• Katy Frisvold

Ao meu espelho


“De quando data a feiticeira? Respondo sem hesitar: Dos tempos do desespero".

– Jules Michelet



Há um fio de escarlate que conecta as fiandeiras de suas próprias realidades. Ele corre através dos muitos veios da terra negra dos sepulcros e das cinzas de muitas fogueiras. A Noite, nosso manto, vela seus filhos: o sono e a morte. No sono, abrem-se as paisagens que nos inspiram. Nostalgia e fantasia. Imagem em ação. Imaginação. Tecido mágico e matéria prima das nossas aspirações, paraísos e infernos.


Pensamento-sentimento puro que tinge a alma, e a alma cria a realidade. Somos criadoras, herdeiras desta centelha que é generosa e maldita. Damos dimensões e limites aos deuses, mantemos viva a memória, criando asilo aos nossos antepassados, o povo feérico, as musas. Tempo-fora-do-tempo. Muitas versões de nós mesmas, muitas vidas em uma só.


Não se preocupe com tolo, pois o tolo forja realidades absurdas porque não consegue ser honesto consigo mesmo. Pelo contrário, ele tenta se convencer, primeiro, de seu próprio sorriso, como máscara sobre o choro do travesseiro. Mas ele se engana. Seu terror não é da noite, mas do próprio dia. O dia dói porque nele este mundo é um de restrição. Como o desamor pode plantar flores no jardim? Como as amargas lágrimas poderiam atrair beija-flor? A dura realidade é o espelho da alma do tolo.


Heresia das heresias é aquela que se cria sem se submeter, nesta exaltação do fio de sangue, enquanto modesta se mantém nas sombras. Tal como a semente que precisa da terra negra a cobri-la, nenhuma transformação é real quando começa à luz do sol, e é aqui, sob o sol, que está a verdadeira ilusão. O começo de toda Arte está no fim do caminho, do dia, da vida. Sem o sono e a morte, a Arte perde o sentido.


Não tenho como ser mais clara se meu desejo é sussurrar para sua alma. Eu bem sei que poetas já fizeram melhor ao trazer à mente e ao coração a mesma mensagem em diferentes cores, sons, texturas e sabores. Trago então estas palavras e imagens que estão aparentemente soltas na esperança de te lembrar de algo, já que você me perguntou.


Não venho como mestra do que sei. É até um disparate, porque neste caminho entendo que sou mestra só do que não sei. Venho com um vaga-lume diminuto a te apontar uma trilha que lá no fundo da sua memória você já conhece. É lá que você vai encontrar seu dom, seu talento e visão própria. Assim, nossos caminhos devem se cruzar, em algum tempo-espaço. “Ali e quando” nos encontrarmos, talvez você precise de mim, mas talvez eu precise de você para entender quem eu sou – espelho meu - e assim talvez possamos, nós duas, dormir, sonhar e parir uma nova realidade.

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