• Paulo T. Vasconcellos

A Red Wheel Barrow.

(Ou “A Saudades que eu Tenho do Curso de Letras.”)


Mr. Robot é o melhor seriado que eu já vi. O que quer que você esteja fazendo, pare de ler esse texto e vá assistir Mr. Robot.





(Mentira, não para não, termina o texto que eu tô me sentindo carente de leitores. Brigado.)

Em um determinado episódio, um determinado personagem faz a afirmação “A Red Wheelbarrow”, o que deixa o outro personagem perplexo, ao que ele continua “É a única coisa em inglês que meu pai sabia falar”, e declama o poema de William Carlos Williams, "Red Wheelbarrow":


“so much depends upon 


a red wheel barrow 


glazed with rain  water 


beside the white chickens”


A performance dos atores e o desenrolar da história (vai assistir, cazzo) dão ao poema uma emotividade tocante. Admito que eu achei inicialmente o poema tosco (“tanta coisa depende de um carrinho de mão vermelho, molhado de chuva, do lado das galinhas brancas”) mas resolvi ir atrás do poema. E dos ensaios críticos. E bateu saudades do curso de Letras.


***


Nas palavras do poeta, ele escreveu aquele poema movido pelo afeto e admiração que nutriu por um pescador e seu filho, que, mais de uma vez, mencionou que trabalhou “até os joelhos” no gelo, mas não sentia frio. O autor, médico, estava tratando do filho doente do pescador em um inverno mais rigoroso. Em um momento de espera para ver se o tratamento surtia efeito, olhou pela janela, e, ao ver o Red Wheelbarrow no quintal, ao lado das galinhas brancas, se sentiu tocado e escreveu.


***


O problema é que, uma vez que o poema é escrito, ele não pertence mais ao autor. Ele poderia falar o que quisesse a respeito do poema e do que o levou a escrever. Pouco importa. Poesia é o que o Leitor lê, não o que o escritor escreve.


Um ensaio menciona que Williams, membro das vanguardas da época e amigo de Ezra Pound, se inspirou no estilo fotográfico, se dedicando a pintar uma imagem com palavras.

Outro ensaio menciona que, por meio da quebra calculada das palavras, ele cria poesia com uma mera frase.


Outro sugere que o Carrinho é uma das máquinas simples de Aristóteles, sugerindo que muito da nossa vida é baseada na simplicidade.


Outro sugere que a chave do poema está na palavra depende.


Nenhum deles tem base no que o Autor quis dizer. Todos eles se baseiam no que o Autor disse.


Intenção e resultado raramente são coincidentes.


***


“So much depends”. Tanto depende. Tanto o quê? Inexiste limitação, inexiste indicação. A primeira estrofe não limita nada e pode ser extravasada para a Vida. A segunda estrofe se limita a uma palavra “upon”. Juntas as duas primeiras estrofes compõe uma única frase, a ser complementada pelas três estrofes seguintes.


A segunda estrofe é, em minha opinião, a chave para o entendimento do poema. Apesar de o título ser “The Red Wheelbarrow”, a palavra Wheelbarrow é separada em Wheel + Barrow.


Wheel, a Roda, sendo um símbolo de ciclo e repetição, traz a noção de tempo.


Barrow, em tradução, é um pequeno monte de pedras e terra usado para sepultar os mortos. Uma cova rasa.


Wheel Barrow pode ser entendido como o ciclo de covas rasas, todos os que morreram antes de nós, todos os que trabalharam, foram sepultados e fertilizaram a terra.


À imagem da roda e da túmulo se acrescenta a chuva, cobrindo tudo em um filme de água, caindo sobre tudo. Não se controla a chuva. Se aceita.


As galinhas brancas, ao lado, indiferentes. O dia a dia e a rotina, sem planos e sem vontade.


Tanta coisa depende do tempo, dos mortos, do acaso e daquilo que fazemos sem pensar.


***


Saudades do curso de Letras.

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