• Eduardo Regis

A Tradição Trapaceada ou o Trapaceiro Tradicionalista


Imagem de John Hain por Pixabay


O Mago é uma figura que tem que trabalhar de acordo com sua percepção (na minha opinião, claro). Caso contrário, como fazer magia e como conhecer sua natureza? Porém, é comum vermos uma infinitude de pessoas que estudam e praticam magia presas em paradigmas e em modelos que não necessariamente harmonizam com elas mesmas. Como discutiremos, isso é esperado do iniciante, mas não do Mago (Aqui, usei Mago para definir o praticante com alguma maturidade). Tentarei levantar um debate especificamente sobre o Mago conectado à tradição esotérica ocidental e sobre como experimentar deveria ser parte do fazer mágico.


A tradição esotérica ocidental é fortemente baseada em alguns sistemas bem estabelecidos, como na Cabala Mística ou Hermética, por exemplo. É evidente que isso tem funcionado. A perpetuação da tradição e a existência de diversas organizações dentro dela atestam a favor disso. Entretanto, existem outras ferramentas e outros métodos para compreendermos mistérios e trabalharmos magicamente e a pergunta que não quer calar é: por qual razão não estamos olhando para estes outros métodos e outras ferramentas?


Embora eu vá discutir com ênfase inicial no exemplo da Cabala Mística, gostaria de alertar que será apenas um estudo de caso (bem superficial, na verdade) conveniente. Apenas para mostrar um ponto. Os leitores notarão que logo eu abandonarei o foco nela. Assim, que fique claro: este ensaio não pretende discutir e muito menos esgotar a origem, as complexidades e o papel da Cabala Mística na tradição esotérica ocidental.


Pico della Mirandola e Agrippa talvez (entre os séculos XV-XVI) tenham sido os primeiros a combinar o Neoplatonismo, o Hermetismo e a Cabala Judaica (aqui adianto um ponto que discutiremos nas partes finais deste ensaio: a mistura) no que daria forma à Cabala Mística que conhecemos hoje. Embora estes tenham sido pioneiros, não seria injusto dizer que o trabalho de Eliphas Levi e da Ordem Hermética da Aurora Dourada sejam os responsáveis pela Cabala Mística ser tão fundamental às sociedades iniciáticas contemporâneas (obviamente, trabalhos estes construídos tendo por base os anteriores).


Uma coisa comum na tradição esotérica ocidental é o uso do símbolo da Árvore da Vida como base para quase tudo. Grandes exemplos são os sistemas de Graus da Ordem Hermética da Aurora Dourada e o famoso “Liber 777” de Alesteir Crowley. Este último se trata de uma lista extensa de tabelas com correspondências estruturadas pela Árvore da Vida. A ideia é que com estas tabelas (que seriam uma versão expandida das tabelas de correspondências que Samuel Mathers havia gerado na Aurora Dourada), qualquer um possa construir uma cerimônia mágica sem muitas dificuldades em observar os elementos que são concordantes. Obviamente, a ideia de correspondências (por simpatia e por outros motivos) é muito anterior ao Crowley. Nos “Quatro Livros de Filosofia Oculta” de Agrippa já encontramos, por exemplo, diversas correspondências (notem quando ele fala das coisas planetárias, como animais, ervas, perfumes etc).


Assim, a primeira vantagem evidente em se trabalhar dentro deste sistema que chamarei de “Grande Sistema Cabalístico” (apenas para conversamos aqui, não levem isso tanto a sério) que está intrinsicamente embebido na tradição esotérica ocidental é que há um corpo de conhecimento bem estabelecido.


Há um problema que geralmente surge quando temos um sistema que nos é apresentado previamente “montado”. Nem sempre concordamos com suas premissas e achados. Às vezes é uma questão de falta de maturidade no sistema, outras vezes, não. Pode ser que nossa construção do ser não se adeque bem à lógica e ao conceito que está sendo trabalhado. Por exemplo, recentemente tive a oportunidade de participar de um pequeno ritual com bases na tradição dos Índios do grupo Sioux dos Estados Unidos da América. A atribuição dos elementos aos pontos cardeais deles (ou pelo menos dessa tradição específica, que convenhamos, pode ter sofrido alguma modificação) é bem diferente da mais usual na tradição esotérica ocidental. A explicação não poderia ser mais simples: “Quando este povo olhava para tal direção via tal coisa e isso simbolizava isto e aquilo”.

Em casos mais extremos, temos uma total (ou significativa) desconexão com o sistema como um todo. Ocorre com pessoas que após algum tempo, geralmente, percebem que aquela maneira particular de entender e de compreender as coisas não anda funcionando tão bem. O que fazer então? Uma boa ideia é certamente procurar outra coisa (Já discuti sobre algo parecido em um texto anterior, que você pode encontrar aqui: https://www.espelhodecirce.org.br/post/o-buscador-eterno ). O mundo é vasto e voltando ao discutido na abertura deste texto: há outras maneiras de se tentar compreender o universo, mesmo no meio mágico (ou diria, principalmente no meio mágico). Ninguém precisa ficar batendo cabeça.


Ou seja, há aqui uma conclusão poderosa: existem outros sistemas com um corpo de conhecimento vasto e que também estão estabelecidos. E outra pergunta surge: o que eles podem nos ensinar?


É claro que nem tudo é unanimidade dentro da tradição esotérica ocidental. Do jeito que estou escrevendo, um leitor incauto pode achar que é uma coisa homogênea, mas não é o caso. De fato, dentro de Ordens, Sociedades e grupos derivados ou inseridos na tradição esotérica ocidental existem discordâncias importantes, inclusive com relação às atribuições e correspondências guiadas pela Árvore da Vida (que é uma referência bem usual dentro destes grupos) .


Por exemplo, os movimentos de Neopaganismo, embora estejam geralmente classificados dentro do que chamamos de “tradição esotérica ocidental” (um termo que o leitor já percebe que é generalista, mas sem algum grau de generalização a discussão pode cair em um relativismo paralisante), costumam ser mais distantes dos seus companheiros de classificação. Isto ocorre, acredito, principalmente pela natureza destes movimentos que tem por base o resgate de paganismos históricos. Entretanto, seria incorreto dizer que muito não é compartilhado com as organizações que não estão preocupadas propriamente com o paganismo moderno. Ou seja, elementos em comum são abundantes e vemos nestes movimentos também (em maior ou menor grau dependendo do movimento), por exemplo, a influência da Cabala Mística. Porém, ferramentas e correspondências próprias das tradições pagãs históricas podem tomar precedência a qualquer coisa derivada desta Cabala. É uma questão de identidade.


Será então que certos elementos, como a Cabala Mística, são um elemento de identidade para as organizações ditas Herméticas? É uma possibilidade que vale alguma discussão. Levando isto em conta, gostaria de desviar o debate para um ponto mais íntimo. Deixemos de lado tanto os agrupamentos e pensemos nos indivíduos, que embora possam fazer parte de um agrupamento específico, não precisam se definir ou ainda apenas se definir por tais grupos.


Há um exercício clássico no qual se pede a duas pessoas que descrevam um mesmo fenômeno. É evidente que cada uma o descreverá de maneira diferente e com base na sua realidade e histórico. É possível, claro, dentro de grupos sociais, perceber que certos conceitos são compartilhados. Entretanto, quando chegamos mais próximo do íntimo começam a aflorar diferenças que podem parecer pequenas em uma investigação superficial, mas que, em verdade, talvez sejam as mais impactantes. Ou seja, o exercício já parte de uma premissa que pode ser falha. Afinal, há um mesmo fenômeno quando se considera diferentes observadores? Muitos disseram que não (e dizem ainda) e basearam importantes estudos nessa ideia.


Cada indivíduo é diferente e oferece uma perspectiva única e assim também deveria ser com o trabalho mágico. Em outras palavras: a tradição nos ensina, mas não nos limita. Quando não há experimentação e liberdade, corremos o risco apenas de repetir mecanicamente ideias e ações. É um caminho perigoso que poderá levar ao fracasso. Porém, é o caminho que o iniciante segue. Como discute com muita propriedade meu amigo Pêu Lamarão, o iniciante primeiro “imita” (Vejam ele aqui: https://www.youtube.com/watch?v=KVmGRoaimgo ). Só a maturidade dentro do sistema (e maturidade não é coisa que venha fácil e nem com “graus” necessariamente) levará ao próximo passo que é o de não mais imitar e de “saber” e de, finalmente, colocar aqui e ali sua assinatura própria.


Agora podemos imaginar o que ocorre quando o iniciante tenta colocar sua “assinatura própria”. Geralmente (E enfatizo o “geralmente”, pois, claro, há exceções) a falta de maturidade e de compreensão do sistema o levará a realizar alterações e inserções que ao invés de manter viva a chama da tradição, servirão apenas ou para enfraquecê-la ou para apaga-la. Isto será discutido mais adiante com mais propriedade, mas não é qualquer alteração, exclusão ou inserção em um sistema tradicional que “concorda” com esta tradição. Aliás, as modificações mais orgânicas costumam ser as mais bem-sucedidas e na ampla maioria dos casos vem da prática continuada.


Afinal, é importante manter a tradição? Eu acredito que se você não for um gênio (no sentido de genialidade criativa e não de inteligência analítica fria) que irá inaugurar uma tradição nova ou uma inovação importante (Se for, ótimo, precisamos sempre desses), é importante estar ligado a uma tradição. Na verdade, este gênio, antes de inovar radicalmente estava ligado e seguindo uma tradição ou jamais teria atingido esse nível de maturidade e de domínio (Importante deixar registrado que este entendimento ou nasceu de uma conversa ou de troca de mensagens no Facebook com Nick de Mattos Frisvold).


O Mago da tradição esotérica ocidental está intimamente conectado à espiritualidade (A Grande Obra) e o acesso a algumas chaves do desenvolvimento mágico e espiritual é, de fato, extremamente facilitado por meio da transmissão que é possível apenas pela tradição. É como René Guénon fala em “Considerações sobre a Iniciação”, a iniciação tem uma origem “não humana” em sua fonte primária e isso precisa ser passado por quem já recebeu. A cadeia de transmissão iniciática é o que permite ao iniciado o acesso a estas inspirações transmitidas. A tradição garante essa cadeia, dentre outras coisas.


Uma observação: com isso não quero dizer ou sugerir que práticas ou grupos que não visem o trabalho espiritual sejam menores. Apenas estou trabalhando dentro dos conceitos mais usuais da tradição esotérica ocidental. Tem espaço pra tudo.


Como escrevi, alguns nomes surgem com tamanha genialidade que conseguem fazer uma verdadeira “miscigenação” de elementos de diversas tradições ou até mesmo alterações pontuais, sem que isto seja prejudicial ou meramente vazio. Pelo contrário, ou surge algo novo ou surge uma novidade dentro de um contexto. Novamente, tais aglutinações e modificações se não forem realizadas por alguém já experiente e maduro e que já passou por vários processos, provavelmente se mostrarão inúteis ou deletérias. Entretanto, alguns indivíduos conseguem dar sentido e propósito a essas inovações.


Michael Bertiaux é um esoterista ímpar e um bom nome para chamarmos para esta discussão (Se você não conhece Bertiaux, uma boa ideia é dar uma passadinha no site da OTOA-LCN Brasil: https://www.otoa-lcn-brasil.com.br/blog ). Claramente com influências da tradição esotérica ocidental (principalmente do esoterismo Francês), ele também foi significativamente influenciado pelo Vodou Haitiano e pelo seu mentor Jean-Maine. Disto resultou um apanhado de produção bibliográfica que revelou um sistema no qual é impossível negar que haja muito da vida e da personalidade de Bertiaux. É claro que Bertiaux não criou isso na primeira semana de trabalho. Como pode ser visto em seus livros, foi e é o trabalho de uma vida.


Convoquei Bertiaux pois considero absolutamente brilhante o que ele fez. Assim como Pico della Mirandola lá no século XV, Bertiaux pegou um monte de coisas que faziam sentido para ele e as misturou organicamente. O resultado foi um sucesso enorme, principalmente no que tange a sua prática pessoal, tenho certeza.


Nós somos Brasileiros (pelo menos a maioria de leitores deste site deve ser, mas os que não são eu aposto que tem um belo espírito Brasileiro, então, sintam-se incluídos). Somos nascidos e criados em um ambiente de miscigenação. Africanos, Índios e Portugueses aqui se misturaram em um processo complexo, conflituoso e cheio de atitudes lamentáveis, mas que, de toda a sorte, gerou uma nação com uma riqueza cultural incrível (aqui, sinto-me obrigado a deixar minha indignação quanto a toda a intolerância que vem sendo praticada neste país). Portanto, não deveríamos ser tão avessos a “misturar”. Claro, com parcimônia e de maneira que seja harmônica. É como Nick de Mattos Frisvold, que temos o prazer de ter aqui entre nossos colaboradores, escreveu em seu livro “Artes da Noite” sobre onde podemos encontrar a continuidade de uma tradição: “numa sábia assimilação e intercâmbio de conhecimento” (Vocês acharão isso na página 17 da edição Brasileira pela Editora Rosa Vermelha). Ênfase minha para o “sábia”. Sabedoria não é inteligência. Sabedoria é algo mais raro.


É claro que este recado não serve apenas pra Brasileiros. Bertiaux é Estadunidense. Antes dele, Pico della Mirandola era, bem, de Mirandola. Então, temos aí. A aglutinação cultural é uma capacidade intrínseca humana. Podemos usar outros exemplos: Os Congoleses, como coloca muito bem John Thornton, tinham um sistema religioso bem “plástico” e quando o Cristianismo chegou até eles, o adotaram, mas não sem dar a ele um toque totalmente diferente do Cristianismo Europeu. Também não abandonaram necessariamente suas crenças nativas por conta disso. Os eclesiásticos que vieram catequizar os povos Ameríndios da América Espanhola ficaram de cabelos em pé com a maneira pela qual os nativos representavam, por exemplo, os Santos e a Virgem, utilizando sua estética artística tradicional. O resultado era uma mistura no campo também religioso.


O mundo não acabou por causa dessas misturas. Pelo contrário, coisas novas surgiram e elementos milenares foram sendo perpetuados. Então, agora, depois de darmos um passeio, vamos tentar voltar ao ponto principal. Ora, o que está acontecendo com a tradição esotérica ocidental que parece principalmente preocupada em repetir uma fórmula ou fortemente baseada na Aurora Dourada ou em Crowley? Talvez a resposta esteja na identidade. Talvez a questão seja ainda que o aparecimento destes gênios seja raro.


A pergunta que eu gostaria de fazer para começar a encerrar esse ensaio é: por qual razão nós que estamos inseridos na tradição esotérica ocidental ficamos presos, geralmente, a um só modelo? Ou elegemos um modelo como o principal e todos os demais são apenas “acessórios”?


Nós como indivíduos somos plurais. Em música, é comum um indivíduo gostar de mais de um gênero. Em literatura, bastante usual aquele que lê do terror às biografias. Todas essas experiências são diferentes e podem dar satisfações distintas. Não são concorrentes.


Meu conselho (Sim, se escrevi perto de 2.000 palavras até agora e alguém leu, vou me permitir dar um conselho a essa pessoa) é o seguinte: ouse procurar coisas novas. Lembre-se que o Mago é uma figura Mercurial. Mercúrio e Hermes, muitas vezes geminados, mas certamente conectados, são figuras fluidas, figuras “trapaceiras”. O Mago é o “trapaceiro dos trapaceiros”, pois ele não segue a regra de ninguém. O Mago faz a regra do seu jogo e faz isso com sabedoria, ou simplesmente não haveria mais o que jogar.


Faça seu laboratório mágico. Crie. Descubra o que funciona e o que não funciona. Quebre a sua cara. Tenha humildade de assumir que algo não funcionou quando não funcionar. Construa em cima desse erro. Tente outra vez. Converse com quem já tem um pouco mais de estrada. Essas pessoas já tentaram muitas coisas e podem te ajudar a entender o que poderia e o que não poderia funcionar. Ou seja, tente às cegas, se quiser, mas também tente com algum direcionamento.


Principalmente: entenda quando é o momento e o local de ser transgressor e quando e onde é melhor seguir o protocolo. O Mago é “trapaceiro”, mas não precisa ser babaca. Muito menos burro e não deve jamais desperdiçar suas oportunidades.


Se você está numa Ordem que segue uma tradição estrita e que pede uma forte observância a certos dogmas e cerimônias, minha sugestão é manter-se dentro do “esperado” nos trabalhos dessa dita Ordem. Entretanto, em casa, no seu espaço pessoal e no seu trabalho individual, o que lhe impede de ser mais ousado?

Estou certo de que escrevi demais e que ficou um pouco confuso. Espero que aqui e ali eu tenha conseguido passar algum recado. Como sempre, este ensaio reflete apenas minha experiência e opinião pessoal. Todos são, claro, livres para discordar e, caso estejam inspirados, joguem a discussão aqui nos comentários.

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