu o Rei. Meses depois, morreu a Rainha, de tristeza." Se você for um humano padrão, associou a morte da Rainha à tristeza causada pela morte do Rei, mas isso é inferência do leitor. Nada no texto (que não a malícia do Autor) sugere isso.


Talvez a tristeza da Rainha seja por descobrir que o Rei tinha uma doença terminal e ela desperdiçou seu melhor veneno.


Trocar a familiaridade pela surpresa permite viver em um mundo um pouco mais novo e caótico. E é do Caos que nasce a Vida.

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